O enxágue bucal com solução de peróxido de hidrogênio a 1% foi recomendado por suposta redução no risco de contaminação pleo Sars-CoV-2. Os autores realizaram uma revisão sistemática sobre o tema com a finalidade de determinar o grau de evidência científica desta prática.

Qual a justificativa do estudo?

Com a pandemia de COVID-19 atual exacerbaram-se as tentativas de prevenir a transmissão paciente-médico por meio da saliva e, assim, começaram a surgir na literatura cientifica diversas opiniões sobre como proceder para reduzir o risco de infecção cruzada em situações em que há geração de aerossóis. O uso de enxaguante bucal contendo 1% de peroxido de hidrogênio para reduzir a carga viral de SARS-CoV-2 como parte de protocolos pré-operatórios foi significantemente disseminada e influenciou a elaboração de diretrizes para atendimento odontológico em diversos locais do mundo. Não há, contudo, estudos que apoiem com base em evidencias tal uso.

Qual o objetivo do estudo?

Análise sistemática para responder a questão: o enxaguante bucal com peroxido de hidrogênio (em qualquer concentração) tem efeito virucida?

Qual metodologia foi empregada?

Bases de dados pesquisadas (pesquisa realizada em 30 de maio de 2020): Cochrane, LILACS, PubMed, Scopus e Embase; foi alvo de pesquisa também a literatura cinzenta no ProQuest, OpenGrey e Google Scholar.

Palavras- chave: ‘hydrogen peroxide’ (peroxide de hidrogênio), mouthwash’ (enxaguatorio bucal), ‘mouth rinse’ (enxague bucal), ‘rinse’ (enxague), ‘oral rinse’ (enxague oral), ‘mouth bath’ (banho de boca), ‘mouth wash’ (bochecho) e ‘mouth washes’(bochechos).

Critérios de inclusão: apenas estudos que avaliaram o efeito virucida do enxague bucal com peroxido de hidrogênio. Incluídos independentemente sem restrições de data de publicação

Critérios de exclusão: foram excluídos comentários, cartas ao editor, opiniões pessoais, capítulos de livros, relatos de casos, resumos de congressos, estudos com animais e estudos sobre enxaguantes bucais contendo outros compostos que não o peroxido de hidrogênio.

Quais os principais resultados?

Foram incialmente identificados 1.342 artigos; após exclusão de duplicatas restaram 976 artigos. Apenas estudos que avaliaram o efeito virucida do enxaguante bucal com peroxido de hidrogênio forma selecionados, independentemente da data de publicação. Após a leitura dos títulos e resumos, nenhum artigo atendeu aos critérios de elegibilidade.

Quais as conclusões e recomendações finais?

Com o recente surgimento da pandemia COVID-19, a informação de que enxaguante bucal com peróxido de hidrogênio a 1% seria capaz de reduzir a carga viral de SARS-CoV-2 na saliva foi disseminada com base na ação biológica desse composto sobre bactérias ou opiniões com base em sua eficácia em superfícies. Contudo, até o momento de publicação, não havia evidências cientificas que apoiassem a indicação de enxaguante bucal com peroxido de hidrogênio para controle de carga viral em relação ao SARS-CoV-2 ou qualquer outro vírus na saliva.

Os autores indicam que sua indicação em protocolos de atendimento odontológico durante a pandemia de COVID-19 deve ser revisada.

Que críticas e observações?

Os autores ressaltam que as especificações para testar enxaguantes bucais, estabelecidas pela Organização Internacional de Padronização (ISO), estabelece instruções para bactérias, fungos e leveduras, mas não para vírus. Além disso os testes padrão de determinação de atividade virucida são voltados para superfícies e até o momento nenhum demonstra como verificar o efeito virucida em amostras não padronizadas da nasofaringe ou cavidade oral.

Chamo atenção para a busca não uniforme realizada nas diferentes bases de dados. Para LILACS foram utilizadas mais palavras-chave e nas línguas inglês, português e espanhol. Já para as demais plataformas foram buscados menos termos e apenas em inglês. (detalhado no anexo B da publicação original)

Ressalto que a pesquisa nas bases de dados foi realizada em 30 de maio de 2020. Desde então muitos outros artigos e estudos tem sido realizados e vem sendo/serão publicados. Sendo assim é importante tomar o artigo não como uma conclusão absoluta, mas como uma análise de cenário pontual e com suas limitações. Apesar disso, essa revisão sistemática traz uma importante reflexão sobre a ciência baseada em evidência e sua aplicação real nos contextos nacionais e internacionais.

Por fim ressalto apenas a limitação das linguagens de busca, principalmente levando em conta a grande efervescência cientifica global resultante da pandemia de COVID-19  que tem proporcionado um exponencial aumento do numero de pesquisas e publicações; publicações estas que não são apenas feitas em inglês. Portanto, revisões sistemáticas mais inclusivas em termos de linguagem de busca e de publicação podem trazer resultados importantes.

Fonte: P.H. Braz-Silva, et al. Do hydrogen peroxide mouthwashes have a virucidal effect? A virucidal review. Journal of Hospital Infection, 106 (2020), 657-662.

Sinopse por: Maria Julia Ricci

Instagram: @mariajuliaricci_

E-mail: [email protected]



Ficou interessado? Veja nossos cursos MBA em CCIH e CME.