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A exposição à medicamentos antimicrobianos propicia a seleção de resistência, resultando em um potencial aumento da morbidade, mortalidade e custos. Este estudo teve como principal objetivo descrever os padrões de prescrição de antimicrobianos para as IRAs mais frequentes em hospitais da França, relacionando os medicamentos utilizados e os dados microbiológicos dos microrganismos potencialmente resistentes.

Qual a justificativa do estudo?

A exposição à medicamentos antimicrobianos propicia a seleção de resistência, resultando em um potencial aumento da morbidade, mortalidade e custos. Hospitais tratam de várias doenças crônicas e/ou pacientes imunocomprometidos e realizam muitos procedimentos invasivos, sendo, portanto, ambientes de maior risco para as infecções associadas a saúde (HAIs), para disseminação de microrganismos resistentes e consequentes resultados graves.

Sendo o uso de agentes de amplo espectro e de último recurso ligados ao risco de selecionar microrganismos resistentes que são responsáveis por um crescente número de infecções potencialmente intratáveis, melhorar o uso de antimicrobianos é uma das intervenções que pode reduzir o surgimento e disseminação de cepas resistentes. De tal modo, o monitoramento do uso de antimicrobianos em pacientes hospitalizados é fundamental devido ao risco de seleção por resistência.

Qual o objetivo do estudo?

Este estudo teve como principal objetivo descrever os padrões de prescrição de antimicrobianos para as HAIs mais frequentes em hospitais da França, relacionando os medicamentos utilizados e os dados microbiológicos dos microrganismos potencialmente resistentes.

Qual metodologia foi empregada?

Foram utilizados dados transversais obtido de uma pesquisa de prevalência pontual (PPS) realizada a nível nacional na França em 2017 sobre o uso de agentes antimicrobianos, que forneceu uma amostra nacionalmente representativa de pacientes adultos internados em 401 unidades de saúde. Foram consideradas todas as prescrições de pacientes adultos com escopo de tratamento curativo – i.e. profilaxia médica ou cirúrgica não foram considerados.

Os autores buscaram correspondência inequívoca entre os regimes antibióticos prescritos e a localização das HAIs para determinar quais compostos foram direcionados a cada patógeno, levando em consideração seu perfil de resistência.

Quais os principais resultados?

O estudo incluiu 75.698 pacientes, dos quais 4,3% receberam terapia para uma HAI. Os quadros clínicos majoritários foram infecções do trato respiratório inferior (LRTI) – representando 27,7% dos casos – e infecções do trato urinário (UTI) – representando 18,4% dos casos. Um ou mais patógenos foram isolados para a maioria das UTIs (90,7%) e para aproximadamente metade das LTRIs (48,2%).

  1. coli foi a causa mais comum de UTI (52%). Pacientes de UTIs receberam predominantemente monoterapia (71,7%), seguido de 9,1% que receberam dois agentes terapêuticos e 19,2% que não foram tratados. As penicilinas (amoxicilina com ou sem acido clavulânico), fluoroquinolonas e cefalosporinas de terceira geração foram as terapias mais prescritas. Menos de 2% dos casos foram tratados com carbapenemicos.

Para as LTRIs uma variedade de espécies foi isolada, sendo as principais S. aureus, P. aeruginosa e E. coli (prevalência de cerca e 17% para cada espécie). A maioria dos pacientes (68,2%) recebeu um único agente antibiótico, seguido de 24,4 % que receberam dois e 7,3% que não foram tratados. Mais da metade dos tratamentos foram realizados com monoterapia de penicilina, sendo a mais frequente amoxicilina-ácido clavulânico, seguido de piperacilina-tazobactam e amoxicilina. A segunda classe mais prescrita foi de cefalosporinas de terceira geração, em monoterapia ou associação com metronidazol. Carbapenemicos foram usados em 10,4% dos casos.

Amoxicilina associada a acido clavulânico foi prescrita 10 vezes mais para LRTI causadas por S. aureus suscetível do que para cepas resistentes a meticilina; neste caso linezolida foi prescrita 100 vezes mais. Já para UTIs, amoxicilina, cetriaxona e fluoroquinolonas foram os preferidos para E. coli suscetível; enquanto fosfomicina, pivmecilinam, trutoprim-sulfametoxazol e ertapenem foram os majoritariamente usados para E. coli produtora de ESBL.

Quais as conclusões e recomendações finais?

Este estudo delineia de forma eficaz a utilização de antimicrobianos para as HAI mais frequentes na população de estudo. Os autores foram capazes de identificar os padrões de tratamento tanto para as LTRI quanto para as UTIs e concluem que as decisões terapêuticas foram coerentemente relacionadas aos organismos isolados.

Mesmo as terapias sendo fortemente relacionadas ao perfil de resistência, os pesquisadores ressaltam preocupação com o número relativamente alto de HAIs causadas por MRSA (S. aureus resistente a meticilina) recebendo amoxicilina/clavulanato. Essa ressalva deriva do fato de que, sendo este um medicamento com resistência cruzada a meticilina, a prescrição pode ser resultado de uma lacuna de conhecimento dos prescritores.  Outro fator de atenção ressaltado é a quantidade de prescrições em casos de UTI de medicamentos para cistite, que são tradicionalmente prescritos em excesso principalmente para casos de colonização do trato urinário. Por fim, os autores chamam atenção para a ampla prática de prescrição de antibióticos particularmente em risco de gerar resistência, incluindo amoxicilina/ácido clavulânico, cefalosporinas de terceira geração e fluoroquinolonas.

Quais as limitações do estudo?

Os autores citam duas principais limitações. A primeira é que o uso de antibiótico pode ser relacionado a uma infecção especifica apenas em um número limitado de casos. A segunda é que, embora a dimensão da amostra da pesquisa inicial pudesse garantir uma boa precisão tanto da prevalência de HAIs quanto das terapias adotadas a nível nacional e regional, o número de infecções em que bactérias com perfil de resistência foram isoladas foi limitado.

Que críticas e observações?

Estudo bem elaborado e com notável análise dos dados disponíveis. Os autores utilizaram dados já existentes para extrapolar novas informações e buscam compreender os padrões de prescrição e suas motivações; um ótimo ponto de partida para guiar ações de stewardship futuras.

Fonte: Sevin T, Daniau C, Alfandari S, Piednoir E, Dumartin C, Blanchard H, Simon L, Berger-Carbonne A, Le Vu S. Patterns of antibiotic use in hospital-acquired infections. J Hosp Infect. 2021 Aug;114:104-110

Sinopse por: Maria Julia Ricci

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