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Análise da ampliação do protocolo de triagem para Candida auris em hospital de Nova York

Candida auris

A ampliação da triagem de Candida auris em hospital de Nova York revelou aumento na detecção precoce de casos, prevenindo transmissões hospitalares.

FAQ: Triagem Ampliada para Candida auris e Suas Implicações

1. O que é Candida auris e por que a triagem (screening) de pacientes é tão importante?

Candida auris é um fungo multirresistente que causa infecções graves e surtos em serviços de saúde. A triagem é crucial porque muitos pacientes podem estar colonizados (ter o fungo na pele sem sintomas) e servir como um reservatório silencioso, transmitindo-o para outros pacientes vulneráveis. A identificação precoce de portadores permite a implementação de medidas de controle para evitar a disseminação.

2. O que é a “transmissão oculta” (ou “disseminação silenciosa”) de C. auris?

É a transmissão que ocorre a partir de pacientes colonizados, mas não identificados, que não apresentam sintomas de infecção. Como eles não são o foco de atenção clínica, o fungo se espalha sem ser detectado até que um surto de infecções graves ocorra, tornando o controle muito mais difícil.

3. Qual era o protocolo de triagem tradicional ou “baseado em risco” para C. auris?

O protocolo tradicional focava em triar apenas pacientes considerados de alto risco, como aqueles transferidos de hospitais com surtos conhecidos, pacientes com histórico de internação em países com alta prevalência de C. auris, ou contatos próximos de um caso recém-diagnosticado.

4. O que motivou o hospital de Nova York a ampliar seu protocolo de triagem?

A principal motivação foi a observação de que novos casos de infecção por C. auris continuavam a surgir em pacientes que não se encaixavam nos critérios de alto risco. Isso sugeria que a transmissão oculta estava ocorrendo na instituição e que a estratégia de triagem focada era insuficiente para detectar todos os portadores.

5. Em que consistiu a ampliação do protocolo de triagem no estudo?

A ampliação envolveu a implementação de triagem universal em determinadas unidades. Em vez de triar apenas pacientes de alto risco, eles passaram a realizar a triagem em todos os pacientes admitidos em unidades de alto risco, como as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e unidades de longa permanência.

6. Quais foram os principais resultados encontrados após a ampliação da triagem?

A triagem ampliada levou a um aumento significativo na detecção de pacientes colonizados por C. auris. O estudo demonstrou que a estratégia baseada em risco falhava em identificar uma proporção considerável de portadores, confirmando a existência de uma grande reserva de transmissão oculta.

7. Qual foi o impacto da nova estratégia nas medidas de controle de infecção?

A detecção precoce de um número maior de pacientes colonizados permitiu a implementação imediata de Precauções de Contato para esses pacientes. Isso ajudou a quebrar a cadeia de transmissão e a proteger outros pacientes vulneráveis, sendo uma estratégia proativa em vez de reativa.

8. Com base nesse estudo, todos os hospitais no Brasil deveriam adotar a triagem universal para C. auris?

Não necessariamente. A decisão de ampliar a triagem deve ser baseada na epidemiologia local. Em hospitais com surtos ativos, alta prevalência ou evidência de transmissão, a triagem ampliada pode ser uma ferramenta poderosa. Em locais sem casos, a estratégia deve seguir as recomendações da Anvisa, focando na vigilância e na triagem baseada em risco.

9. Quais são as recomendações atuais da Anvisa para a triagem de C. auris no Brasil?

A Anvisa recomenda a triagem em situações de surto e para pacientes de risco, como: 1) Contatos de um caso confirmado; 2) Pacientes provenientes de outros países ou instituições com casos de C. auris; 3) Pacientes com longa permanência hospitalar e uso de múltiplos antimicrobianos. A recomendação pode ser expandida pela vigilância local conforme a situação epidemiológica.

10. Como é feita a coleta da amostra para a triagem (screening) de C. auris?

A coleta é simples e não invasiva. Utiliza-se um swab para coletar amostras da pele, geralmente da região da axila e da virilha, que são as áreas mais comuns de colonização. Em algumas situações, outros locais como narina, reto ou feridas também podem ser investigados.

11. Qual o papel do médico na indicação e interpretação dos resultados da triagem?

O médico deve estar ciente dos fatores de risco para indicar a triagem conforme o protocolo institucional e as normas da Anvisa. Ao receber um resultado positivo, ele deve entender a diferença entre colonização e infecção, e colaborar com a CCIH para garantir as precauções, sem necessariamente iniciar um tratamento antifúngico se o paciente for assintomático.

12. Qual o papel do enfermeiro na coleta das amostras e na implementação das precauções?

A equipe de enfermagem é fundamental para o sucesso do programa de triagem. É responsável pela coleta correta das amostras de swab, pelo envio ao laboratório e, crucialmente, pela implementação imediata e rigorosa das Precauções de Contato para pacientes com resultado positivo, garantindo a segurança de todo o ambiente.

13. O farmacêutico tem algum papel relacionado à triagem de C. auris?

Embora indireto, o papel do farmacêutico é importante. Ao promover o Antifungal Stewardship (uso racional de antifúngicos), ele ajuda a reduzir a pressão seletiva que favorece o surgimento de patógenos como a C. auris. Em caso de infecção, ele é essencial na otimização do tratamento.

14. Um resultado positivo na triagem significa que o paciente está com uma infecção ativa?

Não. Um resultado positivo na triagem (screening) significa que o paciente está colonizado, ou seja, ele é um portador do fungo na pele. Ele só é considerado infectado se o fungo for isolado de um sítio normalmente estéril (como o sangue) e ele apresentar sinais e sintomas de infecção.

15. Pacientes colonizados por C. auris devem ser tratados com antifúngicos?

Não. Não há recomendação de tratar a colonização. A chamada “descolonização” com antifúngicos tópicos ou sistêmicos não demonstrou eficácia e pode induzir mais resistência. O foco do manejo de pacientes colonizados é a prevenção da transmissão através das Precauções de Contato.

16. Quais são os desafios (custo, logística) para implementar uma triagem ampliada?

Os principais desafios são o custo dos testes laboratoriais (especialmente os moleculares, que são mais rápidos), a logística de coleta de um grande número de amostras, a capacidade do laboratório para processar esses testes, e a disponibilidade de quartos de isolamento para os pacientes identificados.

17. A triagem é uma medida isolada ou parte de um conjunto de ações?

A triagem é apenas uma peça de um quebra-cabeça maior. Para ser eficaz, ela deve estar integrada a um programa robusto de prevenção que inclui: higiene das mãos, Precauções de Contato, limpeza e desinfecção ambiental rigorosa com produtos eficazes, e comunicação transparente entre instituições.

18. Como a identificação de colonizados pela triagem ajuda a prevenir surtos?

Ao identificar os portadores silenciosos, o hospital pode isolá-los antes que eles transmitam o fungo. Isso quebra a cadeia de transmissão em seu elo mais fraco e previne que o fungo se espalhe pela unidade e cause um surto de infecções clínicas, que são muito mais difíceis e caras de controlar.

19. A triagem por PCR é melhor do que por cultura?

A triagem por PCR (teste molecular) tem a grande vantagem de ser muito mais rápida (resultado em horas vs. dias), permitindo a implementação de precauções de forma quase imediata. A cultura, por outro lado, é necessária para obter o isolado para testes de sensibilidade a antifúngicos. Muitas instituições usam o PCR para triagem e a cultura para casos suspeitos de infecção.

20. Onde os profissionais podem encontrar as diretrizes mais atualizadas da Anvisa sobre C. auris?

As diretrizes, notas técnicas e comunicados de risco oficiais da Anvisa sobre Candida auris e outros temas de segurança do paciente estão disponíveis em seu portal oficial, na seção de publicações e alertas para serviços de saúde.

Introdução

O artigo “Analysis of an expanded admission screening protocol for Candida auris at a New York City hospital”, publicado no American Journal of Infection Control, aborda a ampliação da triagem para Candida auris (C. auris) em pacientes admitidos vindos de instituições de longa permanência (ILP). Entenda a relevância desse estudo para a segurança hospitalar e controle de infecções.

Principal Achado

O principal achado do estudo foi que expandir o protocolo de triagem permitiu a identificação precoce de casos de colonização por Candida auris, especialmente entre pacientes considerados inicialmente de baixo risco, reduzindo significativamente a transmissão hospitalar desse fungo multirresistente.

Importância do Tema

Candida auris é um patógeno emergente que representa uma séria ameaça devido à sua resistência a múltiplos antifúngicos e à alta capacidade de sobrevivência em superfícies hospitalares. A identificação precoce de pacientes colonizados é essencial para prevenir surtos hospitalares e controlar a disseminação da infecção.

Contextualização do que se sabia

Anteriormente, sabia-se que pacientes provenientes de ILPs com traqueostomia ou dependentes de ventilação mecânica apresentavam risco elevado de colonização por C. auris. Porém, havia incertezas sobre a necessidade de rastrear pacientes com menor perfil de risco vindos dessas instituições.

Metodologia

Realizou-se um estudo retrospectivo comparando dois períodos (janeiro a setembro de 2022, pré-expansão, e outubro de 2022 a setembro de 2023, pós-expansão). Foram triados 591 pacientes únicos provenientes de ILPs, analisando fatores de risco como dependência ventilatória e uso de traqueostomia. As amostras coletadas foram cultivadas e confirmadas com espectrometria de massa (MALDI-TOF).

Principais Resultados

Dos 591 pacientes únicos triados, 14 (2,4%) tiveram resultado positivo para colonização por C. auris. Entre pacientes com traqueostomia ou dependentes de ventilação mecânica, a taxa de positividade foi significativamente maior (17,0%), comparada a apenas 0,9% nos demais pacientes (OR: 21,5; IC: 6,2-85,6; p < 0,01). O estudo também revelou que a expansão dos critérios permitiu identificar 8 casos adicionais que passariam despercebidos pelo protocolo anterior.

Conclusões dos Autores

Os autores concluem que hospitais devem considerar a implementação ou expansão dos protocolos de triagem de C. auris com base na prevalência regional do patógeno, especialmente entre pacientes oriundos de instituições de longa permanência com diferentes níveis de risco.

Fatores Limitantes e Possíveis Confundidores

Entre as limitações apontadas, destaca-se a possibilidade de não rastreio de pacientes devido a falhas na documentação prévia de internação em instituições de longa permanência, bem como a falta de avaliação de outros dispositivos médicos que poderiam influenciar o risco de colonização.

Recomendações dos Autores

Os autores recomendam a expansão dos critérios de triagem para incluir pacientes provenientes de todas as ILPs, especialmente em regiões com prevalência conhecida de C. auris, como medida eficaz para evitar transmissões não detectadas e minimizar o impacto operacional associado a surtos hospitalares.

Ampliação dos critérios de pesquisa de colonização

Originalmente, o hospital rastreava apenas pacientes admitidos com traqueostomia ou dependentes de ventilação mecânica vindos de Instituições de Longa Permanência (ILP) que ofereciam suporte ventilatório. Com a ampliação, passaram a rastrear todos os pacientes provenientes de qualquer ILP, independentemente da presença desses dispositivos.

Os autores destacaram a importância de realizar triagem inicial para todos os pacientes provenientes de ILPs, especialmente nas regiões com alta prevalência conhecida de C. auris. Isso permitiu identificar casos positivos adicionais que, anteriormente, teriam passado despercebidos por não se encaixarem no perfil de alto risco inicial.

Como uma prática adicional recomendada, sugerem a expansão progressiva, começando pelos pacientes mais vulneráveis (com traqueostomia ou ventilação mecânica) e, caso haja resultados positivos, ampliar a triagem também para pacientes sem esses dispositivos, que inicialmente não seriam considerados de alto risco.

Procedimentos de Isolamento e Precauções para Pacientes Colonizados

  • Pacientes considerados de alto risco (com traqueostomia ou dependentes de ventilação mecânica) foram imediatamente colocados em precauções especiais de contato (isolamento) enquanto aguardavam os resultados das culturas de triagem. Tais precauções exigem:
    • Uso obrigatório de avental e luvas pela equipe médica e assistencial ao entrar no quarto.
    • Higienização reforçada com hipoclorito de sódio (água sanitária) em todos os equipamentos e superfícies que o paciente colonizado tenha contato direto.
    • Após a confirmação da colonização, é feita uma limpeza intensificada (terminal) do ambiente, complementada por desinfecção com radiação ultravioleta (UV).
  • Para pacientes classificados como baixo risco, não foi instituído isolamento preventivo enquanto aguardavam os resultados, com o objetivo de minimizar o impacto operacional. Contudo, assim que um resultado positivo era confirmado, o paciente passava imediatamente às precauções especiais descritas acima.
  • Nos casos em que um paciente colonizado compartilhou quarto, os colegas de quarto eram imediatamente testados e transferidos para quartos individuais até a confirmação negativa da colonização. Repetia-se o teste após uma semana, reforçando a segurança.

Comentários Adicionais

Destaca-se a importância da abordagem preventiva e proativa, que apesar de implicar custos iniciais, gera economia significativa ao evitar surtos e intervenções mais complexas e custosas.

É fundamental destacar que essas ações refletem uma visão preventiva robusta, com atenção especial à complexidade operacional hospitalar, equilibrando a segurança do paciente com eficiência administrativa.

O uso de técnicas avançadas de laboratório, como o PCR em tempo real (RT-PCR), é sugerido pelos autores como uma futura alternativa, considerando-se sua maior rapidez e sensibilidade na detecção do patóge­no.

Essas medidas corroboram diretrizes internacionais (CDC e outras agências internacionais) sobre a necessidade de políticas ativas de rastreamento e controle ambiental rigoroso.

Essas recomendações são uma oportunidade para os hospitais brasileiros revisarem suas políticas de controle de infecções, especialmente em unidades que recebem muitos pacientes de instituições de longa permanência.

 

Fonte:

CHENG, A. et al. Analysis of an expanded admission screening protocol for Candida auris at a New York City hospital. American Journal of Infection Control, v. 53, p. 70–74, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.ajic.2024.08.027.

 

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Sinopse por:

Antonio Tadeu Fernandes:

https://www.linkedin.com/in/mba-gest%C3%A3o-ccih-a-tadeu-fernandes-11275529/

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