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Estudo nacional sobre formação de biofilme em gastroscópios. Destacamos:

  • Por que biofilmes preocupam em endoscópios flexíveis?
  • Qual foi o objetivo deste estudo?
  • Qual a metodologia desenvolvida para estudo de biofilmes nos canalículos dos gastroscópios?
  • Quais foram os principais resultados?
  • O que os autores concluíram a partir deste estudo?
  • Quais foram as limitações do estudo, segundo seus autores?
  • Quais perspectivas este artigo abre?

Por que biofilmes preocupam em endoscópios flexíveis?

O papel do biofilme como fator chave de contaminação no âmbito dos cuidados de saúde é de amplo conhecimento. Recentemente estudos têm abordado o biofilme de tipo buildup (build-up biofilm – BUB), que se desenvolve de forma relativamente mais gradual nas superfícies porém por ser mais compacto e possuir maior aderência apresenta aumentada resistência a desinfetantes e processos de desinfecção em relação ao biofilme tradicional.

Na prática clínica são diversos os locais em que esse tipo de biofilme causa preocupação sendo uma das principais a utilização de endoscópios. Esses instrumentos são ferramentas essenciais em diversas especialidades, principalmente por permitirem a realização de processos diagnósticos e terapêuticos de maneira minimamente invasiva. Contudo, devido ao seu design complexo, um dos desafios intrínsecos a esses materiais é justamente o adequado reprocessamento de forma a garantir a eliminação satisfatória do BUB.

Qual foi o objetivo deste estudo?

O estudo teve como objetivo avaliar prospectivamente o acúmulo de proteínas e de biofilme nas superfícies internas de canais novos de gastroscópios flexíveis durante períodos diversos de utilização clínica e reprocessamento do equipamento.

Qual a metodologia desenvolvida para estudo de biofilmes nos canalículos dos gastroscópios?

Este estudo retrospectivo foi realizado em um serviço de endoscopia de um hospital público de 235 leitos na região centro-oeste do Brasil, com uma média de 60 ciclos de reprocessamento de equipamentos por mês durante o período de estudo. Para cada uma das unidades analisadas foram inspecionados os canais de ar, água e biópsia.

O estudo consistiu de 3 fases de coleta de material:

  • Fase 1 (controle): foi selecionado um gastroscópio que estava em uso há 5 anos para análise antes da implementação de um novo protocolo de reprocessamento. Os 3 canais internos foram substituídos por novos e as peças removidas foram encaminhadas ao laboratório de microbiologia para análise.

(Antes de prosseguir com a próxima fase foi implementado um novo protocolo de reprocessamento, elaborado e revisado por especialistas)

  • Fase 2 (após 30 dias de uso): nesta fase foram selecionados 3 gastroscópios, que tiveram seus canais substituídos por novos e então utilizados por 30 dias no serviço de endoscopia. Ao final deste período as peças foram novamente substituídas e os canais retirados foram encaminhados para análise microbiológica.
  • Fase 3 (após 60 dias de uso): na fase final, os mesmos gastroscópios da fase anterior foram reinseridos no uso clínico por um período de 60 dias. Ao final os canais foram novamente substituídos por novos e as peças retiradas encaminhadas ao laboratório para análise.

Em todo o processo a remoção e substituição foi realizada por uma empresa credenciada e as extremidades dos canais foram vedadas com pinças hemostáticas e então transportadas em recipiente plástico desinfetado e com tampa para o laboratório.

No laboratório, os canais foram cortados longitudinalmente em fragmentos de 1 cm (totalizando 28 fragmentos) que foram então cortados em 2 partes. Cada fragmento foi submetido à extração proteica por hidrólise alcalina e foram realizadas culturas bacterianas com técnicas tradicionais de microbiologia, seguida de identificação e testes de susceptibilidade quando apropriado. Como controle adicional, um gastroscópio não utilizado foi submetido a um ciclo de reprocessamento e então submetido a microscopia eletrônica de varredura (SEM).

Quais foram os principais resultados?

No total o estudo analisou 28 fragmentos – sendo 7 canais de junção ar-água, 7 de ar, 7 de água e 7 de biópsia.

Os resultados apontaram dano estrutural como uma problemática generalizada. Isso foi notado já na fase de corte, em que 3 dos canais de um gastroscópio da fase 3 continha umidade residual. Prosseguindo a análise para a microscopia, 20 fragmentos (~70%) apresentaram danos estruturais, entre os quais os 7 canais de biópsia analisados. Além disso, o dano não pode ser avaliado por microscopia nos outros 8 canais devido à espessa camada de biofilme presente. Por fim, o gastroscópio submetido a um único ciclo de reprocessamento também apresentou danos.

Congruentemente, as análises microbiológicas revelaram extensa presença de biofilmes contendo bacilos, bastonetes e/ou cocos em 18 das 28 amostras distribuídas nas 3 fases do estudo. Proteína residual foi detectada em todos os canais de ar e água de todos os gastroscópios, com exceção de um equipamento da fase 2. Já o crescimento bacteriano estava presente em 8 canais, sendo eles majoritariamente pertencentes a fase 2. A tipologia de canal com maior frequência de crescimento bacteriano foi o canal de ar. Por fim, 9 isolados foram coletados, sendo a maioria (5) do gênero Mycolic bacterium spp; bactérias gram negativas (Pseudomonas aeruginosa, P. putida e Aeromonas hydrophila/caviae) foram isoladas em um único gastroscópio da fase 2, o mesmo que apresentou umidade residual,  e nenhuma resistência foi identificada.

O que os autores concluíram a partir deste estudo?

Os autores ressaltam as diversas criticidades no reprocessamento dos gastroscópios. Eles ressaltam primeiramente a dificuldade de remoção eficiente de matéria orgânica e inorgânica sem a possibilidade de escovação/fricção durante a limpeza e também a ineficiência de processos automatizados em fazê-lo. Somado a isso, o dano estrutural amplamente notado pode fornecer alojamento para diferentes materiais e impedir uma eficaz desinfecção. Esse acúmulo de proteínas, carboidratos e outros dentro desses canais podem propiciar a adesão de microorganismos e a formação de biofilmes. Sendo assim, os pesquisadores ressaltam que essas condições que propiciam acúmulo e proliferação de microorganismos, aliada a desinfecção inapropriada pode resultar em surtos de infecções relacionadas a procedimentos endoscópicos.

Concluem então que os desafios inerentes ao ciclo de reprocessamento são diversos e portanto é fundamental continuar refletir sobre a finitude e  definir critérios para o uso seguro de endoscópios e/ou para alteração de seus canais, não apenas nos casos de perda de funcionalidade ou de integridade perceptível.

Quais foram as limitações do estudo, segundo seus autores?

A primeira limitação do estudo é que os testes analíticos (microscopia e microbiologia) foram realizados em diferentes fragmentos dos canais, que mesmo sendo pareados podem gerar variabilidade. Além disso, não foram coletadas amostras dos pacientes, de forma que não se pode confirmar ou refutar a transmissão efetiva. Por fim, é importante notar que apesar de um novo protocolo ter sido implementado os autores não puderam garantir que este tenha sido seguido rigorosamente por todos os envolvidos em todos os momentos.

Quais perspectivas este artigo abre?

O estudo em si apresenta uma proposta interessante e os autores conseguem, por meio de uma discussão bem elaborada e embasada em literatura científica, extrapolar insights interessantes. Esta pesquisa pode ser um interessante ponto de partida para estudos de melhoria de qualidade, tanto para estudos de novos designs quanto para melhoria dos métodos de reprocessamento em vigor. Outra valiosa consideração feita é sobre o armazenamento de equipamentos e possíveis soluções, como o uso de armários de armazenamento com adaptadores para passagem de ar.

 

Fonte: Primo MGB, Tipple AFV, Costa DM, Guadagnin SVT, Azevedo AS, Leão-Vasconcelos LSNO, Alfa M, Vickery K. Biofilm accumulation in new flexible gastroscope channels in clinical use. Infect Control Hosp Epidemiol. 2022 Feb;43(2):174-180

Link: https://www.cambridge.org/core/journals/infection-control-and-hospital-epidemiology/article/abs/biofilm-accumulation-in-new-flexible-gastroscope-channels-in-clinical-use/F7C2F261AB1DF92A65E4C52DAEC43B55

Links relacionados:

https://www.worldgastroenterology.org/UserFiles/file/guidelines/endoscope-disinfection-english-2019.pdf

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31482418/

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32164535/

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28159069

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2013/rdc0006_10_03_2013.html

https://www.ccih.med.br/particularidades-no-processamento-de-endoscopios-digestivos/

https://www.ccih.med.br/microbiologia-aplicada-ao-cme/

https://www.ccih.med.br/centro-de-material-e-esterilizacao-o-que-devo-saber/

Sinopse por: Maria Julia Ricci

E-mail: [email protected]

Instagram: @sonojuju

Twitter: @sonojuju

Linkedin: www.linkedin.com/in/mariajuliaricci

Palavras chaves / TAGs: gastroscópios, endoscópios flexíveis, biofilme, contaminação, reprocessamento, desigin complexo, canalículos, microscopia eletrônica de varredura, umidade residual, proteína residual, pseudomonas aeruginosa, Aeromonas hydrophila, processos automatizados, desinfecção



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