A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a segunda edição do manual Segurança do Paciente em Serviços de Saúde: Higiene das Mãos, documento que integra a Série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde. A publicação substitui a versão anterior, disponibilizada em 2009, e representa a atualização mais abrangente das recomendações nacionais sobre o tema em mais de quinze anos.
Por que este manual importa agora
A higiene das mãos é reconhecida como uma das medidas mais custo-efetivas na prevenção das infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS). Apesar disso, estudos indicados pela própria Anvisa apontam que a conformidade dos profissionais de saúde a essa prática ainda é considerada baixa na maioria dos serviços. Mudar essa realidade exige não apenas atualização técnica, mas também transformação cultural — e é exatamente esse o foco desta nova edição.
A publicação chega em um contexto regulatório e epidemiológico que justifica a revisão: o Plano de Ação Global para Segurança do Paciente 2021–2030 da OMS elencou a higiene das mãos como uma das ações prioritárias para o controle de infecções e da resistência antimicrobiana (RAM). No Brasil, instrumentos como a RDC nº 42/2010 (que torna obrigatória a disponibilização de preparação alcoólica nos serviços de saúde) e a RDC nº 36/2013 (que institui ações de segurança do paciente) já consolidaram esse tema no arcabouço normativo nacional. O novo manual se alinha a esse marco regulatório e incorpora a produção científica acumulada desde 2009.
O que traz a nova edição
O documento é estruturado em dez capítulos que cobrem desde as perspectivas históricas da higiene das mãos — passando pelos estudos pioneiros de Semmelweis, Florence Nightingale e Joseph Lister — até os aspectos mais operacionais da prática nos serviços contemporâneos. Os destaques incluem:
Aspectos microbiológicos e epidemiológicos atualizados. O manual dedica capítulos inteiros à microbiota da pele, à evidência de transmissão de patógenos por meio das mãos e ao controle de microrganismos multirresistentes (MR) — entre eles o Acinetobacter baumannii resistente a carbapenêmicos, classificado pela OMS como prioridade crítica. A conexão entre higiene das mãos e contenção da RAM é tratada de forma explícita e aprofundada.
Produtos e equipamentos com critérios revisados. Dois capítulos são dedicados aos produtos utilizados na higiene das mãos — incluindo preparações alcoólicas nas formas gel, líquida, espuma e spray — e aos equipamentos e insumos necessários. O manual aborda formulações, eficácia antimicrobiana, compatibilidade com a pele e critérios de seleção para diferentes contextos assistenciais.
A higiene das mãos nos serviços de saúde: do hospital à atenção primária. O Capítulo 7 cobre a prática nos diferentes cenários assistenciais, reafirmando os cinco momentos para a higiene das mãos (modelo da OMS) como referência operacional. O capítulo contempla também os efeitos adversos dos produtos, tema tratado separadamente no Capítulo 8, com orientações sobre dermatite de contato e tolerância cutânea.
Estratégia Multimodal de Melhoria da Higiene das Mãos. O Capítulo 9 sistematiza os métodos e estratégias para promover adesão. Destaca-se a Estratégia Multimodal da OMS, composta por cinco componentes: mudança de sistema (disponibilização do álcool no ponto de assistência), capacitação profissional sobre os cinco momentos, monitoramento com retorno de indicadores às equipes, afixação de lembretes e cartazes no ambiente de trabalho, e construção de uma cultura institucional de segurança com apoio expresso de lideranças. Um projeto piloto conduzido no Brasil — coordenado pela Anvisa em parceria com a OPAS/OMS — evidenciou aumento da adesão de 52,1% para 71,6% em todas as unidades dos hospitais participantes.
Impacto e evidências. O Capítulo 10 fecha o documento com uma síntese do impacto da melhoria da adesão nas taxas de IRAS, sustentando com evidências a relação entre a prática sistemática da higiene das mãos e a redução de morbimortalidade, custos assistenciais e resistência antimicrobiana.
Participação do paciente e da família. A publicação incorpora explicitamente a perspectiva do paciente/cliente e seus familiares como agentes ativos na promoção da higiene das mãos — abordagem considerada inovadora no contexto da assistência à saúde e alinhada aos princípios do cuidado centrado no paciente.
Para quem é este documento
A Anvisa destina a publicação a profissionais e gestores de saúde em todos os níveis de atenção, diretores, educadores, profissionais do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS) e também ao público geral — pacientes, familiares e acompanhantes. Essa amplitude de destinatários reflete a compreensão de que a promoção da higiene das mãos não é responsabilidade exclusiva do profissional à beira do leito, mas um compromisso institucional e coletivo.
Acesse o manual
O documento está disponível gratuitamente no portal da Anvisa:
🔗 gov.br/anvisa — Segurança do Paciente em Serviços de Saúde: Higiene das Mãos (2026)
O que o Instituto CCIH+ recomenda
A publicação de um documento regulatório desta natureza é uma oportunidade concreta para revisão de protocolos institucionais, atualização de treinamentos e fortalecimento da cultura de segurança nos serviços. Recomendamos que enfermeiros de controle de infecção, gestores de qualidade e lideranças assistenciais leiam o manual integralmente — com atenção especial aos capítulos 7, 9 e 10 — e avaliem quais componentes da Estratégia Multimodal ainda não estão implementados em sua instituição.
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