Há muito se debate o se estetoscópios ficam contaminados e se podem transmitir infecção cruzada. Este estudo procura revisar esta questão.

Gabriela Esteves de Souza Laiber Chiabai

Quais praticas o CDC recomenda para os estetoscópios e com qual frequência?

R: As diretrizes de desinfecção do CDC seguem a classificação de Spaulding, categorizando o equipamento médico com base no nível de atendimento ao paciente e no tipo de contato para o qual é usado: equipamento “crítico” para contato com tecido estéril, vasculatura e assim por diante; “Semicrítico” para contato com membranas mucosas e pele não intacta; e “não-crítico” para contato com a pele intacta, excluindo as membranas mucosas. Porque os estetoscópios são geralmente usados sobre a pele intacta, com exceção de algumas interações de cuidados agudos (por exemplo, pacientes de trauma e unidade de terapia intensiva), eles são frequentemente classificados como equipamentos não-críticos, ocasionalmente sobrepostos na categoria semicrítica. A natureza das interações do paciente, com o uso do estetoscópio sobre a pele intacta ou a pele não intacta, determina se o estetoscópio usado nessa interação deve ser classificado como não crítico ou semicrítico, respectivamente.

Recomendações do CDC para desinfecção de estetoscópios não-críticos incluem a desinfecção entre “cada paciente ou uma vez ao dia ou uma vez por semana”, enquanto os estetoscópios semicríticos devem ser desinfetados “antes de usar em cada paciente.” Embora a desinfecção de alto nível especificada pela Spaulding ou a esterilização para equipamentos semicríticos não seja viável para estetoscópios pessoais, atenção especial deve ser dada a desinfecção do estetoscópio antes de usar sobre ou em torno da pele não intacta.

Estetoscópios podem ficar contaminados durante sua utilização? Quais os principais microrganismos encontrados?

R: Foi demonstrado que tanto os estetoscópios quanto as mãos compartilham níveis de contaminação similares, mesmo após a realização de um único exame físico do paciente. Aproximadamente 85% dos estetoscópios abrigam bactérias. Embora a maioria seja considerada não patogênica (por exemplo, estafilococo coagulase negativo), espécies como Pseudomonas aeruginosa, enterococos resistentes à vancomicina, Clostridium difficile, Vírus sincicial respiratório e Staphylococcus aureus resistentes à meticilina também foram isolados. Alguns estudos relataram um risco insignificante para estetoscópios como vetores de infecção; no entanto, outros encontraram risco significativo de HAI (infecções associadas aos cuidados de saúde).

Como foi a aderência a esta prática pela categoria?

R:  Segundo o estudo, os estetoscópios foram submetidos a desinfecção em menos de 20% das consultas com pacientes, quase nunca antes de uma consulta, e que as práticas de desinfecção semicrítica nunca atenderam às recomendações do CDC. Os dados são preocupantes. Embora a pele intacta ajude a proteger pacientes não-críticos de estetoscópios portadores de patógenos, pacientes semicríticos com pele não intacta devem confiar em seus médicos para minimizar este risco de transmissão de infecção.

Também descobrimos que a limpeza das mãos não atende aos padrões recomendados pelas diretrizes. Embora as mãos tenham sido limpas em menos da metade das oportunidades, as luvas eram comumente (82%) usadas, embora em 8,5% das consultas as mãos não foram limpas nem enluvadas, e apenas 6,8% dos profissionais executaram o procedimento correto. Em comparação, de acordo com a revisão de 33 estudos observacionais, a limpeza das mãos variou entre 5% e 81%, com uma média de 40% de conformidade.

Quais as principais conclusões dos autores?

R: As taxas de desinfecção estetoscópio compatíveis com CDC foram baixas, ocorrendo em apenas 4% (15/400) das oportunidades, e foram inexistentes em interações semicríticas.  A limpeza de mão compatível com CDC ocorreu em apenas 6,8% (27/400) dos momentos, mas as luvas foram usadas ​​82% (329/400) do tempo. Embora as luvas ajudem a proteger tanto os médicos quanto os pacientes das exposições de contato manual,

não existe tal equivalente para estetoscópios. Em interações de cuidado agudo nas quais as feridas abertas perto de locais de ausculta aumenta o risco de infecção dos pacientes, a desinfecção do estetoscópio não deve continuar a ser negligenciada.

Quais limitações do estudo foram relatadas pelos autores?

R: O estudo teve várias limitações. Em primeiro lugar, porque os níveis de contaminação das mãos e dos estetoscópios estão fortemente correlacionados, e porque os diafragmas dos estetoscópios entraram em contato com superfícies de pacientes não indexados (por exemplo, a mão do médico, roupas) várias vezes virtualmente em cada encontro, os observadores registraram o contato manual dos médicos diretamente antes e depois do exame do paciente, bem como o contato do estetoscópio com os pacientes, mas eles não registraram instâncias de contato do estetoscópio com o médico durante a consulta ou durante o intervalo entre as consultas de pacientes. Portanto, alguns estetoscópios podem ter sido contaminados logo depois de terem sido desinfetados.

Em segundo lugar, o cumprimento das diretrizes pode ter sido subestimado porque, ao contrário das diretrizes semicríticas que especificam a desinfecção antes de cada exame físico, adesão às diretrizes não-críticas, suavizadas para incluir apenas 1 desinfecção por semana, não pode ser observada de forma abrangente em uma única consulta com o paciente. Portanto, a porcentagem de provedores que estavam em conformidade com as diretrizes não-críticas do CDC, mas não foram observadas durante a realização de sua desinfecção semanal, pode ter sido superior a 5,2%.

Finalmente, a natureza cega do protocolo usado pode ter resultado na categorização de encontros com pacientes como não-críticos quando, na verdade, uma maior gravidade da doença estava presente. Por outro lado, nas interações semicríticas, os autores não conseguiram observar consistentemente se estetoscópios tiveram contato diretamente sobre a pele ferida. Médicos que desinfetaram seus estetoscópios após um encontro semicrítico frequentemente o fizeram em resposta ao contato com o sangue dos pacientes, mas foi observado que alguns estetoscópios ficaram sujos por contato direto com o paciente (sobre ou perto da ferida), alguns podem ter sido contaminados por contato com luvas sujas. Desta forma, uma maior conformidade do que fomos capazes de documentar pode ter ocorrido tanto em grupos de pacientes com contato semicríticos e não críticos, respectivamente. Em última análise, a realização da desinfecção do estetoscópio foi um evento tão raro que até mesmo um aumento de 300% nas taxas de desinfecção parece insuficiente para proteger os pacientes do risco de transmissão de doenças.

Sinopse por: Gabriela Esteves de Souza Laiber Chiabai

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Enfermeira do NCIH – Hospital Santa Rita de Cássia – Vitória – ES

Fonte: Boulée d et cols. Contemporary stethoscope cleaning practices: What we haven’t learned in 150 years. American Journal of Infection Control 47 (2019) 238−242.


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