O reprocessamento de máscaras N95 foi uma prática emergencial realizada muitas vezes empiricamente devido a falta e necessidade desse importante EPI, durante a pandemia. Este estudo procura validar experimentalmente esta prática, comparando vários tipos de máscaras N95.

Qual a justificativa do estudo?

A COVID-19 impactou significativamente a saúde de milhões de pessoas em todo o mundo. A escassez de equipamentos de proteção individual (EPIs), incluindo respiradores N95, nas instalações hospitalares colocou profissionais de saúde de linha de frente em alto risco de contrair esse vírus.

Qual o objetivo do estudo?

Este estudo, realizado no Canada, visou desenvolver um método de reprocessamento do respirador N95 – reproduzível e seguro – que satisfaça todos os padrões regulatórios vigentes e que possa ser implementado diretamente por hospitais usando o equipamento existente disponível.

Qual metodologia foi empregada?

Um método de reprocessamento autoclave a vapor por gravidade (gravity steam processing) não tóxico foi desenvolvido para viabilizar a reutilização de respiradores N95, consistindo em 30 min de tratamento a vapor a 121° C seguido por 30 min de secagem por calor. Preferiu-se a utilização de temperatura menor em relação aos tradicionais 132°C para diminuir o potencial de deformação.

Foram utilizadas amostras de diferentes modelos de respiradores tipo N95 da marca 3M (modelos: 1860/1860s, 1870+, 9105); os diferentes modelos foram selecionados com base nas diferentes características físicas (em termos de arquitetura) dos diferentes respiradores. Durante o reprocessamento no esterilizador, buscou-se obter condições similares a realidade clínica e, portanto, os respiradores foram colocados dentro do equipamento (Getinge Steam Sterilizer modelo 633) em conjunto a outros materiais a serem processados. Os respiradores utilizados foram coletados em hospitais para a realização dos testes de microbiologia – de forma a manter as cargas microbiológicas o mais fidedignas a realidade clínica – e comprados novos para os testes de funcionalidade.

Teste de eficácia do ciclo de reprocessamento (microbiológico): Os parâmetros de classificação de eficiência do ciclo de reprocessamento seguiram o standard ISO 17665-1:2006. Os respiradores foram visualmente inspecionados para avaliar dano e/ou contaminação e então inoculados com suspensão de esporos de Geobacillus stearothermophilus; essa suspenção de esporo foi selecionada devido a sua alta resistência a calor úmido e, portanto, representar o pior cenário para a estratégia de reprocessamento em questão. Cada respirador foi inoculado com 1 ml de solução e deixado para secar durante a noite. Os locais de inoculação foram escolhidos de modo a simular da melhor forma possível o uso real e, portanto, compreenderam os locais determinados como de mais difícil desinfecção e as áreas que ficam de frente a boca e ao nariz. Agulha e seringa foram utilizadas para injetar a suspensão de esporos nas diferentes camadas dos respiradores e nos diferentes pontos de interesse.

Teste de funcionalidade: Um total de 32 respiradores (21 amostras e 11 controles) não utilizados e não expostos a microrganismos patogênicos foi avaliado quanto a sua funcionalidade após reprocessamento. Cada respirador foi embalado individualmente e exposto a três ciclos a 121°C por 30 minutos seguidos por 30 minutos de secagem. Os testes de funcionalidade (ou seja, eficiência de filtro, avaliação de ajuste e integridade das tiras) foram realizados nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (Centers for Disease Control and Prevention) usando o padrão procedimentos estabelecidos pelo Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional (National Institute for Occupational Safety and Health).

Quais os principais resultados?

Testes microbiológicos: Os modelos 1860/1860s e 1870+ não apresentaram crescimento bacteriano, indicando que o processo foi eficiente em inativar esporos bacterianos resistentes a calor. O respirador do modelo 9105 mostrou crescimento bacteriano em 2 amostras e, portanto, não está apto ao reprocessamento por meio deste protocolo.

Testes de eficiência: Todos os modelos testados mantiveram os requisitos mínimos de filtragem de 95% após três ciclos de reprocessamento. O ajuste do respirador a face foi mantido nos modelos 1870+ e 9105; o modelo 1860 sofreu significante redução de ajuste após os três ciclos. O reprocessamento teve pouco ou nenhum efeito sobre a integridade das tiras.

O método de reprocessamento de vapor por gravidade pode reprocessar com eficácia respiradores N95 ao longo de pelo menos três ciclos de reprocessamento sem impactar negativamente os requisitos de funcionalidade definidos pelos reguladores. Segundo os autores, permitir a reutilização de respiradores N95 é uma ferramenta crucial para gerenciar a pandemia atual (os autores ressaltam durante a discussão que a temperatura de 56°C durante 15 minutos, e ainda mais veloz em situações de elevada humidade relativa – é suficiente para a eliminação de SARS-CoV-2  de acordo com a Organização Mundial da Saúde)  e as crises de saúde futuras.

Dentre os modelos estudados o respirador N95 de modelo 1870+ apresentou os melhores resultados e mostrou-se como um claro candidato para reprocessamento a vapor.

Ressalta-se que o formato dos respiradores é crítico para a eficácia do reprocessamento já que impacta diretamente a exposição e a penetração do vapor. O tradicional formato de concha do modelo 1860/1860s e o design plano com dobras mínimas do modelo 1870+ permitem exposição e penetração ótimas. As dobras do modelo 9105 representam uma estrutura multicamada desafiadora que pode resultar em penetração inadequada/inconsistente entre as dobras. Os autores recomendam cuidado ao extrapolar os resultados além dos modelos por eles testados, particularmente para modelos diferentes e com dobras.

Recomenda-se, apesar dos resultados positivos do reprocessamento, que os respiradores reprocessados sejam reutilizados apenas pelo mesmo indivíduo. Para tal é possível marcá-los com marcador permanente, já que a marcação mostrou-se manter claramente legível após os processos realizados.

Deve-se enfatizar que todos esses testes foram realizados por agências regulatórias que regem os protocolos de reutilização de respiradores, tornando este protocolo passível de adoção prática e imediata por hospitais e outras instalações de saúde no contexto das diretrizes atuais, observando os requisitos regulatórios locais

 Fonte: A. Aljabo, et al. Gravity steam reprocessing in healthcare facilities for the reuse of N95 respirators. Journal of Hospital Infection, 106 (2020), 698-708

Sinopse por: Maria Julia Ricci

Instagram: @mariajuliaricci_

E-mail: [email protected]



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