A higiene das mãos com soluções alcóolicas é uma medida fortemente recomendada pela OMS para prevenção de infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS), este artigo relatando possível impacto da tolerância ao álcool por cepas de Enterococcus faecium no aumento de infecções por este agente trouxe muita preocupação para os controladores de infecção. O que de fato está comprovado cientificamente a respeito e qual seu possível impacto nas IRAS?

Por que os autores suspeitaram desse problema?

A Austrália apresenta altos índices de aderência à higiene das mãos com soluções alcoólicas, desde 2.002, superando 80% de conformidade, em 2015, com redução significativa de IRAS, particularmente causadas por MRSA. Entretanto, vem observando um crescimento de colonização e infecção por Enterococo resistente à vancomicina, desde 2.005, atingindo níveis mais altos que os relatados em outros países. Na tentativa de explicar este aparente paradoxo os autores lançaram a hipótese do E. faecium estar desenvolvendo intolerância ao álcool, empregado tanto para higiene das mãos como na desinfecção ambiental, o que aliado às falhas nas precauções padrão e específicas, levariam à sua disseminação.

Como os autores desenvolveram sua pesquisa?

Os autores analisaram 66 cepas de E. faecium isoladas em hemocultura entre 1988 e 2015 no Austin Hospital, das quais 37 eram resistentes à vancomicina. Todas eram sensíveis ao álcool a 70% (v/v), porém várias cepas eram tolerantes ao álcool a 23% (v/v) e esta tolerância está aumentando continuamente, com significância estatística, sugerindo a existência de pressão seletiva. Foi empregada no teste a concentração de 23% porque outros microrganismos já desenvolvem tolerância a esta concentração de álcool.

Qual é o mecanismo de ação do álcool e como esta tolerância é desenvolvida?

Os álcoois de cadeia curta, como o etanol e o isopropílico, rompem a integridade da membrana bacteriana, causando a morte microbiana. Ainda não se sabe como os microrganismos resistem à ação do álcool.

É possível que exista relação com a resistência à vancomicina ou outros antibióticos?

Os autores não encontraram relação entre resistência à vancomicina e tolerância ao álcool, nas cepas estudadas, porém existem relatos em literatura que a exposição de Acinetobacter baumannii a concentrações não letais de álcool aumenta sua virulência e que a exposição do próprio E. faecium a subdosagens de clorexidina aumenta a expressão dos gens de resistência à vancomicina vanA.

Mas o álcool é empregado a 70%, como pode esta pressão seletiva ter se desenvolvido?

Os autores lançaram a hipótese que existem falhas técnicas na aplicação deste produto tanto nas mãos como no ambiente e com isto ele não atinge esta concentração efetiva na prática, favorecendo a transmissão cruzada e a pressão seletiva.

Qual o impacto deste achado na nossa prática profissional?

Em primeiro lugar os autores lançaram uma hipótese para explicar esse paradoxo entre a alta aderência à higiene das mãos com produtos alcoólicos na Austrália, a redução da maioria das infecções, exceto para o E. faecium, que ao contrário vem aumentando. Assim, eles recomendam que nos hospitais onde as infecções por E.faecium sejam endêmicas, se otimize a aderência aos protocolos de higiene das mãos com exposição adequada ao álcool por tempo e volume suficiente, preferindo formulações líquidas e a correta observação das precauções padrão e especiais, particularmente de contato, quando recomendada. Os autores sugerem novos estudos para comprovar essa relação da tolerância ao álcool com o aumento de colonização ou infecção por E. faecium.

Qual a opinião dos autores desta resenha sobre este artigo?

Na opinião dos realizadores desta resenha, este artigo apenas levanta uma hipótese, mas não a comprova de fato. Não foi feito um estudo observacional sob o uso do álcool tanto na higiene das mãos, como na aplicação ambiental, para fundamentar seu uso incorreto. Além disso, como compatibilizar uma alta aderência à higiene das mãos encontrada da Austrália, o que pressupõe que os profissionais de saúde estão motivados para esta prática, com realização de técnica inadequada. Também não compreendemos como erros na técnica de friccionar as mãos pode provocar diluição do álcool. Pode afetar sua distribuição, mas não sua diluição.

Enfim, este texto traz a importante informação da tolerância do E. faecium ao álcool, mas não comprova definitivamente a sua relação com o aumento de colonização ou infecção com este agente, uma vez que a concentração de uso do álcool é a 70% e não 23% e não fomos convencidos quais erros técnicos podem provocar a diluição do produto, como ele é habitualmente empregado na prática hospitalar.

Fonte: Pidot SJ et cols: Increasing tolerance of hospital Enterococcus faecium to handwash alcohols. Sci Transl Med. 2018 Aug 1;10(452).
Resenha por: Antonio Tadeu Fernandes & Vívian Lopes


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