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PÓS-GRADUAÇÃO EM SAÚDE:

MBA EM CCIH, CME, SEGURANÇA DO PACIENTE, FARMÁCIA CLÍNICA E HOSPITALAR, FARMÁCIA ONCOLÓGICA

Sepse Pediátrica em 2026: o que as novas diretrizes realmente mudam — e como atualizar suas condutas

As novas diretrizes pediátricas da Surviving Sepsis Campaign 2026 mudam a forma de reconhecer, tratar e acompanhar crianças com sepse. Entenda o impacto do Phoenix Sepsis Score, as recomendações sobre fluidos, antimicrobianos e suporte intensivo — e por que a maior lacuna não está na evidência, mas na execução. Um guia crítico para infectologistas, intensivistas, CCIH e gestores que precisam transformar diretrizes em resultados reais.

Apresentação

Sepse pediátrica em 2026 não é mais um problema de conhecimento — é um problema de execução.

As novas diretrizes da Surviving Sepsis Campaign finalmente oferecem um framework estruturado para o manejo da sepse em crianças, consolidando evidências, definindo prioridades e incorporando conceitos como o Phoenix Sepsis Score. No papel, nunca estivemos tão avançados.

Mas há um desconforto inevitável: mesmo com diretrizes mais claras, a mortalidade continua elevada — especialmente em sistemas de saúde heterogêneos como o brasileiro.

Isso expõe um ponto crítico: o verdadeiro desafio não é saber o que fazer, mas garantir que isso aconteça no tempo certo, com consistência e integração entre equipes.

Este artigo analisa, de forma crítica, o que realmente mudou nas diretrizes pediátricas, onde estão as principais controvérsias e — sobretudo — como transformar recomendações em prática institucional.

Resumo crítico

O artigo analisa as diretrizes pediátricas da Surviving Sepsis Campaign 2026 como um marco histórico — mas desmonta uma ilusão perigosa: a ideia de que diretrizes, por si só, resolvem o problema da sepse.

A principal tese é clara e incômoda: a sepse pediátrica deixou de ser um problema de conhecimento e passou a ser um problema de execução.

As diretrizes avançam em três pontos fundamentais:

Primeiro, consolidam um corpo estruturado de recomendações específicas para crianças, rompendo com décadas de extrapolação inadequada de protocolos adultos. Isso inclui desde reconhecimento precoce até reabilitação pós-alta, organizados em um fluxo coerente de cuidado.

Segundo, incorporam uma mudança conceitual relevante com o Phoenix Sepsis Score, que desloca o foco da inflamação (SIRS) para disfunção orgânica mensurável, alinhando prática clínica, vigilância e pesquisa.

Terceiro, reforçam a integração entre manejo clínico e stewardship antimicrobiano, reconhecendo que iniciar antibiótico rapidamente é tão importante quanto saber interrompê-lo adequadamente.

Mas o artigo é especialmente forte ao expor as fragilidades:

A maioria das recomendações ainda se baseia em evidência de baixa qualidade, o que exige julgamento clínico e adaptação local — algo que muitos serviços não estão preparados para fazer.

Além disso, há tensões importantes não resolvidas:

  • expansão volêmica agressiva versus risco em ambientes sem suporte intensivo
  • uso de terapias adjuvantes com evidência limitada
  • ausência de ferramentas confiáveis de triagem universal

O ponto mais estratégico está na leitura sistêmica: sepse pediátrica passa a ser um marcador de maturidade institucional.

Não basta reconhecer e tratar — é necessário:

  • estruturar linhas de cuidado
  • integrar pronto-atendimento, enfermaria e UTI
  • alinhar CCIH, stewardship e governança clínica
  • monitorar indicadores em tempo real

O artigo conclui que o verdadeiro diferencial entre instituições não será acesso à diretriz, mas capacidade de implementação consistente — especialmente em sistemas heterogêneos como o brasileiro.

Índice

  1. Introdução: por que as diretrizes pediátricas da Surviving Sepsis Campaign importam
    1 Uma campanha global que finalmente olha para crianças
    1.2 Carga global de sepse pediátrica e necessidade de diretrizes específicas
    1.3 Objetivos centrais do guia pediátrico
    1.4 Relevância estratégica para o Brasil e para o controle de infecção
  2. Escopo, metodologia e estrutura das diretrizes pediátricas
    1 Painel, metodologia e número de recomendações
    2.2 População-alvo e contexto de aplicação
    2.3 Organização interna do guideline
  3. Definições, epidemiologia e fisiopatologia
    1 Definição de sepse e choque séptico em crianças
    3.2 Epidemiologia: incidência, mortalidade e grupos de risco
    3.3 Fisiopatologia: resposta imune, endotélio e microcirculação
  4. Reconhecimento clínico precoce e triagem
    1 Triagem sistemática e limitações do screening universal
    4.2 Sinais clínicos de alarme
    4.3 Implicações para pronto-atendimento e enfermarias
  5. Hemodinâmica e ressuscitação
    1 Uso de fluidos: volumes, velocidade e cautelas
    5.2 Vasopressores e metas de perfusão
    5.3 Controvérsias em ambientes de baixa e média renda
  6. Terapia antimicrobiana
    1 Tempo de início: primeira hora versus abordagem individualizada
    6.2 Escolha empírica, ajuste e duração
    6.3 Integração com stewardship antimicrobiano
  7. Suporte respiratório e ventilação
    1 Oxigenoterapia e ventilação não invasiva
    7.2 Manejo da SDRA pediátrica
    7.3 Aplicação na realidade brasileira
  8. Terapias adjuvantes e suporte de órgãos
    1 Corticosteroides, imunoglobulina e hemoadsorção
    8.2 Força das recomendações e limitações da evidência
    8.3 Lacunas de conhecimento e agenda de pesquisa
  9. Reabilitação e seguimento pós-alta
    1 Síndrome pós-terapia intensiva pediátrica
    9.2 Papel das equipes multiprofissionais
    9.3 Desafios no SUS e na saúde suplementar
  10. Adaptação à realidade brasileira: CCIH, gestão e qualidade
    1 Linhas de cuidado e segurança do paciente
    10.2 Papel estratégico da CCIH
    10.3 Indicadores e monitoramento institucional
  11. Perspectivas e atualizações recentes
    1 Phoenix Sepsis Score e consenso internacional
    11.2 Atualizações da Surviving Sepsis Campaign 2026
    11.3 Integração com outras diretrizes e iniciativas de qualidade

FAQ: Sepse Pediátrica em 2026 = as novas diretrizes

  1. O que as diretrizes pediátricas da Surviving Sepsis Campaign 2026 realmente mudam na prática clínica?
    As diretrizes de 2026 consolidam, pela primeira vez, um conjunto estruturado de 61 enunciados específicos para manejo de sepse e choque séptico em crianças, cobrindo todo o continuum do cuidado: reconhecimento, hemodinâmica, antimicrobianos, suporte respiratório, terapias adjuvantes e reabilitação. Isso substitui a prática de extrapolar protocolos adultos, oferecendo fluxos pediátricos próprios e explicitando força da recomendação e grau de certeza da evidência.
  1. Qual é a nova definição de sepse pediátrica e o papel do Phoenix Sepsis Score?
    O Consenso Internacional de 2024 define sepse pediátrica como infecção com disfunção orgânica mensurável em pelo menos um de quatro sistemas: respiratório, cardiovascular, neurológico ou coagulação, operacionalizada pelo Phoenix Sepsis Score (PSS). Sepse é identificada com PSS ≥ 2 e choque séptico com sepse + pelo menos 1 ponto no subescore cardiovascular; a SSC 2026 passa a se alinhar explicitamente a esse modelo.
  1. Como adaptar as definições Phoenix e SSC 2026 à realidade de hospitais brasileiros de média complexidade?
    A recomendação central é usar o Phoenix Sepsis Score como linguagem comum para vigilância, estratificação de risco e pesquisa, mas adaptar os gatilhos operacionais de ação (ex.: quando acionar protocolo, quando transferir, quando iniciar vasopressor) à capacidade de monitorização e suporte de cada instituição. Em hospitais de média complexidade, isso significa: priorizar a identificação precoce de disfunção orgânica, ter fluxos claros de transferência regulada e evitar protocolos volumosos de ressuscitação em locais sem UTI pediátrica.
  1. Quais são os sinais de alarme clínico em crianças com suspeita de sepse recomendados pelo guideline?
    O guideline destaca taquicardia persistente desproporcional, extremidades frias, tempo de enchimento capilar prolongado, pulsos fracos, taquipneia ou aumento do esforço respiratório, alteração aguda do estado mental (irritabilidade, letargia, rebaixamento) e oligúria como sinais que exigem avaliação imediata. Hipotensão é considerada marcador tardio de choque em pediatria, e esperar a queda de pressão para “chamar de choque” é visto como erro crítico.
  1. A SSC 2026 recomenda triagem universal de sepse pediátrica com scores eletrônicos?
    Não. O guideline afirma que a evidência para screening universal padronizado em pediatria ainda é limitada e heterogênea, e não apoia, hoje, a recomendação de um único score como padrão ouro. A prioridade é qualificar a avaliação clínica inicial e construir fluxos claros de alerta e resposta rápida, podendo usar ferramentas locais (checklists, triagens) desde que validadas internamente e integradas a um processo de resposta estruturado.
  1. Qual é a recomendação da SSC para ressuscitação com fluidos em choque séptico pediátrico e como isso deve ser modulado em contextos de recursos limitados?
    Em sistemas com acesso a UTI pediátrica e suporte intensivo, a SSC 2020/2026 recomenda bolos de cristaloide de 10–20 mL/kg, até 40–60 mL/kg na primeira hora, com reavaliações frequentes e interrupção diante de sinais de sobrecarga. Em contextos sem ventilação mecânica e monitorização adequada, o guideline adota postura muito mais cautelosa, reconhecendo o sinal de dano do estudo FEAST e sugerindo volumes menores, reavaliação intensiva e introdução mais precoce de vasopressores.
  1. Quais vasopressores a SSC recomenda como primeira linha em choque séptico pediátrico?
    A SSC sugere adrenalina ou noradrenalina como drogas de primeira linha, desencorajando dopamina devido a maior risco de arritmias e piores desfechos observados em ensaios pediátricos. A escolha entre adrenalina ou noradrenalina é pragmática, considerando fenótipo de choque (frio/quente), experiência da equipe e disponibilidade, reservando vasopressina ou inodilatadores para choque refratário.
  1. Qual é a orientação da SSC sobre tempo para antibiótico em sepse e choque séptico pediátrico?
    Para choque séptico, a recomendação é administrar o primeiro antimicrobiano “o mais rápido possível, idealmente dentro da primeira hora” após reconhecimento. Em sepse com disfunção orgânica sem choque, recomenda-se iniciar o mais breve possível, preferencialmente até 3 horas, após avaliação clínica adequada, evitando uso indiscriminado em quadros não infecciosos.
  1. Como integrar as recomendações de antimicrobianos com stewardship antimicrobiano institucional?
    O guideline reforça que iniciar antibiótico rápido em choque séptico é inseparável de reavaliar diariamente a necessidade, espectro e duração da terapia, com foco em desescalonamento e interrupção precoce quando seguro. Recomenda-se “time-out” antibiótico em 48–72 horas, com revisão conjunta entre assistência, CCIH e farmácia clínica, e evitar uso de procalcitonina isoladamente como “árbitro” de suspensão.
  1. Quais recomendações a SSC faz para suporte respiratório e manejo de SDRA em crianças com sepse?
    Para hipoxemia e aumento de trabalho respiratório, a SSC recomenda oxigenoterapia imediata e admite ventilação não invasiva ou alto fluxo em pacientes selecionados, com monitorização estreita e critérios claros de falha. Na SDRA associada à sepse, orienta ventilação protetora (baixo volume corrente, platô limitado), PEEP adequado, eventual pronação em casos graves e uso parcimonioso de sedação e bloqueio neuromuscular.
  1. Qual é a posição da SSC sobre corticosteroides, imunoglobulina e terapias extracorpóreas (hemoadsorção) na sepse pediátrica?
    Corticosteroides são sugeridos apenas em choque séptico refratário a fluidos e vasopressores, como recomendação fraca e baseada em evidência de baixa qualidade. A SSC não recomenda o uso rotineiro de imunoglobulina intravenosa nem de hemoadsorção de citocinas em sepse pediátrica, restringindo essas modalidades a contextos de pesquisa ou decisões individualizadas em centros de alta complexidade.
  1. Quais são as principais lacunas de evidência e prioridades de pesquisa em sepse pediátrica identificadas pela SSC?
    O guideline lista 52 prioridades de pesquisa, distribuídas em temas como reconhecimento precoce, hemodinâmica, ventilação, antimicrobianos, terapias imunomoduladoras, biomarcadores, reabilitação e implementação de guidelines. Questões-chave incluem: quais subgrupos se beneficiam de corticosteroides, papel real da hemoadsorção, estratégias de volume em contextos de baixa renda e modelos de triagem que realmente melhoram desfechos.
  1. O que é a síndrome pós-terapia intensiva pediátrica e como a SSC recomenda abordá-la?
    A síndrome pós-terapia intensiva pediátrica (PICS-p) inclui fraqueza muscular, limitações funcionais, déficits cognitivos (atenção, memória, aprendizagem) e sintomas emocionais (ansiedade, depressão, estresse pós-traumático) em sobreviventes de UTI pediátrica, incluindo sepse. A SSC recomenda minimizar sedação, promover mobilização precoce, envolver a família, planejar a alta e garantir seguimento multiprofissional (fisioterapia, fono, psicologia, nutrição, atenção primária).
  1. Que papel a atenção primária e a medicina de família têm no seguimento de crianças pós-sepse?
    A SSC e os comentários associados recomendam que as equipes de atenção primária sejam formalmente informadas sobre o episódio de sepse, intervenções realizadas, riscos de sequelas e plano de seguimento. Consultas de seguimento são oportunidades para revisar medicação, avaliar função física e cognitiva, atualizar vacinação, discutir retorno à escola e orientar a família sobre sinais de alerta de piora tardia.
  1. Como as diretrizes SSC pediátricas podem ser integradas a linhas de cuidado institucionais e programas de segurança do paciente?
    Na prática, o guideline deve ser “traduzido” em fluxogramas institucionais que definam: critérios de suspeita, gatilhos de alerta, responsabilidades de cada profissional, metas de tempo (reconhecimento, antibioticoterapia, fluidos, vasopressores) e pontos de checagem de bundles. A incorporação aos programas de segurança do paciente implica registrar sepse pediátrica como evento prioritário, vincular indicadores a planos de melhoria e revisar casos em comitês de morbimortalidade e governança clínica.
  1. Qual é o papel da CCIH e das comissões de sepse na implementação dos bundles pediátricos?
    A CCIH deve calibrar esquemas empíricos com base em microbiologia local, articular o guideline com o programa de stewardship, monitorar consumo de antimicrobianos e perfis de resistência. As comissões de sepse devem auditar adesão a bundles (tempo para antibiótico, volume de fluidos, uso de vasopressores, coleta de culturas), discutir casos críticos e liderar a revisão periódica dos protocolos com participação multiprofissional.
  1. Quais indicadores de qualidade em sepse pediátrica a gestão deve monitorar em painéis institucionais?
    O artigo e o guideline sugerem pelo menos:
  • Tempo entre chegada/primeiro contato e reconhecimento de sepse/choque séptico.
  • Tempo entre reconhecimento e primeiro antibiótico adequado.
  • Proporção de crianças com choque séptico que recebem fluidos e vasopressores nos prazos definidos.
  • Mortalidade ajustada por gravidade.
  • Taxa de uso de UTI, ventilação mecânica e vasopressores.
  • Adesão aos bundles (por exemplo, bundle da primeira hora).
    Esses indicadores devem ser apresentados em dashboards por unidade, turno e equipe, integrando-se a núcleos de segurança do paciente, CCIH e diretoria clínica.
  • SSC 2020/2026 – foco em qualidade e implementação: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7095013/
  • Programas de melhoria em sepse pediátrica: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11357791/
  1. Como as diretrizes SSC pediátricas se conectam a outros documentos SCCM, como cuidado em fim de vida?
    A SSC Children’s Guidelines é complementada pelo guideline SCCM 2026 sobre cuidado e manejo de pacientes pediátricos e neonatais em fim de vida, que aborda limitação de suporte, comunicação com famílias e controle de sintomas. Isso é particularmente relevante em choque séptico refratário e falência multissistêmica, permitindo transição estruturada de objetivos de cuidado, da cura para o conforto, em alinhamento com valores da família.
  1. Qual é o principal desafio para reduzir mortalidade por sepse pediátrica segundo o artigo e as diretrizes? Falta de conhecimento ou execução?
    O artigo sustenta que sepse pediátrica deixou de ser, principalmente, um problema de conhecimento e passou a ser um problema de execução: a evidência básica e as recomendações-chave já existem, mas falham em ser implementadas de forma consistente, tempestiva e integrada entre setores e equipes. A maior variabilidade está na prática: tempo para reconhecimento, para antibiótico, para fluidos/vasopressores e na ausência de linhas de cuidado e indicadores ativos.
  • Artigo CCIH – “Sepse Pediátrica em 2026: o que as novas diretrizes realmente mudam”: https://bit.ly/4sfuRsy
  1. Onde profissionais brasileiros podem se atualizar de forma prática sobre SSC 2026, Phoenix e implementação em serviços reais?
    Além das publicações oficiais da SSC/ESICM, o Instituto CCIH oferece materiais específicos para a realidade brasileira, incluindo artigos críticos, guias práticos e aulas em vídeo. Destacam-se:youtubeccihSepse-pediatria-e-neonatologia-SSC-2026.docx

Vídeo Phoenix: https://www.youtube.com/watch?v=eBT_1Y5xxCA

1.     Introdução: por que as diretrizes pediátricas da Surviving Sepsis Campaign importam?

1.1 Uma campanha global que finalmente olha para crianças

A Surviving Sepsis Campaign foi criada no início dos anos 2000 com o objetivo de reduzir a mortalidade por sepse por meio de diretrizes baseadas em evidências, bundles assistenciais e estratégias de melhoria de qualidade em escala global (SCCM, 2026). Por muitos anos, entretanto, o foco principal da campanha esteve voltado para adultos, e as recomendações para pacientes pediátricos eram derivadas, em grande parte, por extrapolação ou por documentos fragmentados, sem um guideline estruturado e específico para crianças (SCHLAPBACH; KISSOON, 2018).

A publicação e a disponibilização, na página “Surviving Sepsis Campaign Children’s Guidelines”, do primeiro conjunto de diretrizes pediátricas completas da campanha representam, portanto, um marco na história da sepse em pediatria (SCCM, 2026). Pela primeira vez, intensivistas pediátricos, infectologistas, emergencistas, enfermeiros, farmacêuticos e outros profissionais contam com um documento integrado, desenvolvido por um painel internacional específico para a população pediátrica, que consolida recomendações para todas as fases do cuidado da criança com sepse ou choque séptico (SCCM, 2026).

1.2 Carga global de sepse pediátrica e necessidade de diretrizes específicas

A SCCM destaca que a sepse continua sendo uma das principais causas de morte evitável em crianças no mundo, com impacto particularmente alto em lactentes, crianças com comorbidades e populações de países de baixa e média renda (SCCM, 2026). Estudos internacionais mostram que a combinação de alta incidência de infecções graves, dificuldade de acesso rápido a serviços especializados e desigualdade na disponibilidade de suporte intensivo contribui para taxas de mortalidade significativamente superiores às observadas em adultos em muitos contextos (SCHLAPBACH; KISSOON, 2018; SCHLAPBACH et al., 2021).

Nesse cenário, a ausência histórica de diretrizes pediátricas robustas da própria Surviving Sepsis Campaign era um ponto crítico, pois limitava a padronização de condutas e dificultava a construção de linhas de cuidado específicas para crianças (SCHLAPBACH; KISSOON, 2018). O guia pediátrico atualmente disponibilizado pela SCCM busca justamente preencher essa lacuna, oferecendo um conjunto coerente de recomendações desenhadas a partir de evidência e da experiência de especialistas em sepse pediátrica, e não apenas por transposição de protocolos adultos (SCCM, 2026).

1.3 Objetivos centrais do guia pediátrico da Surviving Sepsis Campaign

Na apresentação das “Children’s Guidelines”, a SCCM explicita que o objetivo central do documento é apoiar profissionais de saúde em todo o mundo na tomada de decisão à beira leito para crianças com sepse ou choque séptico, com foco em três eixos: reduzir mortalidade, padronizar condutas e orientar prioridades de pesquisa (SCCM, 2026). Para isso, o guideline oferece 61 enunciados que abrangem desde o reconhecimento precoce e a ressuscitação hemodinâmica até a escolha e revisão de antimicrobianos, o suporte ventilatório, as terapias adjuvantes e a reabilitação pós‑alta, sempre com indicação explícita da força da recomendação e da certeza da evidência (SCCM, 2026; WEISS et al., 2020).

Além de orientar a prática clínica, o guia pediátrico também se coloca como instrumento para alinhamento de políticas institucionais e agendas de pesquisa, ao identificar temas nos quais não há evidência suficiente para recomendações formais e ao listar questões prioritárias que necessitam de estudos adicionais (SCCM, 2026). Com isso, a Surviving Sepsis Campaign não apenas propõe “o que fazer” hoje, mas também indica onde o conhecimento atual é insuficiente e onde a comunidade científica pediátrica deve concentrar esforços nos próximos anos (SCCM, 2026; WEISS et al., 2020).

1.4 Por que esse guia é estratégico para o Brasil e para o controle de infecção?

Para sistemas de saúde de renda média, como o brasileiro, marcados por forte heterogeneidade entre serviços e por uma carga expressiva de sepse pediátrica, o guia da Surviving Sepsis Campaign oferece uma base de referência internacional que pode ser adaptada à realidade local (SCCM, 2026). Em hospitais gerais, onde convivem pronto-atendimentos superlotados, UTIs pediátricas altamente especializadas e enfermarias com diferentes níveis de suporte, um documento estruturado como esse permite alinhar fluxos, construir bundles institucionais e definir indicadores de qualidade para o cuidado da criança com sepse.

No contexto do site ccih.med.br e dos cursos de pós-graduação lato sensu em Gestão em Saúde e Controle de Infecção, o guia pediátrico da Surviving Sepsis Campaign é particularmente relevante por articular diretamente temas centrais para o público-alvo: manejo clínico baseado em evidências, segurança do paciente, stewardship antimicrobiano, papel da CCIH e governança clínica. A proposta deste artigo é justamente traduzir criticamente as recomendações do guideline da SCCM para a realidade brasileira, discutindo como esses enunciados podem e devem ser incorporados a protocolos institucionais, linhas de cuidado e programas de educação permanente voltados a pediatras, infectologistas, intensivistas, enfermeiros, farmacêuticos, microbiologistas e profissionais de CCIH.

 

2. Escopo, metodologia e estrutura das diretrizes pediátricas

2.1 Painel, metodologia e número de recomendações

As diretrizes pediátricas atuais da Surviving Sepsis Campaign, apresentadas na página “Surviving Sepsis Campaign Children’s Guidelines” da SCCM, foram elaboradas por um painel de 68 especialistas internacionais em sepse pediátrica, representando 13 organizações de diferentes regiões do mundo, além de seis metodologistas dedicados ao processo (SCCM, 2026). Esse grupo seguiu uma metodologia formal de guideline, com política de conflito de interesses definida desde o início, teleconferências recorrentes e discussão estruturada em subgrupos temáticos, cobrindo reconhecimento e manejo da infecção, hemodinâmica e ressuscitação, ventilação, terapias metabólicas e endócrinas, intervenções adjuvantes e prioridades de pesquisa (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026).

A partir de perguntas clínicas em formato PICO, o painel conduziu revisões sistemáticas para identificar a melhor evidência disponível, sintetizou os achados e avaliou a qualidade dessa evidência utilizando o sistema GRADE (SCCM, 2026; WEISS et al., 2020). O documento resultante da atualização pediátrica em 2026 reúne 61 enunciados sobre o manejo de crianças com sepse ou choque séptico, distribuídos em recomendações fortes, recomendações condicionais, boas práticas ou práticas padrão, situações em que não foi possível emitir recomendação formal (SCCM, 2026). Segundo a SCCM, apenas uma minoria dessas recomendações se baseia em evidência de alta ou moderada certeza, o que reforça o caráter prudente e transparente do guideline ao explicitar as incertezas e incentivar pesquisa adicional (SCCM, 2026; WEISS et al., 2020).

2.2 População-alvo e contexto de aplicação

O guia pediátrico da Surviving Sepsis Campaign, na versão atual disponibilizada pela SCCM, tem como foco clínico crianças com sepse ou choque séptico, incluindo lactentes, crianças em idade escolar e adolescentes, atendidos em qualquer nível de atenção hospitalar onde se disponha, ao menos potencialmente, de suporte de órgãos (SCCM, 2026). As recomendações são formuladas para pacientes com infecção suspeita ou confirmada, associada a comprometimento hemodinâmico e/ou disfunção orgânica, e destinam‑se a orientar intensivistas pediátricos, emergencistas, infectologistas, enfermeiros, farmacêuticos e demais profissionais envolvidos no cuidado desses pacientes (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026).

O painel destaca que determinados subgrupos – como prematuros extremos, crianças com cardiopatias complexas, pacientes onco‑hematológicos e outros imunossuprimidos – podem apresentar particularidades não completamente contempladas pelos estudos analisados, de modo que, nesses contextos, o guideline deve ser utilizado como marco de referência, mas sempre ajustado ao contexto clínico, a protocolos específicos e ao julgamento da equipe (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026). A SCCM ressalta ainda que essas diretrizes são globais e devem ser adaptadas a diferentes níveis de recursos, incluindo hospitais de países de renda média, nos quais limitações estruturais podem exigir priorização de recomendações e implementação faseada (SCCM, 2026).

2.3 Organização interna do guideline pediátrico

A página oficial da SCCM apresenta o guideline pediátrico da Surviving Sepsis Campaign como um conjunto de recomendações filtráveis, organizadas por seções que acompanham o fluxo de cuidado da criança séptica (SCCM, 2026). O documento agrupa as recomendações em blocos temáticos, que incluem reconhecimento e manejo inicial da infecção, hemodinâmica e ressuscitação, ventilação e suporte respiratório, terapias metabólicas e endócrinas, terapias adjuvantes e reabilitação e seguimento de longo prazo (SCCM, 2026; WEISS et al., 2020). Em cada seção, as recomendações podem ser filtradas por tema, força e identificador, facilitando que o clínico encontre rapidamente os enunciados relevantes para a situação à beira leito (SCCM, 2026).

Além das recomendações propriamente ditas, o guia pediátrico inclui  declarações de boas práticas, situações em que, mesmo na ausência de estudos formais robustos, o painel entendeu que certas condutas são claramente benéficas e amplamente aceitas; e declarações do tipo “em nossa prática”, usadas quando não foi possível formular uma recomendação formal, mas havia consenso sobre como os especialistas manejam aquela situação no dia a dia (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026). O documento também explicita um conjunto de perguntas para as quais não há, até o momento, recomendação possível, apontando essas áreas como prioridades de pesquisa, o que reforça o papel do guideline não apenas como referência assistencial, mas como orientador da agenda científica em sepse pediátrica (SCCM, 2026; WEISS et al., 2020).

 

3. Definições, epidemiologia e fisiopatologia na visão da Surviving Sepsis Campaign

3.1 Como o guia pediátrico da SSC define sepse e choque séptico em crianças

O guia pediátrico da Surviving Sepsis Campaign parte do entendimento contemporâneo de que sepse é uma disfunção orgânica potencialmente fatal decorrente de uma resposta desregulada do hospedeiro à infecção, mas reconhece que, em pediatria, ainda não havia, até recentemente, consenso internacional plenamente consolidado em torno de critérios operacionais específicos (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026). Por isso, as diretrizes adotam, de forma pragmática, o conceito de disfunção do órgãos associada à sepse em crianças, enfatizando que o foco principal não é a presença ou ausência de SIRS, mas sim a identificação de falência de órgãos em contexto de infecção suspeita ou confirmada (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026).

Com a publicação, em 2024, dos “International Consensus Criteria for Pediatric Sepsis and Septic Shock” e do Phoenix Sepsis Score, propostos por uma força-tarefa apoiada pela própria SCCM e sociedades parceiras, o debate avançou para um modelo quantitativo de disfunção orgânica, baseado em um escore de quatro sistemas (respiratório, cardiovascular, neurológico e coagulação) (WEISS et al., 2024). Esse consenso recomenda identificar sepse em crianças com infecção suspeita ou confirmada a partir de um Phoenix Sepsis Score maior ou igual a 2 pontos, e definir choque séptico como o subconjunto de sepse com pelo menos 1 ponto no subescore cardiovascular, refletindo disfunção circulatória significativa (WEISS et al., 2024). Embora o guideline pediátrico da Surviving Sepsis Campaign tenha sido originalmente elaborado antes da plena adoção desses critérios, a própria SCCM vem alinhando a comunicação das diretrizes pediátricas à lógica do Phoenix, incentivando que serviços usem essas definições consensuais como base para vigilância, pesquisa e estratificação de risco, mantendo o documento de manejo como referência para “o que fazer” uma vez identificado o quadro (WEISS et al., 2020; WEISS et al., 2024; SCCM, 2026).

3.2 Epidemiologia destacada pelo guideline: incidência, mortalidade e grupos de maior risco

Na seção de contextualização, o guia pediátrico da Surviving Sepsis Campaign reforça que a sepse na infância permanece uma das principais causas de morbimortalidade global, com impacto desproporcional em países de baixa e média renda (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026). Análises derivadas do Global Burden of Disease e de grandes coortes mostram que mais da metade dos casos de sepse ocorre em crianças e adolescentes, com milhões de episódios anuais e milhões de mortes atribuíveis, sendo lactentes e menores de cinco anos os grupos etários mais vulneráveis (SCHLAPBACH et al., 2021; SCHLAPBACH; KISSOON, 2018).

Os dados compilados no guideline e em revisões associadas indicam que, em países de alta renda, a mortalidade em sepse pediátrica grave e choque séptico em UTI situa‑se em torno de 5–10%, enquanto em países de baixa e média renda essa taxa pode atingir patamares quatro vezes maiores, refletindo diferenças em acesso, recursos e organização de cuidado (SCHLAPBACH et al., 2021; WEISS et al., 2020). Crianças com comorbidades crônicas complexas, doenças onco‑hematológicas, desnutrição, imunodeficiências e aquelas submetidas a procedimentos invasivos repetidos constituem subgrupos com risco particularmente elevado de desfechos desfavoráveis, tanto em países de alta renda quanto em contextos como o Brasil (WEISS et al., 2020; SCHLAPBACH et al., 2021). O guia da Surviving Sepsis Campaign utiliza esses dados epidemiológicos para justificar a necessidade urgente de implementação de bundles e linhas de cuidado pediátricas, enfatizando que a maior parte dessas mortes é, em princípio, potencialmente evitável com reconhecimento precoce e manejo adequado (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026).

3.3 Fisiopatologia: resposta imune desregulada, endotélio e microcirculação na criança

Do ponto de vista fisiopatológico, o guideline pediátrico da Surviving Sepsis Campaign descreve a sepse em crianças como resultado de uma resposta inflamatória e imunológica desregulada a um agente infeccioso, levando a lesão tecidual e disfunção de múltiplos órgãos (WEISS et al., 2020). Em recém‑nascidos e lactentes, a imaturidade da resposta imune inata e adaptativa, com menor capacidade de opsonização, quimiotaxia e produção de anticorpos específicos, aumenta tanto a susceptibilidade à infecção quanto o risco de evolução rápida para bacteremia e sepse (SCHLAPBACH; KISSOON, 2018; WEISS et al., 2023). Ao mesmo tempo, em crianças maiores e adolescentes, a resposta inflamatória pode assumir um caráter hiperinflamatório inicial, seguido de fase de imunossupressão prolongada, favorecendo infecções secundárias e complicações tardias (WEISS et al., 2023).

As diretrizes enfatizam o papel central da disfunção endotelial e da alteração da microcirculação na transição de uma infecção grave para um quadro de choque séptico e falência de múltiplos órgãos (WEISS et al., 2020). A ativação de mediadores inflamatórios, moléculas de adesão e vias de coagulação leva a aumento da permeabilidade vascular, extravasamento de fluidos, edema tecidual e formação de microtrombos, gerando zonas de hipoperfusão e shunt microcirculatório, mesmo quando parâmetros macro-hemodinâmicos aparentam estar preservados (WEISS et al., 2020; SCHLAPBACH et al., 2021). Em crianças, a menor reserva cardiovascular e metabólica faz com que a compensação seja mais frágil: sinais como taquicardia, extremidades frias e alteração de sensório podem preceder em muitas horas a hipotensão manifesta, o que explica a ênfase do guideline em monitorar perfusão periférica, tempo de preenchimento capilar, estado mental e diurese como marcadores precoces de gravidade (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026).

Ao resumir definições, epidemiologia e fisiopatologia dessa forma, o guia pediátrico da Surviving Sepsis Campaign fornece a base conceitual que sustenta as recomendações de manejo apresentadas nas seções seguintes, articulando a nova linguagem dos critérios internacionais (Phoenix Sepsis Score) com a realidade prática de UTI pediátrica e de serviços de emergência em diferentes contextos de recursos.

 

4. Reconhecimento clínico precoce e triagem: o que as diretrizes realmente recomendam?

4.1 Triagem sistemática e “screening universal”: qual é a posição do guia?

O guideline pediátrico da Surviving Sepsis Campaign deixa claro que o reconhecimento rápido de sepse e choque séptico é um eixo central da melhoria de desfechos, mas reconhece que a evidência sobre ferramentas de triagem em crianças ainda é limitada (WEISS et al., 2020). No artigo-base, os autores sugerem a implementação de processos sistemáticos de avaliação de crianças agudamente doentes para facilitar o reconhecimento oportuno de choque séptico e de disfunção orgânica associada à sepse, mas destacam que os estudos disponíveis são escassos, heterogêneos e não permitem recomendar um modelo único de triagem ou um “score” específico como padrão ouro (WEISS et al., 2020).

Na atualização apresentada pela SCCM nas Children’s Guidelines, essa prudência é reforçada: a própria página explicita que, em crianças agudamente enfermas, não há evidência suficiente para recomendar a implementação rotineira de um “screening” adicional de sepse, por ferramentas padronizadas, além dos protocolos clínicos já estabelecidos, justamente pela ausência de ensaios clínicos de boa qualidade que demonstrem benefício inequívoco (SCCM, 2026). Dessa forma, a Surviving Sepsis Campaign orienta que cada instituição avalie se faz sentido adotar ferramentas formais de triagem, mas insiste que o foco principal deve permanecer na qualificação da avaliação clínica inicial, em fluxos bem definidos e na educação das equipes, mais do que na adoção acrítica de algoritmos eletrônicos ou escores não validados.

4.2 Sinais clínicos de alarme e abordagem inicial

Embora seja cauteloso em relação ao “screening universal” por escores, o guideline pediátrico enfatiza um conjunto de sinais de alarme que devem chamar a atenção de qualquer profissional que atende crianças com suspeita de infecção (WEISS et al., 2020). Entre esses sinais, destacam-se: taquicardia persistente desproporcional ao quadro, alterações na perfusão periférica (extremidades frias, tempo de preenchimento capilar prolongado, pulsos fracos ou discrepantes), taquipneia ou aumento do esforço respiratório, alteração aguda do estado mental (irritabilidade, letargia, rebaixamento de consciência) e oligúria (WEISS et al., 2020; WEISS et al., 2023).

As diretrizes lembram que, em crianças, a hipotensão arterial é um sinal tardio de choque, e que esperar pela queda da pressão para classificar o paciente como séptico é um erro potencialmente fatal (WEISS et al., 2020). Por isso, o documento orienta que a abordagem inicial se baseie na detecção de sinais precoces de hipoperfusão e comprometimento de órgãos – como alteração do nível de consciência, perfusão periférica inadequada e aumento do esforço respiratório – e não apenas em valores absolutos de pressão arterial (WEISS et al., 2020; SCHLAPBACH et al., 2021). A mensagem central do guia é que qualquer criança com infecção suspeita ou confirmada e sinais de disfunção orgânica deve ser manejada como potencial sepse ou choque séptico, enquanto se confirmam diagnósticos e se refinam hipóteses.

4.3 Implicações para fluxos de pronto-atendimento e enfermarias

Na prática dos serviços de pronto-atendimento e enfermarias pediátricas, a posição da Surviving Sepsis Campaign implica menos a adoção de um “score mágico” e mais a construção de linhas de cuidado claras, com avaliação inicial estruturada e gatilhos objetivos para escalonar cuidado (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026). O guideline sugere que hospitais desenvolvam protocolos de reconhecimento de deterioração clínica que incluam, de forma destacada, as situações de suspeita de sepse, definindo o que deve acontecer quando uma criança apresenta sinais como taquicardia importante, má perfusão, alteração do estado mental ou necessidade crescente de oxigênio (WEISS et al., 2020).

Ferramentas de triagem – como checklists de sinais vitais alterados, sinais precoces de alerta pediátricos ou fluxogramas de alertas de sepse – podem ser utilizadas, desde que adaptadas à realidade local, validadas internamente e integradas a um fluxo de resposta rápida, e não usadas de forma isolada ou burocrática (WEISS et al., 2020; SCHLAPBACH et al., 2021). Em hospitais brasileiros, isso significa, por exemplo, capacitar equipes de porta de entrada e enfermarias para reconhecer sinais de alarme, definir quem deve ser chamado e em quanto tempo, padronizar a coleta de exames e a administração inicial de fluidos e antimicrobianos, e monitorar indicadores como “tempo até reconhecimento” e “tempo até antimicrobiano” em crianças com sepse. Dessa forma, as recomendações da Surviving Sepsis Campaign deixam de ser apenas um texto normativo e se convertem em base para redesenhar fluxos assistenciais e estratégias de educação permanente em pediatria.

 

5. Hemodinâmica e ressuscitação: fluidos, vasopressores e metas

5.1 Ressuscitação inicial com cristaloides: quanto, quão rápido e com que cautela?

O guideline pediátrico da Surviving Sepsis Campaign recomenda que, em crianças com choque séptico atendidas em sistemas de saúde com acesso a terapia intensiva e capacidade de monitorização, a ressuscitação inicial seja feita com bolos de cristaloides de 10–20 mL/kg, repetidos até um volume acumulado de 40–60 mL/kg na primeira hora, sempre com reavaliações clínicas frequentes entre os bolos (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026). A orientação vale para soluções cristalóides balanceadas ou salina isotônica, sendo desencorajada a expansão inicial com coloides em rotina, dada a ausência de benefício comprovado e o custo mais elevado (WEISS et al., 2020).

Ao mesmo tempo, as diretrizes introduzem uma distinção importante entre contextos de recursos adequados e contextos de recursos limitados. Em ambientes sem acesso garantido a UTI pediátrica, ventilação mecânica e monitorização contínua, o guideline orienta grande cautela com bolos repetidos de volume, reconhecendo o sinal de dano associado à expansão agressiva em cenários semelhantes ao do estudo FEAST, no qual crianças africanas com perfusão comprometida, mas sem hipotensão franca, que receberam bolos de fluidos tiveram maior mortalidade do que aquelas tratadas apenas com manutenção (WEISS et al., 2020; MAITLAND et al., 2011; SCCM, 2026). Nesses ambientes, a SSC recomenda priorizar o reconhecimento precoce, o uso criterioso de fluidos e a introdução mais precoce de vasopressores, evitando “protocolos rígidos” de 40–60 mL/kg onde não há condições de monitorar e tratar rapidamente as complicações da sobrecarga volêmica (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026).

5.2 Escolha e escalonamento de vasopressores e inotrópicos

Para crianças com choque séptico que permanecem com sinais de hipoperfusão após ressuscitação inicial com fluidos, o guideline pediátrico da Surviving Sepsis Campaign recomenda iniciar precocemente drogas vasoativas, inclusive por via periférica, quando o acesso central não estiver disponível de imediato, desde que em diluição adequada e com vigilância intensiva do sítio de infusão (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026). As diretrizes sugerem usar adrenalina ou noradrenalina em vez de dopamina como agentes de primeira linha, uma vez que ensaios clínicos e estudos observacionais associaram dopamina a maior risco de arritmias e piores desfechos em choque séptico pediátrico (WEISS et al., 2020; EISENBERG et al., 2020).

Não há, contudo, evidência suficiente para declarar um vencedor absoluto entre adrenalina e noradrenalina como primeira escolha em todas as situações, e o guideline assume posição pragmática: recomenda selecionar um ou outro com base em fisiologia do paciente (choque mais “frio” ou mais “quente”), experiência local e disponibilidade, reservando a combinação com vasopressina ou inodilatadores (por exemplo, milrinona) para casos de choque refratário (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026). As metas gerais de perfusão incluem melhora do estado mental, normalização (ou clara melhora) da perfusão periférica, estabilização da pressão arterial para a idade e recuperação da diurese, sendo desencorajada a busca de valores rígidos de pressão ou débito cardíaco sem integração com a avaliação clínica global (WEISS et al., 2020).

A SSC recomenda que a resposta a fluidos seja avaliada não apenas pelo volume infundido, mas por indicadores dinâmicos – variação de frequência cardíaca, melhora de enchimento capilar, pressão de pulso, sinais de congestão (hepatomegalia, estertores), quando disponíveis – e sugere interromper a expansão volêmica assim que não houver mais ganho clínico claro ou surgirem sinais de sobrecarga (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026). Em muitos casos, sobretudo em crianças com cardiopatia ou doença pulmonar, isso significa adotar volumes mais conservadores e iniciar vasopressores mais precocemente, ao invés de insistir em bolos sucessivos de volume.

5.3 Controvérsias sobre fluidos em ambientes de baixa renda e implicações para o Brasil

Um dos pontos mais discutidos no guideline e em comentários subsequentes é justamente a interpretação do estudo FEAST e o risco de se transplantar, sem filtros, protocolos de ressuscitação volumosa para contextos de baixa renda, onde não há leitos de UTI, ventiladores nem monitorização adequada (WEISS et al., 2020; MAITLAND et al., 2011; SCHLAPBACH et al., 2021). A Surviving Sepsis Campaign assume uma posição intermediária: mantém, para sistemas com suporte intensivo, a recomendação de 40–60 mL/kg na primeira hora, mas alerta explicitamente que essa estratégia não deve ser automaticamente aplicada em ambientes sem capacidade de manejo das complicações do excesso de fluidos, sendo preferível, ali, uma abordagem mais conservadora e a introdução precoce de vasopressores (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026).

Para o Brasil, que combina hospitais terciários com UTIs pediátricas bem estruturadas e serviços com recursos muito limitados, essa nuance é crucial. Em grandes centros, os protocolos de sepse pediátrica podem seguir de perto as recomendações de bolos de 10–20 mL/kg até 40–60 mL/kg na primeira hora, com monitorização rigorosa de sinais de sobrecarga e acesso rápido a ventilação mecânica, diuréticos e, se necessário, terapia renal substitutiva. Já em hospitais regionais sem UTI pediátrica, é mais prudente adotar volumes menores, reavaliações mais frequentes, definir claramente critérios de parada para infusão de fluidos e articular a introdução precoce de vasopressores com fluxos de transferência regulada para unidades de maior complexidade. Em ambos os cenários, o guideline da Surviving Sepsis Campaign reforça que a qualidade da avaliação clínica, a rapidez na tomada de decisão e a integração entre pronto-atendimento, enfermarias, UTI e CCIH são tão importantes quanto qualquer cifra absoluta de mililitros por quilo.

 

6. Terapia antimicrobiana segundo a Surviving Sepsis Campaign em crianças

6.1 Quando iniciar antimicrobianos: primeira hora x janelas mais flexíveis

O guideline pediátrico da Surviving Sepsis Campaign é explícito ao recomendar que crianças com choque séptico recebam a primeira dose de antimicrobianos o mais rápido possível, idealmente dentro da primeira hora após o reconhecimento do quadro (WEISS et al., 2020). Trata-se de uma recomendação forte, ainda que apoiada em evidência de baixa certeza, sustentada por estudos observacionais que associam atraso na antibioticoterapia a maior mortalidade e pior evolução clínica em crianças com choque séptico (WEISS et al., 2020; WEISS et al., 2020 – Executive Summary).

Para crianças com sepse associada à disfunção orgânica, porém sem choque, o documento adota posição mais flexível: recomenda iniciar antimicrobianos o mais breve possível após avaliação clínica adequada, preferencialmente dentro de 3 horas do reconhecimento, equilibrando a necessidade de tratar precocemente contra o risco de uso excessivo de antibióticos em quadros não infecciosos (WEISS et al., 2020). O guideline enfatiza que esses marcos temporais (1 hora para choque, até 3 horas para sepse sem choque) devem ser entendidos como metas organizacionais e não como gatilhos automáticos para antibioticoterapia indiscriminada, devendo sempre ser precedidos por uma avaliação clínica estruturada e, quando possível, coleta de culturas antes da primeira dose (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026).

6.2 Escolha empírica, ajuste às culturas, duração e desescalonamento

Em relação ao esquema empírico inicial, a Surviving Sepsis Campaign orienta que ele seja guiado por quatro eixos principais: provável foco infeccioso, idade da criança, comorbidades e epidemiologia local (incluindo perfis de resistência e prevalência de patógenos comunitários e hospitalares) (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026). Em infecções adquiridas na comunidade sem fatores de risco para patógenos multirresistentes, o guideline favorece esquemas que cubram os principais agentes bacterianos esperados (por exemplo, pneumococo, meningococo, Staphylococcus aureus, bacilos Gram-negativos entéricos), evitando escalonamento desnecessário para antibióticos de amplo espectro quando não há indicação clara (WEISS et al., 2020).

Para crianças com sepse associada à assistência em saúde, exposição recente a antibióticos de amplo espectro, permanência em UTI ou presença de dispositivos invasivos, as diretrizes recomendam ampliar a cobertura empírica para patógenos nosocomiais e multirresistentes relevantes no contexto de cada hospital, como Pseudomonas aeruginosaAcinetobacter Spp. e Enterobacterales produtores de β‑lactamase, sempre com base em dados de microbiologia local (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026). Após estabilização inicial e obtenção de culturas, o guideline indica que a terapia deve ser ajustada às evidências microbiológicas: afinar o espectro quando o patógeno é identificado e suspender o antibiótico se investigação clínica e laboratorial robusta afastarem a hipótese de infecção bacteriana (WEISS et al., 2020).

Quanto à duração do tratamento, a Surviving Sepsis Campaign não fixa um número único de dias para todos os quadros, mas sugere que, para a maioria das infecções bacterianas complicadas associadas à sepse, cursos de 7–10 dias são suficientes, podendo ser encurtados ou prolongados conforme foco, resposta clínica e controle adequado da fonte (WEISS et al., 2020). O documento enfatiza a importância de revisões seriadas da necessidade de manter antimicrobianos, com o objetivo deliberado de evitar tratamentos excessivamente longos em casos de boa resposta e controle de foco adequado.

6.3 Integração com stewardship: reavaliação diária e interrupção precoce

Um aspecto distintivo do guideline pediátrico é a integração explícita com princípios de stewardship antimicrobiano. As diretrizes recomendam que, em crianças com choque séptico ou sepse associada à disfunção orgânica que estejam recebendo antimicrobianos, seja realizada avaliação diária estruturada da necessidade de manter, ajustar ou interromper a terapia, idealmente em articulação com programas institucionais de stewardship (WEISS et al., 2020; SCCM, 2020). Essa avaliação deve considerar resultados de culturas e de outros exames microbiológicos, evolução clínica, marcadores laboratoriais e evidências de resolução do foco infeccioso, buscando identificar o momento seguro para desescalonamento (redução do espectro) ou suspensão do antibiótico (WEISS et al., 2020).

O guideline ainda ressalta que a Surviving Sepsis Campaign não recomenda o uso rotineiro de procalcitonina como ferramenta isolada para guiar desescalonamento quando já existem programas robustos de stewardship e avaliação clínica qualificada, justamente para evitar a falsa sensação de segurança em algoritmos baseados apenas em biomarcadores (SCCM, 2026). Em vez disso, incentiva que hospitais adotem rotinas de “time-out antibiótico” em 48–72 horas, revisando indicação, espectro, via de administração e duração prevista, e que serviços com maior complexidade envolvam infectologistas e microbiologistas na discussão de casos complexos, especialmente quando há bacteremia por patógenos multirresistentes (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026).

Para o contexto brasileiro, a mensagem é direta: seguir a Surviving Sepsis Campaign em relação ao início rápido e adequado de antimicrobianos em choque séptico e sepse com disfunção orgânica é inseparável da construção de programas efetivos de stewardship, capazes de revisar diariamente essas prescrições, reduzir o espectro quando possível e encurtar a duração do tratamento, protegendo ao mesmo tempo o paciente e a ecologia microbiana hospitalar.

 

7. Suporte respiratório, ventilação e manejo de SDRA na criança séptica

7.1 Oxigenoterapia, ventilação não invasiva e momento de intubar

O guideline pediátrico da Surviving Sepsis Campaign recomenda que crianças com sepse ou choque séptico que apresentem hipoxemia, aumento do trabalho respiratório ou alteração do estado mental recebam oxigenoterapia suplementar imediatamente, com o objetivo de manter saturação periférica de oxigênio adequada para a idade, enquanto se organizam as demais intervenções de ressuscitação (WEISS et al., 2020). Em pacientes com esforço respiratório aumentado, mas ainda com padrão ventilatório relativamente preservado e sem rebaixamento importante de consciência, o documento considera apropriado o uso de suporte não invasivo, como ventilação não invasiva ou alto fluxo nasal, desde que em ambiente com monitorização contínua e equipe experiente, e com critérios claros para falha e indicação de intubação (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026).

As diretrizes enfatizam que a decisão de iniciar ventilação mecânica invasiva não deve ser postergada diante de sinais de exaustão respiratória, deterioração neurológica ou incapacidade de manter oxigenação adequada com métodos não invasivos (WEISS et al., 2020). Em crianças sépticas, a combinação de acidose metabólica, febre e aumento do trabalho respiratório eleva significativamente o consumo de oxigênio, e a falha em reconhecer precocemente a necessidade de intubação pode precipitar parada cardiorrespiratória. Por isso, o guideline orienta que equipes definam critérios objetivos de intubação – como queda de nível de consciência, sinais de fadiga muscular, piora da hipoxemia apesar de suporte máximo não invasivo, ou necessidade de controlar a via aérea para ressuscitação hemodinâmica mais agressiva – e que a intubação seja realizada de forma planejada, com profissionais experientes, evitando situações de emergência extrema (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026).

7.2 Manejo da SDRA associada à sepse: estratégia protetora, PEEP, pronação e sedação

Para crianças com síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) associada à sepse, o guideline pediátrico da Surviving Sepsis Campaign recomenda o uso de ventilação protetora, com baixos volumes corrente ajustados ao peso e pressões de platô limitadas, em linha com as recomendações específicas para PARDS (pediatric acute respiratory distress syndrome) (WEISS et al., 2020). O documento sugere combinar essa estratégia com níveis adequados de PEEP para manter a oxigenação e minimizar atelectrauma, ajustando gradualmente conforme resposta clínica e parâmetros de oxigenação, e evitando tanto PEEP insuficiente quanto hiperinsuflação alveolar (WEISS et al., 2020).

As diretrizes mencionam a posição prona como uma opção para crianças com SDRA grave e hipoxemia refratária, desde que o procedimento seja realizado em centros com experiência e equipe treinada, ressaltando que, embora a evidência pediátrica seja limitada, a prática se apoia em resultados de adultos e em séries de casos em UTI pediátrica (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026). Em relação à sedação e ao bloqueio neuromuscular, o guideline recomenda uso parcimonioso: sedação deve ser suficiente para garantir sincronização com o ventilador e conforto, mas evitando-se sedação profunda prolongada sempre que possível, e o bloqueio neuromuscular contínuo deve ser reservado para casos de SDRA grave com assincronia importante ou hipoxemia refratária, dado o baixo nível de evidência e os riscos potenciais associados (WEISS et al., 2020). A SSC também sugere considerar, em centros de alta complexidade, opções como óxido nítrico inalatório como terapia de resgate em SDRA séptica com hipertensão pulmonar e hipoxemia severa, reconhecendo, porém, a fragilidade da evidência e o custo elevado (WEISS et al., 2020).

7.3 Interfaces com a realidade brasileira: tecnologia, protocolos e treinamento

No contexto brasileiro, a aplicação dessas recomendações depende fortemente da disponibilidade de ventiladores modernos, interfaces para ventilação não invasiva, recursos de monitorização e, sobretudo, de equipes treinadas em pediatria e terapia intensiva. Em hospitais terciários com UTI pediátrica estabelecida, é viável seguir mais de perto as orientações da Surviving Sepsis Campaign para uso de ventilação não invasiva em quadros selecionados, ventilação protetora em SDRA, pronação em casos graves e uso criterioso de sedação e bloqueio neuromuscular. Em contrapartida, em serviços com recursos mais limitados, o desafio maior é garantir oxigenoterapia adequada, reconhecer precocemente a falência respiratória e organizar fluxos de referência e contra‑referência que permitam a transferência oportuna para unidades com suporte ventilatório avançado.

Em ambos os cenários, o guideline da Surviving Sepsis Campaign reforça a importância de protocolos institucionais claros para suporte respiratório na criança séptica, definindo: critérios de escalonamento de oxigênio para ventilação não invasiva e, desta, para intubação; metas de saturação e parâmetros ventilatórios protetores; indicações e logística para pronação; e rotinas de avaliação diária de sedação, possibilidade de desmame e prevenção de complicações associadas à ventilação mecânica. A incorporação dessas recomendações em linhas de cuidado de sepse pediátrica e em programas de educação continuada para médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e equipes de CCIH é fundamental para que o suporte respiratório deixe de ser apenas uma decisão individual e passe a compor, de forma coerente, a estratégia institucional de enfrentamento da sepse em crianças.

 

8. Terapias adjuvantes, suporte de órgãos e lacunas de evidência

8.1 Corticosteroides, imunoglobulina, terapia renal substitutiva e hemoadsorção

O guideline pediátrico da Surviving Sepsis Campaign adota uma postura bastante cautelosa em relação às chamadas terapias adjuvantes na sepse infantil, refletindo a escassez de ensaios clínicos robustos nessa população (WEISS et al., 2020). Para corticosteroides, o documento sugere seu uso apenas em crianças com choque séptico refratário a ressuscitação adequada com fluidos e vasopressores, especialmente quando há suspeita de insuficiência adrenal relativa, classificando essa recomendação como fraca, apoiada em evidência de baixa qualidade e extrapolações de estudos em adultos (WEISS et al., 2020). O guideline enfatiza que não há suporte para o uso rotineiro de esteroides em todas as crianças com sepse e que a decisão deve ser individualizada, considerando risco de hiperglicemia, infecção secundária e fraqueza muscular adquirida na UTI.

Em relação à imunoglobulina endovenosa, a Surviving Sepsis Campaign afirma que não recomenda seu uso rotineiro em sepse ou choque séptico pediátrico, uma vez que a evidência disponível é limitada, heterogênea e não demonstra benefício consistente em mortalidade (WEISS et al., 2020). O mesmo vale para intervenções como hemoadsorção de citocinas: o guideline reconhece a existência de relatos e séries de casos em adultos e crianças, mas destaca que os dados são insuficientes para apoiar recomendações formais de uso, reservando essas técnicas, quando disponíveis, a contextos de pesquisa ou a decisões individualizadas em centros de alta complexidade (WEISS et al., 2020). Em contraste, a terapia renal substitutiva contínua é considerada uma ferramenta relevante para suporte de órgãos em crianças com sepse e insuficiência renal aguda, sobrecarga volêmica refratária ou distúrbios metabólicos graves, mas o guideline apresenta essa indicação como alinhada às recomendações gerais de nefrologia crítica pediátrica, não como uma “terapia específica da sepse” (WEISS et al., 2020).

8.2 Força das recomendações e uso de melhores práticas estabelecidas

Um dos pontos fortes do guideline pediátrico é a transparência na gradação da evidência e da força das recomendações, utilizando o sistema GRADE e complementando-o com melhores práticas estabelecidas e declarações “em nossa prática” quando a evidência formal é insuficiente (WEISS et al., 2020). Em várias áreas de terapias adjuvantes – como o uso de corticosteroides, imunoglobulina, hemoadsorção e imunomoduladores – a SSC deixa claro que a qualidade da evidência varia de baixa a muito baixa, e que, portanto, recomendações fortes são raras, prevalecendo recomendações fracas/condicionais ou ausência de recomendação formal (WEISS et al., 2020).

As chamadas melhores práticas estabelecidassão utilizados quando, mesmo sem estudos GRADEáveis, o painel entende que há benefício ou dano tão evidente que seria antiético ou impraticável exigir ensaios clínicos formais – por exemplo, em relação à necessidade de monitorizar de perto crianças com choque séptico em UTI, à importância de evitar atrasos injustificados na ressuscitação ou ao uso de medidas básicas de suporte (WEISS et al., 2020). Já as declarações do tipo “em nossa prática” são emitidas quando a evidência é insuficiente para qualquer recomendação, mas o painel julga útil descrever como especialistas costumam conduzir determinado cenário, deixando explícito que se trata de opinião qualificada, e não de diretriz baseada em estudos (WEISS et al., 2020). Para o leitor, essa distinção é crucial: deixa claro onde há espaço para maior variação local de condutas e onde o guideline assume posição mais firme, mesmo diante de dados imperfeitos.

8.3 Lacunas de evidência e agenda de pesquisa proposta pela Surviving Sepsis Campaign

A Surviving Sepsis Campaign destaca que a maioria das recomendações em sepse pediátrica é sustentada por evidência de baixa ou muito baixa certeza, o que reflete tanto a dificuldade de conduzir ensaios clínicos nessa população quanto a histórica subpriorização da sepse infantil na agenda de pesquisa (WEISS et al., 2020). Por isso, o guideline dedica espaço específico para listar 52 prioridades de pesquisa em sepse e choque séptico pediátricos, organizadas por temas como reconhecimento precoce, hemodinâmica, ventilação, antimicrobianos, terapias imunomoduladoras, biomarcadores, reabilitação e implementação de diretrizes (WEISS et al., 2020). Entre essas prioridades, destacam-se, por exemplo, a necessidade de estudos que definam melhor quais subgrupos se beneficiariam de corticosteroides, se e quando hemoadsorção teria papel na prática, qual o impacto real de diferentes estratégias de volume em cenários de recursos limitados e quais modelos de triagem e “early warning” funcionam de fato em pediatria.

Ao tornar explícitas essas lacunas, a Surviving Sepsis Campaign cumpre um duplo papel: por um lado, evita transmitir uma falsa sensação de “certeza” em áreas onde o conhecimento ainda é frágil; por outro, oferece um roteiro concreto para pesquisadores, financiadores e sociedades científicas que desejem investir em estudos com alto potencial de impacto (WEISS et al., 2020). Para a realidade brasileira, essa agenda é particularmente relevante: ela aponta oportunidades de pesquisa clínica e de implementação em sepse pediátrica que podem ser articuladas com redes nacionais, programas de qualidade e iniciativas de CCIH, contribuindo não apenas para melhorar o cuidado local, mas também para inserir evidências produzidas no país no processo de futuras atualizações das próprias diretrizes internacionais.

 

9. Reabilitação, seguimento pós-alta e desfechos de longo prazo

9.1 Continuum do cuidado e síndrome pós-terapia intensiva em crianças

O guideline pediátrico da Surviving Sepsis Campaign enfatiza que o cuidado da criança com sepse não termina na estabilização hemodinâmica ou na alta da UTI, mas deve ser entendido como um continuum que se estende para a fase de reabilitação e seguimento ambulatorial (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026). Estudos citados no documento e em materiais da SCCM mostram que uma proporção significativa dos sobreviventes de sepse e choque séptico apresenta sequelas físicas (fraqueza muscular, limitações funcionais), cognitivas (déficits de atenção, memória, desempenho escolar) e emocionais (ansiedade, depressão, sintomas de estresse pós-traumático), compondo o espectro da chamada síndrome pós-terapia intensiva pediátrica (WEISS et al., 2020; LONG et al., 2017).

Por esse motivo, as diretrizes recomendam que equipes de UTI pediátrica adotem estratégias de prevenção e manejo dessas sequelas já durante a internação, incluindo minimização de sedação quando possível, mobilização precoce, envolvimento da família no cuidado e preparação estruturada para a alta (WEISS et al., 2020). A SCCM, em seus materiais educativos e no blog sobre as Children’s Guidelines, reforça que a transição do hospital para casa deve incluir orientação sobre sinais de alerta, plano de reabilitação e encaminhamentos necessários, reconhecendo que até 30–40% das crianças sobreviventes podem ter algum tipo de limitação persistente após sepse grave (SCCM, 2026; ESICM, 2026).

9.2 Implicações para redes de atenção e equipes multiprofissionais

A visão de continuum do cuidado proposta pela Surviving Sepsis Campaign tem implicações diretas para a organização das redes de atenção e para o papel das equipes multiprofissionais. As diretrizes sugerem que crianças sobreviventes de sepse ou choque séptico, especialmente aquelas que necessitaram de suporte ventilatório prolongado ou tiveram disfunção multissistêmica, sejam avaliadas de forma sistemática por fisioterapia (para força e capacidade funcional), fonoaudiologia (quando houve intubação prolongada, disfagia ou atraso de linguagem), psicologia/psiquiatria infantil (para rastreio de sintomas emocionais e comportamentais) e nutrição (para monitorização de crescimento e recuperação ponderoestatural) (WEISS et al., 2020; LONG et al., 2017).

Além disso, o guideline e os comentários da SCCM destacam que a continuidade do cuidado deve envolver a atenção primária e a medicina de família, que precisam ser informadas sobre o episódio de sepse, as intervenções realizadas, os riscos de sequelas e o plano de seguimento (SCCM, 2026). Consultas de seguimento em ambulatórios de alta de UTI ou de doenças crônicas complexas são apontadas como boas oportunidades para revisar medicações, avaliar funções físicas e cognitivas, atualizar o calendário vacinal, discutir retorno à escola e orientar famílias quanto a expectativas realistas de recuperação (WEISS et al., 2020; ESICM, 2026).

9.3 Adaptação dessas recomendações ao SUS e à saúde suplementar no Brasil

No contexto brasileiro, a aplicação integral dessas recomendações enfrenta desafios importantes, como falta de ambulatórios estruturados de seguimento pós-UTI, escassez de equipes multiprofissionais dedicadas e fragmentação entre níveis de atenção. Em hospitais públicos de referência, uma estratégia factível é incorporar, ao plano de alta de toda criança que teve sepse ou choque séptico, um roteiro mínimo de seguimento, contemplando: agendamento de retorno em ambulatório (geral, de UTI ou de especialidades), indicação explícita de necessidade de fisioterapia e, quando indicado, fonoaudiologia e psicologia, além de comunicação formal com a unidade básica de saúde responsável pelo território da família. Na saúde suplementar, hospitais privados podem desenvolver “clínicas de sobreviventes de UTI pediátrica” ou circuitos de acompanhamento coordenado, integrando pediatria, fisioterapia, fonoaudiologia e psicologia em linhas de cuidado específicas para crianças pós-sepse.

Para CCIH, infectologistas e gestores, a mensagem da Surviving Sepsis Campaign é que indicadores de qualidade em sepse pediátrica não devem se limitar à mortalidade hospitalar ou ao tempo de UTI, mas também considerar taxas de readmissão, funcionalidade na alta e acesso a reabilitação. Isso implica incluir o tema da reabilitação e do seguimento pós-alta nos protocolos institucionais de sepse, nos programas de educação permanente e nas discussões de governança clínica, de modo que o episódio de sepse não seja tratado apenas como um “evento agudo”, mas como um marcador de necessidade de cuidado continuado e de reorganização das redes de atenção pediátrica.

 

10. Adaptação das diretrizes SSC pediátricas à realidade brasileira: CCIH, gestão e qualidade

10.1 Da diretriz ao protocolo: linhas de cuidado e segurança do paciente

A aplicação das diretrizes pediátricas da Surviving Sepsis Campaign em hospitais brasileiros exige traduzi-las em protocolos institucionais e linhas de cuidado de sepse que dialoguem com a estrutura, os fluxos e os recursos de cada serviço. As recomendações sobre reconhecimento precoce, ressuscitação hemodinâmica, antimicrobianos, suporte respiratório e reabilitação devem ser transformadas em fluxogramas claros, com definição de responsabilidades (quem avalia, quem aciona, quem prescreve, quem executa) e prazos-alvo para cada etapa do cuidado. Integrar esses fluxos aos programas de segurança do paciente implica tratar sepse pediátrica como evento sentinela e como eixo prioritário de melhoria, associado diretamente à redução de mortalidade evitável, falhas de comunicação e atrasos assistenciais.

10.2 Papel estratégico da CCIH e das comissões de sepse

Os serviços de controle de infecção hospitalar (CCIH) e as comissões de sepse têm papel central na implementação, monitoramento e revisão dos bundles baseados na Surviving Sepsis Campaign em pediatria. A CCIH pode utilizar os dados de microbiologia e de perfis de resistência para calibrar a escolha empírica de antimicrobianos nos protocolos pediátricos, articulando o guideline de sepse com o programa de stewardship e com as políticas de antimicrobianos da instituição. As comissões de sepse, por sua vez, são o fórum natural para discutir casos, revisar adesão às recomendações (por exemplo, tempo até antibiótico, volume de fluidos, uso de vasopressores) e propor ajustes nos fluxos à medida que problemas são identificados.

Além disso, CCIH e comissões de sepse podem liderar ações de educação permanente, utilizando o guideline pediátrico da Surviving Sepsis Campaign como base para capacitações periódicas de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e equipes de pronto-atendimento, e incorporando os conteúdos em programas de integração de novos colaboradores e em simulações realísticas de casos de sepse infantil. Essa atuação transversal aproxima a implementação das diretrizes da lógica de governança clínica, em que decisões são monitoradas e realimentadas continuamente.

10.3 Indicadores para gestão: do painel da UTI ao painel institucional

Para que a adoção das recomendações da Surviving Sepsis Campaign se traduza em melhoria mensurável, é essencial definir e acompanhar indicadores assistenciais alinhados ao guideline. Entre os mais relevantes em pediatria, destacam-se:

  • Tempo entre chegada/primeiro contato e reconhecimento da sepse/choque séptico.
  • Tempo entre reconhecimento e administração do primeiro antibiótico adequado.
  • Proporção de crianças com choque séptico que recebem ressuscitação volêmica e início de vasopressores dentro dos prazos acordados.
  • Mortalidade em sepse e choque séptico pediátrico, ajustada por gravidade e por perfil de risco.
  • Uso de vasopressores, necessidade de ventilação mecânica e tempo de permanência em UTI.
  • Adesão aos bundles institucionais (por exemplo, “bundle da primeira hora” pediátrico, checado caso a caso).

Esses indicadores podem ser consolidados em painéis de gestão (dashboards) acessíveis à liderança clínica e administrativa, permitindo identificar variações entre unidades, turnos e equipes, e sustentando ciclos de melhoria contínua (auditoria, feedback, intervenção, reavaliação). No SUS, isso pode ser articulado a núcleos de segurança do paciente, comissões de revisão de óbitos e programas regionais de qualificação da atenção hospitalar; na saúde suplementar, pode compor contratos de qualidade, acreditação e relatórios de desempenho enviados a operadoras e clientes institucionais. Em ambos os sistemas, a mensagem das diretrizes da Surviving Sepsis Campaign é que sepse pediátrica deve sair da esfera de “evento ocasional grave” e passar a ser um marcador estruturante de qualidade, gestão de risco e maturidade institucional.

 

11. Perspectivas: novas definições (Phoenix), atualizações 2026 e integração com outros documentos SCCM

11.1 Phoenix Sepsis Score e Consenso Internacional de 2024

As diretrizes pediátricas da Surviving Sepsis Campaign, na sua atualização de 2026, passam a adotar explicitamente a nova definição de sepse pediátrica baseada no Consenso Internacional de 2024, que define sepse como infecção com disfunção orgânica com envolvimento de pelo menos um entre quatro sistemas: respiratório, cardiovascular, coagulação e neurológico (WEISS et al., 2024; SCCM, 2026). Essa definição operacionaliza a disfunção orgânica por meio do Phoenix Sepsis Score (PSS), recomendando identificar sepse em crianças com infecção suspeita ou confirmada e PSS maior ou igual a 2 pontos, e choque séptico quando há sepse com pelo menos 1 ponto no subescore cardiovascular (WEISS et al., 2024).

Ao incorporar o Phoenix Sepsis Score, a Surviving Sepsis Campaign aproxima o guideline de manejo da linguagem utilizada em pesquisa, vigilância e estratificação de risco, facilitando a comparação de estudos e a construção de indicadores padronizados (WEISS et al., 2024; SCCM, 2026). Na prática, isso significa que, embora o documento de 2020 já enfatizasse a disfunção orgânica como eixo central, a versão 2026 alinha suas recomendações a um critério consensual internacional, baseado em modelagem de grandes coortes multicêntricas, reforçando a coerência entre definir sepse pediátrica e manejar sepse pediátrica.

11.2 Atualizações 2026 da Surviving Sepsis Campaign e possíveis impactos

As atualizações da Surviving Sepsis Campaign em 2026, destacadas pela SCCM e pela ESICM, reduzem o número total de recomendações pediátricas para 61, mas incluem 20 recomendações novas, além de ajustes em enunciados previamente emitidos em 2020 (SCCM, 2026; GUIDELINE CENTRAL, 2026). Entre as novidades, relatadas em documentos-síntese e webcasts, estão recomendações condicionais relacionadas ao uso de POCUS para guiar ressuscitação, clarificações sobre o uso de biomarcadores e testes moleculares rápidos, e maior ênfase em desfechos pós-alta e reabilitação (SCCM, 2026; ESICM, 2026).

Para o manejo pediátrico, essas atualizações reforçam tendências já presentes em 2020: foco em iniciar antimicrobianos rapidamente em choque séptico, maior prudência na expansão volêmica em contextos de recursos limitados, valorização da avaliação clínica integrada em detrimento de algoritmos rígidos, e reconhecimento formal da importância de acompanhamento de longo prazo de sobreviventes (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026). Ao mesmo tempo, ao reduzir o número de recomendações e explicitar melhor onde não há evidência suficiente para posicionamento formal, o guideline busca ser mais enxuto e utilizável, facilitando sua incorporação em protocolos institucionais e módulos de educação permanente.

11.3 Integração com outros documentos SCCM e iniciativas de qualidade em sepse

As Children’s Guidelines da Surviving Sepsis Campaign não existem de forma isolada no ecossistema de documentos da SCCM. Em 2026, a sociedade também publica o Guideline on the Care and Management of Pediatric and Neonatal Intensive Care Patients at the End of Life, que aborda decisões de limitação de suporte, comunicação com famílias e manejo de sintomas em crianças em fim de vida (SCCM, 2026). Esse documento se conecta diretamente ao guideline de sepse pediátrica, uma vez que parte dos pacientes com choque séptico refratário e falência multissistêmica evoluirá para situações em que a prioridade se desloca de cura para conforto e qualidade de vida.

Além disso, a Surviving Sepsis Campaign se articula com iniciativas internacionais de melhoria da qualidade em sepse pediátrica, como programas de bundles, redes colaborativas e projetos focados em pós-sepsis morbidity, enfatizados por SCCM e ESICM nas apresentações sobre as diretrizes de 2026 (ESICM, 2026; SCCM, 2026). Para serviços brasileiros, integrar o guideline de sepse pediátrica com outros documentos SCCM (como guias de UTI, fim de vida pediátrico) e com programas nacionais de segurança do paciente, controle de infecção e PNPCIRAS significa construir uma arquitetura de cuidado em que a sepse infantil é tratada não apenas como um protocolo clínico isolado, mas como um eixo articulador de qualidade, humanização e gestão do risco em pediatria.

 

12. Conclusões

A adoção efetiva das diretrizes pediátricas da Surviving Sepsis Campaign implica uma mudança de patamar na abordagem da sepse infantil: sair da atuação reativa, centrada apenas na fase de choque estabelecido, para uma linha de cuidado estruturada, que integra reconhecimento precoce, ressuscitação hemodinâmica prudente, uso rápido e racional de antimicrobianos, suporte ventilatório protetor, reabilitação e seguimento pós‑alta. Aplicar o guideline na prática diária significa abandonar protocolos fragmentados ou baseados em extrapolações de adultos e alinhar condutas de emergência, enfermaria, UTI, CCIH e atenção primária a um mesmo corpo de recomendações, com metas claras de tempo, qualidade e desfecho (WEISS et al., 2020; SCCM, 2026).

Em serviços brasileiros, especialmente de média complexidade, os principais desafios passam por: heterogeneidade de recursos (acesso irregular a UTI pediátrica, ventiladores, vasopressores e monitorização), rotatividade de equipes, ausência de protocolos bem desenhados e fragilidade de sistemas de informação capazes de medir indicadores como tempo até antibiótico e mortalidade ajustada. Nessas instituições, implementar integralmente a Surviving Sepsis Campaign exige priorizar elementos de maior impacto e menor custo – qualificação da avaliação inicial, definição de fluxos de alerta e resposta rápida, protocolos simples de ressuscitação adaptados ao nível de recurso, esquemas antimicrobianos baseados em dados locais e articulação com serviços de referência – além de enfrentar barreiras culturais, como a resistência a mudar rotinas consolidadas e a dificuldade de incorporar auditorias e feedback na prática diária (WEISS et al., 2020; ESICM, 2026).

Diante desse cenário, a chamada à ação é clara. Para equipes assistenciais, o compromisso é dominar os princípios do guideline, reconhecer precocemente a criança séptica, iniciar o tratamento adequado sem atrasos evitáveis e participar ativamente de iniciativas de melhoria contínua. Para CCIH e programas de stewardship, a tarefa é integrar as recomendações da Surviving Sepsis Campaign aos protocolos de antimicrobianos, à vigilância de infecções e à educação permanente, garantindo que o uso “mais rápido” de antibióticos em choque séptico venha acompanhado de uso “mais inteligente” no restante do espectro de gravidade. Para gestores e lideranças institucionais, sepse pediátrica deve ser tratada como indicador sensível de qualidade e maturidade organizacional, incorporando metas e painéis de sepse nos planos estratégicos, destinando recursos para estrutura e treinamento, e articulando o tema com políticas de segurança do paciente, acreditação e PNPCIRAS. O guideline da Surviving Sepsis Campaign oferece o mapa; cabe aos serviços brasileiros decidir se continuarão reagindo caso a caso ou se transformarão sepse pediátrica em um eixo estruturante de gestão e cuidado em saúde.

As diretrizes pediátricas da Surviving Sepsis Campaign representam um avanço inquestionável — mas não resolvem, por si só, o principal problema da sepse: a variabilidade da prática clínica.

Elas deixam claro que:

  • Não existe solução simplista (não há “score mágico” ou protocolo universal)
  • A maioria das recomendações ainda se apoia em evidência limitada
  • O sucesso depende de organização institucional, não apenas de decisão individual

O que diferencia hospitais hoje não é o acesso ao guideline — é a capacidade de:

  • Reconhecer precocemente
  • Agir rapidamente
  • Integrar equipes
  • Monitorar indicadores
  • Revisar continuamente suas práticas

Em outras palavras: sepse pediátrica deixou de ser apenas um problema clínico.
Ela é, cada vez mais, um marcador de maturidade institucional em saúde.

 

Referências bibliográficas:

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Autor:

Antonio Tadeu Fernandes:

Médico pela FMUSP com residência em Moléstias Infecciosas no HCFMUSP e mestrado em Medicina Preventiva na FMUSP.

Ex-presidente da APECIH e da ABIH.

Autor do livro: “Infecção Hospitalar e suas Interfaces na Área da Saúde” (Prêmio Jabuti como melhor publicação em Ciências Naturais e Saúde).

CEO do Instituto CCIH+

https://www.linkedin.com/in/mba-gest%C3%A3o-ccih-a-tadeu-fernandes-11275529/

https://www.instagram.com/tadeuccih/

 

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