Qual a importância deste artigo em nosso contexto?

A hidroxicloroquina recebeu ainda mais destaque da mídia brasileira nesta semana após a divulgação pelo Ministério da Saúde (MS) de Diretrizes para seu uso no tratamento precoce de pacientes com COVID-19, no Sistema Único de Saúde (SUS). Diversos estudos já foram realizados na tentativa de firmar resultados promissores com o uso de cloroquina/hidrocloroquina para o enfrentamento da COVID-19, porém, nenhum estudo robusto foi ainda realizado.

Qual o objetivo do estudo?

O objetivo do estudo em questão foi avaliar a eficácia da hidroxicloroquina em pacientes que, diagnosticados com a COVID-19, foram internados por pneumonia e necessitavam de oxigenioterapia.

Como foi realizado o estudo?

Os dados foram coletados a partir de quatro hospitais da França, e incluíram pacientes internados com idade entre 18 e 80 anos, com diagnóstico positivo para SARS-CoV-2 confirmado por PCR e que necessitavam de oxigenioterapia suplementar por meio de máscara ou cateter nasal.

Foram excluídos do estudo pacientes que tinham contraindicação à hidroxicloroquina, incluindo pacientes em diálise; pacientes que já haviam iniciado tratamento com hidroxicloroquina antes da internação hospitalar; que fizeram uso após 48h da admissão de outro medicamento experimental para COVID-19 como tocilizumab, lopinavir-ritonavir ou remdesivir; que apresentaram indicação imediata de internação em Unidade de Terapia Intensiva ou com síndrome respiratória aguda grave e necessidade de ventilação não invasiva com pressão positiva ou necessidade de ventilação mecânica.

Quais foram os principais achados do estudo?

Um total de 181 pacientes participaram da amostra e foram classificados em dois grupos: grupo tratamento, que fizeram uso de hidroxicloroquina na dose de 600 mg/dia nas primeiras 48h da admissão hospitalar; e grupo controle que utilizou o tratamento padrão, sem uso de hidroxicloroquina.

Dentre os dois grupos, a idade média dos pacientes foi de 60 anos (variável entre 52 a 68 anos) e 72% eram homens. O intervalo médio entre o início dos sintomas e a internação foi de 7 dias (variável de 5 a 10 dias) e o acompanhamento médio dos pacientes sobreviventes foi de 32,5 dias. A taxa de sobrevida sem transferência para terapia intensiva em 21 dias foi de 80% no grupo de tratamento em comparação com 75% no grupo de controle, a taxa de sobrevida global em 21 dias foi de 89% no grupo de tratamento e 91% no grupo controle e a taxa de sobrevida sem síndrome respiratória aguda grave foi de 70% no grupo de tratamento e 74% no grupo controle.

Quais as conclusões deste estudo?

Segundo os autores, todas as análises de sensibilidade foram consistentes com a análise principal e constataram que a hidroxicloroquina não teve efeito em nenhum desfecho, os resultados sugerem ainda que pacientes com menos sintomas e melhor prognóstico na admissão não responderam à hidroxicloroquina, não sendo associado a uma redução de internações em UTI ou óbito após 21 dias da internação quando comparados ao tratamento padrão.

Ressalta-se ainda que 10% dos pacientes do grupo tratamento sofreram modificações eletrocardiográficas que exigiram descontinuação da hidroxicloroquina em mediana de 4 dias (intervalo de 3 a 9 dias) após o início. A hidroxicloroquina bloqueia o canal de potássio e pode potencialmente prolongar o intervalo QT corrigido, com consequências potencialmente graves, como arritmias cardíacas.

Para os autores os possíveis efeitos colaterais da hidroxicloroquina somados ao resultado negativo do estudo, fundamentam contra o uso generalizado em pacientes com pneumonia por COVID-19, não sendo avaliado seu risco X benefício da administração de hidroxicloroquina na prevenção de formas graves da doença.

Porém, deve-se levar em consideração as limitações do estudo, onde o tratamento não foi designado aleatoriamente e possíveis fatores não medidos poderiam interferir nos resultados, assim como a amostra limitada ao número de pacientes elegíveis disponíveis no momento da análise.

Fonte: BMJ 2020; 369 doi: https://doi.org/10.1136/bmj.m1844 (Published 14 May 2020)

Sinopse por: Walquiria Aparecida de Siqueira Santana

Contato: https://www.linkedin.com/in/walquiriasantana/


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