Somos a primeira geração com meios para se proteger das doenças infecciosas comuns. Hoje, possuímos o conhecimento para prevenir ou curar doenças como malária, tuberculose, AIDS, doenças diarreicas, pneumonia e sarampo. A varíola foi erradicada e observamos uma redução de mortes devido a sarampo possivelmente relacionada a campanhas de imunização. E embora ainda não exista nenhuma vacina efetiva para prevenir infecções como malária, AIDS, diarréia infecciosa e pneumonia, medidas de prevenção e controle estão dentro de nosso alcance. Nas duas últimas décadas, a comunidade científica desenvolveu estratégias prósperas e produtos para se opor à estas doenças infecciosas, aplicáveis tanto em países ricos como nos mais pobres.

Em todos os países, estas doenças podem ser prevenidas ou tratadas com ações e medicamentos que normalmente custam alguns dólares, frequentemente meros centavos. Por causa de avanços no uso de antimaláricos e mosquiteiros protetores, mortes por malária foram reduzidas no Vietnam. O México alcançou uma redução de cinco vezes nas mortes por diarreia, devido ao uso de reidratação oral. O maior emprego de preservativos e a educação em saúde permitiram a Tailândia e Uganda reduzirem a expansão da AIDS. O uso efetivo de antibióticos em alguns locais da Índia resultou em uma diminuição de sete vezes na mortalidade por tuberculose.

As gerações anteriores pediram por drogas, intervenções e estratégias de controle salvadoras de vidas. Mas agora que tudo isto está disponível, o mundo apenas lentamente difunde seu emprego. Em países onde essas doenças são endêmicas, esforços globais permanecem apenas modestos. Só 3% das crianças de África têm mosquiteiros. Medicamentos efetivos contra a tuberculose alcançam só 25% dos enfermos e só a metade dos países em desenvolvimento adotou o pacote de medidas Integrated Management of Childhood Illnesses (IMCI).

A subutilização e o abuso das recentes inovações em saúde são particularmente catastróficos para pessoas vivendo e trabalhando nos países em desenvolvimento. Duas de cada três mortes entre pessoas jovens nos países mais pobres da África e Ásia continuam sendo o resultado de somente um restrito número de enfermidades. Cada ano no mundo, mais de 11 milhões de pessoas morrem destas doenças evitáveis ou curáveis. A maioria das mortes está entre pais jovens e crianças.

A ameaça da resistência antimicrobiana está crescendo

Nós já estamos começando a pagar por nossa negligência, um preço em cima da tragédia e sofrimento proporcionado pelas doenças infecciosas, atingindo anualmente milhões de pessoas. Nosso fracasso é relacionado à disponibilidade e uso correto de recursos e medicamentos recentemente descobertos. Isto é evidente nos países ricos que centram esforços exclusivamente em combater doenças dentro de suas fronteiras, enquanto falham no auxílio às demais nações. Entretanto, proliferando em outros lugares, muitos microrganismos rapidamente chegam aos países desenvolvidos pelos meios modernos de transporte. O trabalho dos profissionais de saúde contribui com isto ao focar sua atenção no emprego destas novas drogas, sem enfatizar o diagnóstico correto, a prescrição adequada e meios para atingir a garantia de aderência do paciente ao tratamento.

A resistência microbiana é um fenômeno biológico natural. Mas se torna um problema significante de saúde pública onde é ampliado várias vezes devido ao abuso e negligência. Este problema é o sinal mais revelador que nós não temos levado a sério a ameaça das doenças infecciosas. Sugere, pelo contrário que nós maltratamos nosso arsenal precioso de antimicrobianos, através do seu abuso nas nações desenvolvidas e, paradoxalmente, tanto do seu abuso quanto sua subutilização nos países em desenvolvimento. Em todos os casos, o uso inadequado de antibióticos poderosos resultará depois em drogas menos efetivas.

Este relatório descreve a ameaça crescente de resistência microbiana. Documenta como medicamentos previamente salvadores de vidas estão cada vez mais perdendo sua eficácia, agindo como uma simples pílula de açúcar. A resistência microbiana para o tratamento poderá devolver o mundo para a era pré antibiótica.

A porta está se fechando

Nós podemos estar perdendo para sempre nossa oportunidade de controlar e eventualmente eliminar as doenças infecciosas mais perigosas. Realmente, se nós não fizermos um progresso rápido durante esta década, pode ficar muito mais difícil e caro, se não impossível, fazer isso depois. Precisamos fazer o uso adequado das ferramentas que temos agora. A erradicação de varíola em 1980, por exemplo, aconteceu em um momento certo, pois se demorasse mais um pouco o aparecimento imprevisto do HIV teria minado a vacinação segura contra varíola em populações gravemente afetadas pela AIDS.

Embora atualmente muitos esforços de pesquisa sejam excitantes, não há nenhuma garantia que eles resultarão em drogas novas ou vacinas no futuro próximo. Desde 1970, não foi descoberta nenhuma nova classe de antibióticos para combater as doenças infecciosas. Em média, pesquisa e desenvolvimento de drogas antimicrobianas leva 10 a 20 anos. Atualmente, não há droga ou vacina nova prontas para emergir das pesquisas. Além disso, contra os principais microrganismos, a pesquisa e o desenvolvimento continuam sendo decepcionantes. Uma porcentagem muito pequena da pesquisa global em saúde é dedicada atualmente ao encontro de novas drogas ou vacinas para parar a AIDS, infecções respiratórias agudas (ARI), doenças diarreicas, malária e TB. Os relatórios da indústria farmacêutica relatam que elas gastam no mínimo US$500 milhões só para comercializar uma nova droga. Em 1999, os recursos empregados para pesquisas e desenvolvimento em ARI, doenças diarreicas, malária e TB estava abaixo daquela quantia.

Um esforço grandioso é necessário

Embora a prevenção por vacinação continue sendo a última arma contra infecção e resistência às drogas, nenhuma vacina está disponível para prevenir cinco das seis principais causas de morte por infecção. Ainda é uma tragédia que 11 milhões de pessoas morram a cada ano esperando o advento de novas drogas e vacinas milagrosas. Porém, podem ser realizadas a prevenção e estratégias de tratamento que usam ferramentas disponíveis para todos, para ajudar controlar doenças que consomem principalmente a população carente.

Nós não podemos mais assistir passivamente o aumento da resistência microbiana e a diminuição de efetividade das drogas. Como este relatório mostra, a resistência pode ser contida. Quando uma infecção é tratada de uma maneira ampla e oportuna, a resistência raramente se torna um problema de saúde pública. A estratégia mais efetiva contra resistência microbiana é fazer certo da primeira vez, destruir inequivocamente os micróbios, derrotando a resistência antes que ela aflore.

Hoje, apesar de avanços em ciência e tecnologia, a doença infecciosa ainda é uma ameaça para a vida humana mais mortal que a guerra. Este ano, na alvorada de um novo milênio, a comunidade internacional está começando a mostrar seu intento para combater estes invasores microbianos através de esforços volumosos contra as doenças da pobreza, que devem ser derrotadas agora, antes de elas fiquem resistentes. Quando elas são combatidas sabiamente e amplamente, a resistência às drogas pode ser controlada e vidas são salvas.


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