O uso inapropriado de antibióticos e a resistência antimicrobiana tem se tornado cada vez mais problemas de saúde global de grande preocupação. Em resposta, programas para administração de antibióticos foram implementados ao redor do mundo; tais programas necessitam do esforço coordenado de médicos, farmacêuticos, enfermeiras e outros agentes, para conjuntamente tomar as melhores decisões para o paciente. Apesar das recomendações do CDC para envolver enfermeiras como membros dos programas de administração de antibióticos de hospitais, esforços limitados foram feitos para envolvê-las e definir claramente seus papéis no processo de decisão e administração de antibióticos.

Qual o objetivo do estudo?

As enfermeiras estão envolvidas na administração de cuidados, monitoramento clínico e melhoria da qualidade no atendimento ao paciente; são também mediadoras e elos de comunicação entre os pacientes, familiares e outros profissionais de saúde. Estando nesta função única e vital, as enfermeiras podem melhorar vários aspectos das práticas de administração de antibióticos, bem como melhorar a adesão aos antibióticos entre os pacientes.

O objetivo deste estudo qualitativo exploratório foi compreender os facilitadores e barreiras que impactam o envolvimento e empoderamento de enfermeiras na administração de antibióticos.

Qual metodologia foi empregada?

Foram realizadas discussões em grupos focais com enfermeiras voluntarias amostradas propositalmente de três grandes hospitais públicos de Cingapura (National University Hospital com 1200 leitos, Singapore General Hospital com 1800 leitos e Tan Tock Seng Hospital com 1600 leitos). Foram 5 grupos em cada hospital (totalizando 15 grupos focais), compostos de acordo com senioridade e área de trabalho, cada um com 6-8 enfermeiras (n=104).

As discussões ocorreram entre novembro de 2018 e março de 2019, foram guiadas por uma entrevista semiestruturada, gravadas em áudio e transcritas literalmente. Análise dos dados foi feita por meio de Análise Temática Aplicada e interpretados por meio do Modelo Social Ecológico.

Quais os principais resultados?

No nível intrapessoal, as enfermeiras se sentiram capacitadas para desempenhar suas funções em administração de antibióticos. Elas se viam como guardiãs para garantir que os antibióticos prescritos fossem administrados de forma adequada. No entanto, sentiram que não tinham conhecimento e experiência em uso de antibióticos e prevenção de resistência antimicrobiana.

No nível interpessoal, este déficit de conhecimento e experiência no uso de antibióticos impactou a forma como elas eram percebidas pelos pacientes e cuidadores, bem como suas interações com a equipe de cuidados primários ao expressar preocupações de segurança ambulatorial e sugestões de administração de antibióticos.

No nível organizacional, as enfermeiras confiaram nas diretrizes de administração de medicamentos para garantir a correta administração de antibióticos; utilizaram também como rede de segurança quando os médicos questionavam a prática clínica.

Ao nível da comunidade, as enfermeiras sentiram que havia uma falta de consciência e conhecimento sobre o uso de antibióticos entre a população em geral.

Quais as conclusões e recomendações finais?

Segundo os autores, as informações mostram-se como importantes para melhor aproveitar as contribuições das enfermeiras e para reconhecer formalmente e ampliar suas funções nos programas de administração de antibióticos.

Durante a discussão trazem algumas sugestões interessantes que podem impactar positivamente no controle da prescrição e utilização correta de antibióticos por meio do empoderamento de enfermeiras. Entre elas, destaco:

– Formalização de cargos/posições especificas para enfermeiras no âmbito dos programas de administração de antibióticos; como forma de aumentar a autonomia da profissional de enfermagem e, consequentemente, a confiança dos outros agentes envolvidos na capacidade delas em exercer determinada função.

– Criação de programas – coordenados por enfermeiras – de conscientização do uso correto de antibióticos para o público geral; como forma de enfatizar ao público a não intrínseca necessidade de tratamento com antibióticos no meio hospitalar e aumentar a confiança no conhecimento científico das profissionais.

– Disponibilização de guidelines, protocolos e plataformas de verificação de dados que sustentem a enfermagem baseada em evidência; como forma de facilitar o acesso a bases comuns para contestações com outros membros da equipe e dar segurança para tal.

– Incentivo a realização de cursos, programas de educação continuada, e utilização de plataformas on-line (e.g. Up-to-Date); como forma de manter o conhecimento atualizado e aumentar a confiança no próprio conhecimento científico.

– Valorização do profissional de enfermagem dentro da equipe hospitalar multiprofissional; como forma de melhor colaboração entre os diferentes agentes e assim melhorar o cuidado integral com o paciente.

Que críticas e observações finais?

O artigo traz um tópico muito relevante sob uma perspectiva ainda pouco explorada. A metodologia aplicada permitiu a realização de grupos focais produtivos e protegendo a identidade das profissionais. Os autores conseguem – por meio da utilização do modelo social ecológico de interpretação de dados– explorar a situação do protagonismo das enfermeiras em um cenário complexo com diversos agentes e ainda ressaltar meios para o empoderamento das profissionais de modo a trazer impactos positivos.  Durante o texto, destacam muito bem a importância da diversidade de uma equipe hospitalar e de comunicação eficiente entre os diversos agentes para decidir e executar planos de tratamento.

Ressalto a preferência consciente em utilizar pronomes femininos na tradução da palavra agênera “nurses”. Tal decisão foi embasada na prevalência significativa de profissionais mulheres no estudo (95/104) e no panorama global da profissão. Além disso, tal prevalência pode ser um fator contribuinte para a subvalorizarão desses profissionais – pela equipe ou pelo paciente/cuidador – levando em conta a trajetória histórica da profissão e da mulher na sociedade.

Fonte: Wong, L.H. et al. Empowerment of nurses in antibiotic stewardship: a social ecological qualitative analysis. Journal of Hospital Infection, Volume 106, Issue 3, 473 – 482.

Sinopse por: Maria Julia Ricci

Instagram: @mariajuliaricci_

E‐mail: maria.ricciferreira@edu.unito.it


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