A participação de pacientes e familiares nas campanhas para higiene das mãos dos profissionais de saúde parece apresentar resultados favoráveis, mas qual será a percepção dos envolvidos?

Com relação a segurança e qualidade nos cuidados prestados nos centros de saúde, a higienização das mãos é tida como um indicador muito importante, por quê?

Porque é considerada a medida mais eficaz para prevenção de infecções associadas aos cuidados de saúde e ajudar na redução da disseminação da resistência microbiana entre pacientes internados e este são os principais problemas para a saúde da coletividade do século XXI, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), que destaca a importância do controle de infecção nestas ações educativas.

Como a OMS define a participação do paciente e seus familiares na promoção à saúde, quando se trata de Higienização das mãos em instituições de saúde?

A participação do paciente e familiares no estímulo a adesão à higiene das mãos dos profissionais de saúde é vista pela OMS como uma das mais efetivas atividades para estimular mudanças comportamentais que afetam a aderência à esta prática preventiva. Aos pacientes e seus familiares são dadas informações para seu engajamento nestas atividades ao mesmo tempo que são fornecidas informações científicas aos profissionais de saúde sobre a importância da higiene das mãos nos cuidados assistenciais, de acordo com a estratégia multimodal defendida pela OMS e sobre a campanha que será desenvolvida envolvendo pacientes e familiares.

Onde foi realizado este estudo?

Ele foi realizado num hospital universitário da Galícia, na Espanha, com 850 leitos. Envolveu todos os pacientes, e seus familiares, internados fora das UTIs entre abril e maio de 2016, que consentiram participar do estudo. Na Espanha, como na maioria dos países, a aderência dos profissionais de saúde à higiene das mãos é baixa, inferior a 50% das oportunidades.

Como foi realizado este estudo com os pacientes e familiares?

Foi realizada uma entrevista prévia com todos pacientes e acompanhantes para explicar o estudo e sua importância, com a finalidade obter o consentimento, explicado a anonimidade das respostas. Foi aplicado um questionário que incluía dados demográficos e questões específicas sobre conhecimento das infecções hospitalares e sua prevenção, particularmente a importância da higiene das mãos e se se sentiriam à vontade em cobrar a aderência dos profissionais de saúde à esta ação preventiva.

Como foi realizado o estudo com os profissionais de saúde?

Todos enfermeiros e médicos cadastrados na instituição, que atuam exclusivamente fora das UTIs foram convidados a participar voluntaria e anonimamente, coma participação de suas respectivas chefias na sua distribuição e divulgação. O questionário envolvia dados demográficos, profissionais e sues conhecimentos sobre as infecções hospitalares, sua prevenção, a importância da higiene das mãos e como veriam a participação dos pacientes e familiares numa campanha educativa sobre a aderência deles à higiene das mãos.

Quais foram os principais resultados obtidos com os pacientes e seus familiares?

Conhecimento das infecções hospitalares: pacientes (95%), familiares (98%)

Infecções hospitalares erem um problema importante: pacientes 96%; familiares 98%

As infecções hospitalares poderiam ser contraídas: pacientes (52%); familiares (54%)

Maneira de aquisição das infecções hospitalares de acordo com os pacientes que acreditam nestas principais formas: dispositivos invasivos (58%); ar (53%); contato com profissionais de saúde (45%); contato com outros pacientes (29%)

Opinião de seus familiares sobre a mesma questão: ar (67%); dispositivos invasivos (65%); contato com profissionais de saúde (43%); contato com outros pacientes (34%)

Acreditar na efetividade da higiene das mãos para prevenir infecções: pacientes (99%), familiares (100%)

Observam se profissionais de saúde higienizam suas mãos antes de prestarem assistência: pacientes (59%); familiares (55%).

Sente-se mais seguros quando observam os profissionais de saúde realizando a higiene das mãos antes do atendimento: pacientes (99%), familiares (94%)

Perguntam se os profissionais de saúde realizam previamente a higiene das mãos: pacientes (48%), familiares (53%).

Quais as principais razões que pacientes e familiares não perguntam se os profissionais de saúde realizaram a higiene das mãos antes da assistência?

Medo de repercussões negativas na assistência prestada: 76%

Sentem vergonha: 24%

Falta de respeito com o profissional de saúde: 24%

Consideram desnecessário: 11%

Quais foram os principais resultados obtidos com médicos e enfermeiros?

Acreditam que a higiene das mãos é importante para prevenir infecções: médicos (100%); enfermeiros (99%)

Principais formas de transmissão de infecções de acordo com médicos: mãos contaminadas (82%); ar (9%); Contato com superfícies contaminadas (6%); compartilhamento de objetos não críticos (3%)

Principais formas de transmissão de infecções de acordo com enfermeiros: mãos contaminadas (91%); ar (4%); Contato com superfícies contaminadas (3%); compartilhamento de objetos não críticos (3%)

Aceitam a participação dos pacientes nos cuidados prestados: médicos (96%); enfermeiros (96%)

Aceitariam ser lembrados por pacientes e familiares se realizaram a higiene das mãos previamente ao atendimento: médicos (42%); enfermeiros (25%).

Quais foram as principais razões dos médicos não aceitarem a participação dos pacientes e seus familiares nesse lembrete?

Falta de conhecimento dos pacientes e familiares: 40%

Efeitos negativos na relação do profissional de saúde com os pacientes e familiares: 40%

Desvalorização da autoridade do profissional de saúde: 28%

Consideram desnecessário: 26%

Preocupação com problemas legais: 14%

Aumento da carga de trabalho: 7%

Quais foram as principais razões dos enfermeiros não aceitarem a participação dos pacientes e seus familiares nesse lembrete?

Consideram desnecessário: 58%

Efeitos negativos na relação do profissional de saúde com os pacientes e familiares: 28%

Desvalorização da autoridade do profissional de saúde: 20%

Falta de conhecimento dos pacientes e familiares: 13%

Aumento da carga de trabalho: 8%

Preocupação com problemas legais: 2%

Como os autores interpretaram os principais resultados?

Os autores destacaram que este foi um estudo pioneiro ao avaliar atitudes dos pacientes, familiares e profissionais de saúde frente e este tipo de campanha educativa na Espanha. Observaram que metade dos pacientes/familiares aceitam sua participação nessas campanhas, em contraste com os profissionais de saúde, dentre os quais apenas um terço concorda. Pacientes idosos, com menor escolaridade e do sexo masculino têm mais dificuldade em aceitar. As rejeições estão relacionadas à vergonha ou medo de reflexos negativos com a assistência recebida. Em relação aos profissionais de saúde os médicos aceitam bem melhor que os enfermeiros a participação dos pacientes. Segundo os autores a rejeição da enfermagem tem a ver com seu maior contato com os pacientes e dos médicos devido a relação paternalista e hierarquizada que estabelecem com os pacientes. Os autores também enfatizam nas conclusões a existência de inúmeros paradigmas culturais que necessitam ser compreendidos e superados para um aprimoramento dessa importante ação educacional.

Quais as principais limitações que os autores observaram em sua pesquisa?

Segundo os autores as principais limitações foram: a falta de cultura dos pacientes entrevistados em participar dos processos de segurança do seu atendimento; a distribuição por sexo dos profissionais de saúde não ser homogênea, com largo predomínio de médicos do sexos masculino e enfermeiros do sexo feminino; o estudo ser realizado em hospital que nunca havia realizado campanhas para pacientes e familiares solicitarem aos profissionais de saúde a higiene das mãos antes dos cuidados prestados.

Que opiniões os autores desta sinopse gostariam de acrescentar?

Aparentemente este é uma pesquisa bastante original sobre um tema importantíssimo, que deve ser realizada em outros países e cenários assistenciais. Também achamos interessante realizar uma pesquisa qualitativa sobre o tema, utilizando grupos focais ou entrevistas semiestruturadas, pois são ferramentas mais adequadas para avaliar comportamentos, que questionários com questões fechadas. Particularmente achamos muito interessante as diferenças entre os motivos de recusa desta campanha comparando médicos e enfermeiros no que foi mais diferente. Os primeiros preocupados com seu status profissional ou riscos legais e os segundos achando desnecessário o envolvimento dos pacientes num aspecto fundamental para o controle de infecção, segurança do paciente e diminuição da resistência microbiana.

Fonte: Sande-Maijide M et cols: Perceptions and attitudes of patients and health care workers toward patient empowerment in promoting hand hygiene. American Journal Infection Control 47 (2019) 45-50

Sinopse por: Roseane Cavalcanti & Antonio Tadeu Fernandes

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