Antonio Tadeu Fernandes

 

Ao meu ver, a correta interpretação do conceito de IRAS (Infecção Relacionada à Assistência à Saúde), empregado por muitos em substituição ao termo infecção hospitalar, vem trazendo alguma confusão em nosso meio.  Esta discussão ultrapassa um aspecto conceitual ou meramente acadêmico, podendo trazer problemas na consolidação dos dados epidemiológicos, distorcendo os indicadores, que medem riscos a que está submetida a população de pacientes internados. Outra questão decorrente, será que as comissões de controle deverão substituir o tradicional CCIH por CCIRAS, ou algo que o valha, o mesmo ocorrendo com o nome dos indicadores obtidos, por exemplo, de TIH por TIRAS? (desculpem o trocadilho inevitável)

Não existe a mínima dúvida que as estratégias de prevenção e controle de infecções devem ser ampliadas para todos os cenários, onde ocorre assistência à saúde ou risco exacerbado de transmissão de infecções. Foi pensando nessa abrangência, que nosso livro teve o título “Infecção Hospitalar e suas Interfaces na Área da Saúde”, onde já debatíamos assistência domiciliar, procedimentos ambulatoriais, instituições para doentes crônicos, doenças emergentes e até outros cenários de importância para a saúde coletiva, como clínicas odontológicas, instituições veterinárias e até presídios. De acordo com este mesmo princípio, embora limitado à assistência à saúde, foi sugerido o termo IRAS, logo “vertido” para o português do Brasil e ai começa a confusão, na minha opinião.

Até o momento, as definições nacionais sobre IRAS, de uma maneira geral, apenas trocaram o nome, substituindo as IH. Um livro recentemente publicado coloca esta definição: “infecção hospitalar atualmente chamada IRAS para maior abrangência: toda infecção adquirida após a internação hospitalar num prazo de 48 a 72 horas, que não esteja no seu período de incubação”. Ou seja, manteve-se a relação exclusiva das IRAS com o hospital, contrariando o princípio por trás desta mudança de nome, que seria ampliar o estudo das infecções para outros cenários da assistência à saúde. Por este motivo, IRAS não deve ser considerado um novo nome para IH, pois deve incluir infecções associadas a outros cenários assistenciais, que não exclusivamente o hospital.

 

Porém, se uma CCIH incluir todas as IRAS em seus cálculos estatísticos estará gerando outro problema. Indicadores em saúde medem a relação entre os afetados que foram expostos a fatores de risco, que podem ser a internação, procedimentos invasivos, entre outros, avaliando-se assim a probabilidade do agravo à saúde na população submetida ao risco. Uma CCIH foca seus estudos nos procedimentos e pacientes hospitalizados e se incluir entre os afetados, pacientes submetidos a fatores de risco extra-hospitalares, estará supervalorizando o risco em seus indicadores obtidos, pois o procedimento não foi realizado na instituição.

Na minha opinião, uma solução mais adequada a esta questão, foi obtida pela comunidade européia, que ao invés de IRAS utilizou o termo “infecção associada aos cuidados de saúde (IACS), propondo a seguinte definição: “Por infecções associadas aos cuidados de saúde entende-se as infecções contraídas quando são prestados cuidados de saúde e/ou durante uma estadia num estabelecimento de saúde (por exemplo, quando o doente recebe cuidados ambulatórios, cuidados hospitalares, cuidados prolongados). Quando ocorrem num hospital, estas infecções são denominadas infecções hospitalares”. Obviamente só estas devem ser consolidadas pelas CCIH, para obtenção de seus indicadores institucionais, desfazendo assim toda esta confusão conceitual.

Este conceito, ao contrário do até agora aceito no Brasil, inclui claramente as infecções adquiridas em outros cenários, sem entretanto misturá-las com as infecções hospitalares, que mantém sua identidade, enquanto foco principal das CCIHs, e como parte integrante de um universo maior de agravos infecciosos, que devem ser estudados em situações específicas, com estratégias de prevenção e controle adequadamente adaptadas a estes cenários assistenciais.

Particularmente, também acho o termo IACS bem mais feliz que IRAS, pois este pode ser confundido com IRA (insuficiência renal aguda), de certa forma estimula uma reação “irada” na clientela, por sua semelhança com a palavra ira e além disso, como no caso de infecções do acesso vascular, o termo associado é bem mais brando que o relacionado, pois este último só deve ser empregado quando está comprovada a relação da infecção da corrente sanguínea com o acesso. Transpondo isso para todas as infecções, poderíamos ter problemas legais ao, por definição, relacionarmos e não apenas associarmos uma infecção com os cuidados à saúde.

Enfim, dentro do espírito de nosso site e respaldado por minha carreira dedicada ao controle de infecção, trago estas reflexões para discussão, procurando mais uma vez contribuir com a qualidade da assistência que prestamos aos nossos pacientes, integrando bom senso, visão epidemiológica e evidências científicas e jamais a pretensão de dono da verdade, apenas uma mente inquieta, que luta pelo que acredita ser melhor, até prova em contrário.

 

São Paulo, 05 de abril de 2011.

 

Revisto e atualizado por Antonio Tadeu Fernandes


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