Inscreva-se já.

Os autores explicam como desenvolveram um programa de monitoramento do uso de vancomicina, como foi implantado, o grau de aderência da equipe e seus principais resultados.

O que podemos aprimorar na utilização de vancomicina?

As atuais diretrizes de diversas associações médicas sugerem que um modo eficaz de reduzir significativamente a exposição à vancomicina e mitigar seus riscos intrínsecos – como diminuição da eficácia e a nefrotoxicidade – é usar a razão da área sob a curva de concentração-tempo e da concentração inibitória mínima (AUC/MIC) para orientar a dosagem da vancomicina. Tal estratégia tem sido adotada e apresentado resultados positivos em diversos países; contudo, países asiáticos como a Tailândia apresentam uma defasagem na implementação eficaz dessa estratégia.

Qual foi a proposta dos autores em relação ao uso de vancomicina?

O estudo teve como objetivo avaliar a viabilidade de implementação de um protocolo de dosagem de vancomicina baseado na AUC com suporte de um time multidisciplinar (MT) para melhorar a adesão hospitalar a essa prática em um centro de atendimento terciário na Tailândia.

Qual foi a intervenção proposta para esse monitoramento?

Foi realizado um estudo quase experimental com pacientes hospitalizados que receberam vancomicina intravenosa em um hospital universitário de atendimento terciário de 600 leitos na Tailândia. A instituição de estudo tinha um programa padrão de stewardship de antimicrobianos desde 2004 e o protocolo de administração de vancomicina foi colocado a disposição em 2011; contudo, até o momento do estudo, não havia auditoria da utilização da dosagem recomendada, tempo adequado de coletas de concentração de vancomicina e ajuste de dosagem com base na concentração.

Considerando esse cenário, os autores montaram um time multidisciplinar para monitorar e reforçar a adesão a um protocolo de dosagem de vancomicina baseado na AUC e MIC. Para a avaliação da eficácia da estratégia o estudo teve dois períodos, um período pré-intervenção (de maio a agosto de 2020) e um período pós-intervenção (de outubro de 2020 a janeiro de 2021).

A intervenção consistiu em realizar, após a prescrição inicial de uso de vancomicina, revisão da prescrição por um farmacêutico clínico e notificação do especialista em doenças infecciosas (ID) para realização do monitoramento da adesão ao protocolo. O monitoramento compreendia coletas sangue para avaliação da concentração de vancomicina nas 72 horas seguintes a prescrição, dosagem com base no peso e com o momento apropriado do pico. Além disso foi realizado, pelo farmacêutico clínico com o uso de um software Bayesiano, o cálculo de AUC/MIC com base nas concentrações e dados de exposição obtidos; a partir deste cálculo, foi papel do especialista em ID contatar o médico responsável para ajuste/confirmação da dosagem.

Quais foram os principais resultados?

Foram incluídos 120 pacientes em cada período de estudo, totalizando uma coorte de 240 indivíduos. A coorte teve um índice de comorbidade de Charlson de 3,9 e as comorbidades mais comuns entre os pacientes foram hipertensão (45%) e diabetes mellitus (26,3%).

A vancomicina foi prescrita como terapia empírica em 44,2% dos pacientes e como terapia direcionada a patógenos gram positivos em 55,8%. As infecções mais comuns que justificaram o uso da vancomicina foram bacteremia e infecções de pele e tecidos moles. Os patógenos mais comuns foram estafilococos coagulase-negativo, Enterococcus spp e Corynebacterium spp.

No período pós-intervenção, a taxa de adesão ao protocolo de dosagem de vancomicina foi significativamente maior em comparação ao período pré-intervenção (90,8% vs 55%). A falta de conhecimento sobre o monitoramento da dose terapêutica e a má comunicação entre os profissionais de saúde foram identificados como barreiras de adesão ao protocolo. Foi também notada a redução da taxa de lesão renal aguda (redução de 5.8%) e da taxa de letalidade em 30 dias (de 20% para 8.3%).

O que concluíram os autores?

Os autores concluem que o estudo confirmou que o protocolo de dosagem baseado em AUC com suporte de MT pode levar à redução da letalidade em 30 dias e uma tendência à redução da nefrotoxicidade e de outros efeitos adversos relacionados à vancomicina. Além disso, ressaltam que estratégia pode ser facilmente aplicada sem barreiras substanciais.

Quais foram as limitações do estudo, segundo seus autores?

Os autores afirmam que o estudo tem diversas limitações, sendo as principais enumeradas a seguir. Primeiro, o layout quase experimental pode estar sujeito a mudanças temporais relacionadas a coorte. Segundo, esse foi um estudo realizado em um único centro e, portanto, tem limite de generalização dos achados. Além disso, não foram coletados dados sobre os impactos do protocolo nos resultados de tratamento específicos para cada patógeno gram positivo separadamente.

Críticas e comentários sobre o estudo

Este estudo é uma boa demonstração da importância não apenas da elaboração de bons protocolos, mas, principalmente, da implementação eficaz deles. Melhorias nos cuidados a saúde são diretamente relacionadas a mortalidade e a qualidade de vida dos pacientes e devem ser levados muito a sério por todos os envolvidos. Estudos como esse evidenciam a importância do envolvimento ativo dos profissionais de saúde para uma implementação de sucesso e consequente melhoria de resultados.

Fonte: Katawethiwong P, Apisarnthanarak A, Jantarathaneewat K, Weber DJ, Warren DK, Suwantarat N. Effectiveness of a vancomycin dosing protocol guided by area under the concentration-time curve to minimal inhibitory concentration (AUC/MIC) with multidisciplinary team support to improve hospital-wide adherence to a vancomycin dosing protocol: A pilot study. Infect Control Hosp Epidemiol. 2022 Aug;43(8):1043-1048

Link: https://doi.org/10.1017/ice.2021.296

Links relacionados:

Conversion from Vancomycin Trough Concentration-Guided Dosing to Area Under the Curve-Guided Dosing Using Two Sample Measurements in Adults: Implementation at an Academic Medical Center  https://doi.org/10.1002/phar.2234

Comparison of Vancomycin Area-Under-the-Curve Dosing Versus Trough Target-Based Dosing in Obese and Nonobese Patients With Methicillin-Resistant Staphylococcus aureus Bacteremia  https://doi.org/10.1177/1060028019897100

Vancomycin Trough Concentration as a Predictor of Clinical Outcomes in Patients with Staphylococcus aureus Bacteremia: A Meta-analysis of Observational Studies  https://doi.org/10.1002/phar.1638

Vancomycin area under the curve versus trough only guided dosing and the risk of acute kidney injury: Systematic review and meta-analysis  https://doi.org/10.1002/phar.2722

Enterococcus resistência à vancomicina: incidência e fatores predisponentes: https://www.ccih.med.br/enterococcus-resistencia-a-vancomicina-incidencia-e-fatores-predisponentes/

Implementação da conversão de dosagem de vancomicina guiada pela concentração para dosagem por AUC em um centro médico acadêmico: https://accpjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/phar.2234

Avaliação da dosagem inicial de vancomicina por método tradicional versus programa de dosagem eletrônica por UAC/MIC: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7508472/

Sinopse por: Maria Julia Ricci

Instagram: https://www.instagram.com/sonojuju/

E-mail: [email protected]

 

Palavras chave / TAGs: vancomicina, área sob a curva, UAC, MIC, concentração inibitória mínima, stewardship de antimicrobianos



Ficou interessado? Conheça nossos cursos MBA's e Express