O leite humano trás vários benefícios para os recém-nascidos de muito baixo peso. Entretanto, a imaturidade neurológica favorece distúrbios respiratórios na tentativa de amamentação e por isso ele é fornecido por tubos oro – gástricos. De acordo com literatura precedente a contaminação do leite materno está entre 10 e 20% e pode estar relacionada a surtos de bacteremia ou casos fatais de enterocolite necrotizante. Em 1999 os autores observaram dois surtos de bacteremia relacionados à utilização de leite materno na UTI neonatal em um hospital universitário da Malásia.

Os autores realizaram um estudo controlado, randomizado, feito com mães de recém nascidos de muito baixo peso, excluindo natimortos, má formações congênitas e puérperas com mastite ou infecção sistêmica. Os grupos diferiam pelo método de extração do leite; manual ou por bomba. As mães receberam instruções escritas e verbais que incluíam a higiene das mãos com água e sabão, limpeza das mamas com água de torneira e secagem com toalha seca limpa, como fazer a expressão e coleta do leite em mamadeiras previamente desinfetadas e no caso do uso de bombas, da desinfecção com água fervendo. Logo após a coleta, o leite deveria ser refrigerado por no máximo 24 horas e encaminhado para o hospital em caixa térmica refrigerada. As mães de ambos os grupos foram também orientadas a cortarem semanalmente suas unhas. Amostras de pelo menos cinco mls foram coletadas em dias diferentes para análise microbiológica. Quando era identificada uma amostra contaminada, a mãe recebia reorientação das medidas profiláticas. Durante o período de estudo os recém-nascidos foram avaliados para presença de sepse ou enterocolite necrotizante. O estudo foi realizado entre 01/08/2000 e 10/01/2001, nasceram 39 Rn de muito baixo peso, dos quais 10 estavam nos critérios de exclusão e dois eram gêmeos. Assim, 28 mães foram estudadas, subdivididas em dois grupos de 14 quanto à forma de obtenção do leite. Os dados demográficos maternos e neonatais não diferiram significativamente entre os grupos, exceto mais donas de casa no grupo da expressão manual. A taxa de mães com pelo menos uma amostra de leite contaminada foi inaceitavelmente alta em ambos os grupos, sendo 76,9% nos leites coletados manualmente e 92,9% nos coletados por bomba, mas a diferença não foi estatisticamente significativa (p=0,3). Esta diferença entre os dois métodos continuava não significativa quando a ordenha era realizada no hospital (61,9% X 85,7%; p=0,3), mas ficava significativa quando era realizada no domicílio (60,0% X 86,5%; p=0,04). Os estafilococos foram os microrganismos mais isolados (60,9%), principalmente o grupo coagulase negativo e dentre os Gram negativos, que representaram 39,1% dos isolados, o destaque foi para Acinetobacter e Klebsiella. Os estafilococos predominaram na ordenha manual e os Gram negativos na ordenha domiciliar por bomba.

Durante os primeiros quatro meses do estudo, 11 recém-nascidos incluídos na amostra desenvolveram bacteremia e três enterocolite necrotizante. Em seis deles, os mesmos microrganismos foram isolados nos pacientes e no leite materno. Estes Rn receberam entre 8 e 12 ml de leite a cada 2 horas nos três dias que antecederam ao quadro infeccioso e quatro faleceram. Nos outros cinco Rns os microrganismos foram distintos e eles ou não receberam leite materno ou menos que 5 ml de leite a cada 2 horas.

A despeito das atividades educativas a contaminação continuou alta. Os autores sugeriram novas medidas preventivas: uso de água fervida em substituição a água de torneira para higiene das mamas; limpeza e secagem meticulosa a cada reuso das toalhas de mão empregadas para secar as mamas; guardar jarro de água utilizado para higiene das mamas na cozinha e não no banheiro, próximo ao sanitário. Como a incidência de contaminação continuava alta, o leite deixou de ser servido cru e passou a ser pasteurizado. Depois deste processo, todos os leites examinados deram cultura negativa e nos dois meses seguintes, apenas um Rn desenvolveu sepse por MRSA. Segundo os autores, uma falha do estudo foi não verificar a temperatura dos refrigeradores domiciliares.

Os autores concluíram que o leite materno é uma importante causa de infecção em recém-nascidos de muito baixo peso, desenvolvendo principalmente bacteremias tardias, podendo até superar o acesso vascular, tradicionalmente implicado nestes casos. O emprego da pasteurização do leite reduziu esta incidência e favoreceu a utilização de leite materno. Observaram também que a coleta hospitalar apresenta menor risco de contaminação por estafilococo e a domiciliar também por Gram negativos.

 

Fonte: BOO NY et al. Contamination of breast milk obtained by manual expression and breast pumbs in mothers of very low birthweigth infants. (J Hosp Infect 2001; 49:274-281)

Resumido por: Antonio Tadeu Fernandes em 2008.


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