Muitas vezes devemos trocar as luvas no atendimento ao mesmo paciente para evitar a contaminação entre topografias distintas. Será a desinfecção das luvas melhor que sua troca no atendimento ao mesmo paciente?

Qual a justificativa do estudo?

Embora a OMS não recomende o reaproveitamento de luvas, a atual situação pandêmica tem gerado escassez de recursos no combate a COVID-19, o que torna necessário reconsiderar o reaproveitamento de luvas com o mesmo paciente. De acordo com a Comissão para Higiene Hospitalar e Prevenção de Infecções do Instituto Robert Koch (Berlim), a desinfecção de luvas pode ser usada diante da carga de trabalho adicional gerada pela pandemia de COVID-19 ao realizar vários procedimentos no mesmo paciente. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças e o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças recomendam a desinfecção de luvas como parte do processo de remoção do equipamento de proteção individual devido ao alto risco de contaminação. É fundamental que antes de se realizar a desinfecção das luvas seja verificada a compatibilidade das luvas com o produto desinfetante utilizado.

Qual o objetivo do estudo?

O estudo teve como objetivo testar a resistência das luvas nitrílicas a várias soluções desinfetantes.

Qual metodologia foi empregada?

Luvas de nitrila 100% sem pó, compostas de borracha de nitrila butadieno, foram expostas a vários desinfetantes para analisar a resistência. As soluções desinfetantes mais comumente usadas na área de saúde foram selecionadas para teste:

  1. Solução antisséptica para mãos (85g de etanol/100g)
  1. Desinfetante para superfícies de equipamentos médicos (40.5g de etanol + 9.20g de n-propanol/100g)
  1. Antisséptico à base de água (digluconato de clorexidina 2%)
  1. Solução de lixivia 1:10 (hipoclorito de sódio 5000ppm)
  1. Antisséptico de digluconato de clorexidina à base de álcool 2%
  1. Solução cutânea de peróxido de hidrogênio (3g/100ml)
  1. Etanol a 96%
  1. Álcool a 70%

Os efeitos de cada desinfetante foram analisados em comparação com o grupo controle (luva não tratada). Para o teste de tração, a espessura de cada corpo de prova foi medida com um micrômetro. Os resultados foram baseados nos parâmetros especificados pela norma ISO 527.

Quais os principais resultados?

A força necessária para ruptura diminuiu após aplicação de todos os desinfetantes contendo álcool. O desinfetante mais agressivo foi o álcool a 70%, que levou a ruptura com 60.62% do esforço necessário em comparação ao grupo controle.

Peróxido de hidrogênio 3% foi o único desinfetante que manteve as propriedades das luvas de resistência a tração.

Quais as limitações do estudo?

Primeiramente, os experimentos foram realizados apenas em luvas de nitrila; portanto, há necessidade de mais testes com outros materiais.

Devido à atual crise de saúde, um número limitado de testes foi realizado, e é necessário expandir a pesquisa para incluir testes adicionais.

Quais as conclusões e recomendações finais?

A escolha de uma solução desinfetante adequada para o tipo de luva utilizada é um aspecto fundamental durante a desinfecção; as diferenças na eficácia das soluções desinfetantes parecem depender do material de que as luvas são compostas.

Este estudo descobriu que as soluções desinfetantes que contêm álcool não afetam o alongamento na quebra, mas afetam a força necessária para quebrar as luvas de nitrila. Portanto, produtos que possuem componentes etílicos podem fragilizar as luvas de nitrila, aumentando o risco de quebra, o que pode aumentar a auto contaminação dos profissionais de saúde durante a prática clínica.

Finalmente, seria útil se os fabricantes de luvas fornecessem dados sobre a compatibilidade de suas luvas com diferentes tipos de produtos para esfregar as mãos e soluções desinfetantes.

Que críticas e comentários?

Esse artigo trata de um estudo realizado em um contexto pandêmico contudo não deixa a desejar em clareza metodológica e observação as normas regulamentadoras. Com certeza um passo inicial, já que trata apenas de um material e sua interação com os desinfetantes de uso mais comum, contudo muito relevante para situações de pandemia e/ou escassez de equipamento de proteção individual. Destacamos que o álcool 70, desinfetante mais empregado, altera as propriedades da luva.

Fonte: Desinfection of gloved hands during the COVID-19 pandemic. V.V. Márquez-Hernández et al. Journal of Hospital Infection, volume 107, January 2021, pages 5-11.

Sinopse por: Maria Julia Ricci

E-mail: [email protected]

Instagram: @mariajuliaricci_



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