Para reduzir custos, um número crescente de hospitais americanos está implantando a lavagem domiciliar dos uniformes privativos do centro cirúrgico. O Centres for Diseases Control and Prevention (CDC) no seu guia para prevenção de infecção do sítio cirúrgico afirmou: “não existem estudos bem controlados avaliando a lavagem do uniforme privativo como fator de risco para infecção cirúrgica”, concluindo: “não existe recomendação sobre como e onde deve ser lavada a roupa privativa do centro cirúrgico”.

Association of periOperative Registred Nurses (AORN) tem uma posição contrária afirmando: “após o uso diário, o uniforme privativo do centro cirúrgico reutilizável deve ser lavado em uma lavanderia aprovada e monitorizada… a lavagem domiciliar deste uniforme não é recomendada, porque ele fica contaminado com microrganismos durante o seu uso, podendo resultar em sua disseminação para o meio ambiente… o uniforme deve ser trocado diariamente ou se estiver visivelmente úmido, sujo com sangue, fluídos corpóreos, suor ou alimentos”. Por outro lado, os hospitais argumentam que reduziram problemas decorrentes de extravio, perdas e a necessidade de equipamentos, transporte, lavagem, distribuição e até de pessoal, obtendo economia, sem um maior risco infeccioso.

O Dr. Nathan L. Belkin realizou uma revisão bibliográfica sobre o tema, observando que os microrganismos podem sobreviver ao processo domiciliar de lavagem, podendo ser transferidos através das roupas úmidas. Até o momento não existe evidência da contaminação do domicílio a partir da roupa hospitalar privativa. Em 1992, o Congresso Nacional dos Estados Unidos pediu ao National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH) um estudo para avaliar o risco de contaminação dos trabalhadores a partir de produtos químicos e outras substâncias transportadas até sua casa. Este problema foi observado em 28 países e 36 estados dos EUA. Embora focados principalmente em contaminantes químicos, eles concluíram: “muitos agentes infecciosos podem ser transmitidos para os trabalhadores, seu domicílio, suas roupas e outros materiais transportados de seu ambiente de trabalho, incluindo os que têm contato direto com sua pele, contaminam sua roupa, ou os que são transmitidos por partículas em suspensão, que são inaladas”.

A Occupational Safety and Health Administration´s (OSHA) não define o uniforme privativo como um equipamento de proteção individual. Os profissionais de saúde habitualmente utilizam suas roupas de trabalho em suas instituições, fora das áreas privativas e até mesmo na sua casa. Até o momento nenhuma contaminação foi relacionada comprovadamente a esta prática. Porém em 1976, Hambaraeus et al., demonstraram que o nível de contaminação dos uniformes utilizados fora do setor restrito era maior que o encontrado nos usados somente no local apropriado. Estes dados foram confirmados por estudos posteriores. Assim, parece que a restrição ao uso fora da unidade faz parte da qualidade do atendimento e talvez reduza a possibilidade de infecção. O avental cirúrgico é utilizado por toda equipe cirúrgica, tendo como pressupostos o conforto da equipe e evitar a contaminação do paciente e do ambiente. Geralmente ele é deixado na área restrita ao final do procedimento operatório.

Parte da divergência entre o CDC e a AORN pode ser creditada ao enfoque distinto, o CDC preocupado com o paciente e a AORN com a comunidade e o profissional de saúde. Também existe certa divergência em relação aos principais conceitos empregados, por isso o autor propôs sua uniformização.

Contaminação: presença de microrganismos em um vetor inanimado. O termo é geralmente empregado a objeto, substância ou tecido que contém microrganismos, especialmente os patogênicos. Por exemplo, a pele de uma pessoa ou um artigo médico hospitalar podem ficar contaminados pelo contato com os patógenos, mas não infectados. Segundo a OSHA é a presença ou a probabilidade prevista de sangue ou outro material potencialmente infectante na superfície de um artigo.

Descontaminação: processo de remoção de microrganismos patogênicos, tornando o objeto seguro para manipulação. Segundo a OSHA “o uso de agentes físicos ou químicos remove, inativa ou destrói patógenos veiculados pelo sangue presentes na superfície de um artigo, tornando-o incapaz de transmitir partículas infectantes pela sua superfície, ficando seguro sua manipulação, uso ou descarte”.

Desinfecção: processo que mata ou destrói quase todos os microrganismos patogênicos, com exceção dos esporos bacterianos. Desinfetantes são empregados em objetos inanimados. Anti-sépticos são empregados apenas em tecidos vivos.

Limpeza: remoção física da sujidade ou matéria orgânica de objetos, empregando água, ação mecânica, com ou sem detergente. A limpeza mais remove do que mata os microrganismos.

Limpeza higiênica: não existe definição precisa. Implica que o item está livre de microrganismos em quantidade capaz de produzir doenças.

Sanitização: um processo que resulta na redução da população microbiana em um objeto inanimado a um nível relativamente seguro.

Sujidade: sujeira e manchas especialmente na superfície.

Roupa contaminada: definida pela OSHA como roupa que esteja suja com sangue ou outro material potencialmente infectante ou tenha um objeto perfuro-cortante.

A lavagem é definida com um método que restaura roupas sujas, tornando possível o seu uso. Inclue a lavagem, rinsagem, alvejamento e remoção da água. Quatro fatores são importantes para a descontaminação: ação dos produtos químicos; temperatura da água; diluição; e a duração do ciclo de lavagem. Os produtos empregados devem ter seus registro no Ministério da Saúde em ordem e os com ação germicida devem atuar sobre microrganismos representantes das bactérias Gram positivas (Staphylococcus aureus) e Gram negativas (Klebsiella pneumoniae).

O autor conclui que a qualidade do atendimento prestado pelos profissionais de saúde é bastante influenciada pela imagem que ele projeta no paciente. Nesse sentido sua aparência, particularmente sua roupa tem um papel importante. Dando sua opinião na polêmica CDC X AORN ele conclui que as roupas sujas podem ser lavadas na casa do profissional, mas as contaminadas não sob nenhuma hipótese.

 

Fonte: Belkin NL. Home laundering of soiled surgical scrubs: surgical site infections and the home environment. Am J Infect Control 2001; 29: 58-64.

Resumido por: Antonio Tadeu Fernandes em 2002.

 


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