Didier Pittet escreve em editorial da Revista Infection Control and Hospital Epidemiology sobre as dificuldades e novas estratégias possíveis para se aprimorar a aderência dos profissionais de saúde à higiene das mãos, mudando comportamentos e mantendo esta alteração.

Inicialmente ele cita vários fatores que afetam a não aderência: uso de luvas, irritação da pele provocada pelos produtos de higiene das mãos, cuidados críticos, carga de trabalho, dificuldades para o acesso às pias ou às alternativas para higiene das mãos, falta de conhecimento, desacordo ou um certo cepticismo com as recomendações, impressão que a higiene das mãos afeta a relação dos profissionais com os pacientes, falta de informação científica que comprove definitivamente o impacto da higiene das mãos nos índices de infecção, impressão que é baixo o risco de transmissão cruzada de infecção, utilização de luvas dispensa a necessidade da lavagem das mãos, cuidados aos pacientes são prioritários em relação á lavagem das mãos, falta de exemplos a seguir entre seus líderes, higiene das mãos não é prioridade institucional.

Para tentar corrigir este problema, várias estratégias são habitualmente empregadas: educação dos profissionais de saúde; monitoramento da sua aderência com feedback da performance; colocação de cartazes nos locais de trabalho; facilitar o acesso às pias ou às soluções alcoólicas; evitar superpopulação de pacientes, estafe insuficiente ou carga excessiva de trabalho. Estas estratégias, às vezes empregadas em conjunto, procuram estimular a auto eficácia, segurança institucional e liderança. Mas, segundo o autor, o grande desafio é convencer o profissional de saúde, pois mesmo quando essas campanhas conseguem melhorar a aderência, os resultados não se sustentam ao longo do tempo. A mudança de atitudes envolve uma combinação de fatores comportamentais, educativos, motivacionais e do sistema de trabalho.

Os novos guias propõem que antissepsia sem água deve substituir a lavagem das mãos, como medida padrão para a higiene. Dentre as antissépticos o álcool consegue a maior redução na contagem microbiana das mãos, é muito mais acessível que as pias com os sabões antissépticos, requer menos tempo para a ação microbicida, causa menos irritação e ressecamento da pele, mas para tanto a solução empregada tem que ter boas propriedades cosméticas. Entretanto, convencer os profissionais de saúde continua a ser o maior desafio enfrentado. A observação rotineira da aderência à higiene das mãos, com feedback para a equipe, vem sendo intensamente implantada e estudada e os resultados não são sustentados ao longo do tempo.

Na Universidade de Genova foi elaborada um estratégia multimodal que envolveu disponibilização de soluções alcoólicas em todos os leitos, campanhas educativas, monitoramento da aderência à higiene das mãos, feedback para a instituição, unidades e cada profissional e atuação de lideranças nas equipes. Com todas estas medidas foi observada uma correlação entre o aumento na higiene das mãos e a redução da transmissão de MRSA. Porém, outros estudos observaram uma correlação negativa entre a relação paciente por enfermeiro e a aderência à higiene das mãos. Também foi observado que a presença de um observador vivo está associada ao aumento na higiene das mãos, independente de ser dado ou não feedback para a equipe. Assim, várias fontes de vieses podem estar presentes nestes estudos.

Pittet conclui seu editorial afirmando: ” poderia a frase Orwelliana – o Grande irmão está observando você – ser considerada o elemento vital da abordagem multimodal para se obter uma maior adesão sustentada para o hábito da higiene das mãos? Esta questão permanece sem resposta e será estudada futuramente”.

 

Fonte: Pittet D. Promotion of hand hygiene: magic, hype, or scientific challenge? Infect Control Hosp Epidemiol: 23 (3), 118-119, 2002.

Resumido por: Antonio Tadeu Fernandes em 2003


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