O projeto SENIC realizado em 1983 avaliou a eficácia das ações de controle de infecção hospitalar por uma abordagem retrospectiva e baseada principalmente em revisão de prontuários, concluindo que pelo menos um terço das infecções hospitalares poderiam ser prevenidas, sendo uma ação efetiva em termos econômicos. Recentemente a equipe do Dra Petra Gastemeier realizou na Alemanha um estudo prospectivo e controlado para avaliar se ainda hoje as CCIHs mantém sua eficácia.

O estudo foi realizado em instituições de Berlim e Friburgo, de 12 hospitais convidados, oito foram selecionados e subdivididos em dois grupos: estudo e controle. Dois hospitais de cada cidade estavam em cada grupo e todos tinham enfermeira de controle de infecção e epidemiologista hospitalar. Inicialmente, todos os membros das CCIHs e a equipe que iria realizar a pesquisa nos hospitais foram treinados no emprego dos critérios diagnósticos do CDC. Foram realizados três períodos de observação, separados por duas intervenções nos hospitais do grupo de estudo. Na primeira foram implantados times da qualidade para enfatizar a aderência às medidas de controle relacionadas às infecções do trato urinário, respiratório inferior, corrente sanguínea e sítio cirúrgico. Na segunda intervenção foi implantada a discussão com as respectivas equipes de atendimento, dos resultados da vigilância NNIS (componentes cirúrgicos e de terapia intensiva).

A densidade de incidência de infecção hospitalar foi semelhante nos dois grupos antes das intervenções: 7,5 por mil e 7,4 por mil. Após a primeira intervenção, enquanto que no grupo de estudo a taxa caiu para 5,3 por mil, subiu para 8,2 no grupo controle. Esta diferença foi significativa. No terceiro período, após a segunda intervenção, os resultados obtidos foram 5,6 por mil, no grupo de estudo, e 6,7 por mil, no grupo controle, diferença não significativa.

As principais infecções detectadas foram: trato urinário, sítio cirúrgico, pneumonia e corrente sanguínea. A infecção do trato urinário caiu nos dois grupos do estudo, mas apenas no grupo de estudo a queda teve significância estatística. Neste grupo, foi observada também redução na ocorrência de pneumonia e infecção da corrente sanguínea e aumento na ocorrência de infecção do sítio cirúrgico, mas sem significância estatística. No grupo controle os autores observaram aumento na incidência de infecções da corrente sanguínea e pneumonia e queda na ocorrência de infecção do sítio cirúrgico. Estes resultados também não tiveram significância estatística.

Segundo os autores, este estudo teve vários problemas que podem ter interferido com os resultados obtidos. Obviamente não foi possível uma randonização dos pacientes e devido a isto as populações estudadas apresentaram diferenças significativas em algumas de suas características, o que pode ter interferido em alguns resultados obtidos. Mesmo nos hospitais sem intervenção, o simples fato da observação constante dos casos de infecção e das práticas de controle, podem ter afetado os hábitos da equipe de atendimento, repercutindo numa queda da incidência de infecção no terceiro período de observação. Além disso, em um dos hospitais do grupo de estudo não houve aceitação dos times da qualidade, dificultando a aderência às medidas de controle. Este hospital foi o único no grupo de estudo que apresentou um aumento no risco de infecção hospitalar.

Interpretando os resultados, os autores observaram que a queda de cerca de 25% na incidência das infecções observada nos hospitais do grupo de estudo comprova que a ação da CCIH persiste efetiva. Esta ação continua mais efetiva para a infecção do trato urinário, como ocorre desde o estudo SENIC. No caso do sítio cirúrgico, não se demonstrou eficiência das medidas adotadas, que enfocavam principalmente o pré e o pós-operatório, deixando de lado o intra operatório, fator mais importante, mas difícil de ser abordado, por envolver entre outros aspectos, detalhes da técnica operatória e da habilidade da equipe cirúrgica. Os autores concluíram que: “a pré-condição para a redução foi, por um lado, o verdadeiro interesse no gerenciamento pela qualidade das atividades e de outro lado, o apoio de uma equipe de controle de infecção motivada e bem treinada. O enfermeiro fazendo ações de vigilância e o médico atuando como epidemiologista hospitalar, enfatizando o emprego de medidas preventivas comprovadas pela sua evidência científica”.

 

Fonte: Gasteimer P, Bräuer H, Forster D, Dietz E, Daschner F, Rüden H. A Quality Management Project in 8 Selected Hospitals to Reduce Nosocomial Infections: A Prospective, Controlled Study. Infect Control Hosp Epidemiol (23); 2:91-97, 2002.

Resumido por: Antonio Tadeu Fernandes em 2003


Ficou interessado? Veja nossos cursos MBA em CCIH e CME.