A ampliação da abrangência do controle de infecção para fora do cenário assistencial hospitalar é mais que uma exigência do fenômeno da desospitalização. O próprio título do nosso livro já comprovava esta necessidade no final do século passado, quando foi escrito. “Infecção Hospitalar e suas Interfaces na Área da Saúde” já excedia os limites de um hospital e até o próprio cenário assistencial ao discutir controle de infecção em presídios, creches e laboratórios de pesquisa, por exemplo. Locais onde a aplicação dos princípios do controle das infecções tem grande importância na saúde da coletividade. Neste século começou a ganhar corpo o conceito de infecção associada à assistência, que aqui no Brasil recebeu o título de Infecção relacionada à assistência à saúde (IRAS)  e na minha opinião começou uma grande confusão conceitual.

Muitos autores nacionais começaram a defender que a infecção hospitalar passou a ser chamada de infecção relacionada à assistência à saúde e por decorrência as comissões de controle de infecção passariam a ser chamadas de CCIRAS, alterando o nome dos indicadores e do próprio programa controle de infecção. Um dos livros brasileiros chegou até a conceituar IRAS: “Infecção hospitalar (IH), atualmente chamada de infeção relacionada à assistência à saúde (IRAS) para maior abrangência: toda infecção adquirida após a internação hospitalar (nosso grifo) num prazo de 48-72 horas e que não esteja em seu período de incubação”. Aqui eu pergunto: onde foi parar a alegada maior abrangência, se na sua definição limita em relação à assistência hospitalar? Será que as infecções hospitalares deixarem de existir? O que as comissões de controle de infecção estudam ao fazer o controle epidemiológico destes episódios? Serão todas as infecções associadas a assistência diagnosticadas, ou apenas aquelas adquiridas em sua instituição? Enfim, o que efetivamente mudou e quais suas consequências no trabalho das comissões?

A Comunidade Européia elaborou outro conceito ao estudar este problema. Em Portugal é empregado atualmente o termo infecção associada aos cuidados de saúde (IACS). “Por infecções associadas aos cuidados de saúde entende-se as infecções contraídas quando são prestados cuidados de saúde (por exemplo, quando o doente recebe ambulatoriais, cuidados hospitalares, cuidados prolongados). Quando ocorrem num hospital, estas infecções são denominadas “infecções hospitalares” (nosso grifo).  O que este conceito tem de diferente? Então, pelo menos na Europa, as infecções hospitalares não “mudaram de nome”? Quais suas implicações para o trabalho das comissões?

A essência do trabalho de uma comissão de controle de infecção é controlar e reduzir o risco de um paciente adquirir infecção em decorrência dos cuidados prestados na sua instituição, pois é essencialmente nesta assistência que ela foca as medidas de prevenção implementadas. Isto não implica que não se diagnostique ou trate infecções adquiridas em outros cenários, mas suas intervenções em prevenção e controle são focadas na sua instituição e seria demais exigir responsabilidade sobre atos executados em outros cenários.

Além disso, na medição de um risco é sempre feita uma relação entre o número de expostos ao risco e o de afetados em decorrência dessa exposição, para se medir a probabilidade de adoecimento. Incluir em suas estatísticas como afetados, pacientes que foram expostos em outros cenários estaríamos superdimencionando riscos.

Assim, embora até por razões de ética profissional devemos dar atenção a todos pacientes com processos infecciosos, particularmente os adquiridos durante a assistência à saúde e não podemos nos omitir em dar orientações pertinentes à prevenção de infecções, o foco do trabalho de uma CCIH é o risco de um paciente submetido a hospitalização. Assim podemos concluir:

  1. As infecções hospitalares não são um anacronismo e continuam sendo o foco principal de atuação das comissões de controle intra hospitalares.
  2. Existem outras infecções relacionadas à assistência à saúde, que devem ser estudadas, prevenidas e controladas por comissões específicas nos respectivos cenários assistenciais em prol da saúde da coletividade.
  3. Deve ser estimulada uma integração científica e metodológica entre essas várias comissões, mas sem desrespeitar as particularidades de cada cenário assistido.
  4. Confundir essas infecções é mais que um erro conceitual, pois gera inconsistências na própria finalidade primeira de uma comissão de controle de infecção que é prevenir e controlar esses episódios em sua instituição.
  5. Comentado por Antonio Tadeu Fernandes para CCIH Cursos de Controle de Infecção (CCIH REVISTA)

Escrito por Antonio Tadeu Fernandes para CCIH Cursos de Controle de Infecção (CCIH REVISTA)


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