A higiene das mãos é um procedimento essencial para a prevenção das infecções hospitalares, mas a adesão dos profissionais de saúde a esta medida raramente ultrapassa 70% das oportunidades e este comportamento é um fenômeno complexo que não é facilmente entendido, explicado ou alterado. As principais indicações para higiene das mãos são: presença de sujidade visível; antes e após contato com paciente; após contato com secreções ou excreções corpóreas ou objetos recentemente contaminados e após a remoção das luvas.

Atualmente existem duas opções para a realização deste procedimento: lavagem com água e sabão ou fricção de solução alcoólica. O conhecimento teórico sobre a necessidade da higiene das mãos, reforçado por educação e treinamento, tem tido influência limitada na alteração deste padrão de comportamento. Por outro lado, intervenções focadas a nível organizacional têm apresentado maior eficácia, pois a principal razão que os profissionais de saúde utilizam para justificar a não realização deste procedimento é o pouco tempo.

A teoria de planejamento do comportamento estuda o papel da motivação para se determinar uma conduta. A intenção está relacionada a três variáveis: atitude, normas subjetivas e existência de controle para facilitar ou dificultar a sua realização. A equipe comandada por Carol A. Boyle, da Escola de Enfermagem da Universidade de Minnesota, estudou as práticas de higiene das mãos em profissionais de saúde da unidade de terapia intensiva de quatro hospitais de ensino. Estas unidades continham de um a três leitos por quarto, nos quais havia uma pia com sabão antisséptico e papel toalha. As pias também estavam disponíveis nos corredores e áreas de trabalho tais como: locais de medicação e sala de utilidades. O estudo foi realizado entre julho de 1996 e outubro de 1997 e, durante este período, as soluções alcoólicas não estavam disponíveis. Os Comitês de Ética dos quatro hospitais aprovaram o protocolo.

As principais indicações para lavagem das mãos observadas no estudo foram: antes do início do cuidado; após realização do cuidado; antes de procedimentos invasivos; entre procedimentos sujos e limpos no mesmo paciente; depois de retirada das luvas; após contato com substâncias corpóreas; antes do profissional de saúde ter contato de suas mãos contaminadas com sua boca, olhos, nariz ou face. As recomendações sobre lavagem das mãos foram encaminhadas aos profissionais de enfermagem participantes do estudo e após duas semanas a quatro meses, foi observada a sua aderência às recomendações, por períodos de 120 minutos de trabalho ou 10 indicações consecutivas. Os resultados foram consolidados numa fração que relacionava o número de vezes que o profissional lavou as mãos com o número de indicação deste procedimento.

A aderência às recomendações foi medida de duas maneiras: observação pela equipe organizadora do estudo e relato dos próprios profissionais envolvidos. A consistência entre as duas fontes de informação foi 0,87 sugerindo uma boa aderência às indicações. Quanto à aderência por indicação da lavagem das mãos, foram observados os seguintes resultados relacionados ao total de oportunidades: após o cuidado (87%); após contato com substâncias corpóreas (87%); após remoção das luvas (80%); antes do cuidado ao paciente (62%); entre procedimentos sujos e limpos no mesmo paciente (60%); antes de procedimentos invasivos (57%); antes do profissional de saúde ter contato de suas mãos contaminadas com sua boca, olhos, nariz ou face (3%). No total das oportunidades, a aderência foi 70%. As três primeiras indicações representaram 88% das observações da higiene das mãos. Dos 120 enfermeiros que participaram do estudo, 23 habitualmente tocam partes de sua face durante a prática profissional.

Entretanto, o estudo também comprovou que nem sempre os profissionais de enfermagem realizam a higiene das mãos quando têm consciência de sua necessidade. O principal fator que impede a intenção de realizar a higiene das mãos se transformar em prática é a carga excessiva de trabalho. Isto é mais frequente nas situações em que a higiene das mãos seria mais necessária, pois se dá diante de pacientes graves e situações de emergência. A adoção de soluções alcoólicas parece ser uma boa alternativa para estas situações.

Este estudo também trouxe outros desafios: identificar e quantificar as condições ambientais e de trabalho que favorecem ou dificultam a realização da higiene das mãos; correlacionar o aumento da atividade de enfermagem com a maior incidência de infecção hospitalar, particularmente infecções relacionadas a procedimentos invasivos e estafilococcias em unidades neonatais; buscar alternativas às atividades educativas para se implementar a lavagem das mãos, especialmente a divulgação dos índices de aderência às recomendações; estimular a higiene das mãos no atendimento ao mesmo paciente quando se dirige de um procedimento contaminado para um limpo, independente da troca das luvas; avaliar a importância dos gestos habituais, principalmente os que envolvem a região facial, na colonização dos profissionais de saúde e consequente transmissão de infecções hospitalares.

Os autores concluem que a relação entre a intensidade da atividade da enfermagem e a aderência às recomendações para a higiene das mãos apresenta considerações de ordem ética implícitas no relacionamento entre as organizações de saúde e os pacientes, no qual o atendimento seguro é um componente importante e essencial.

 

Fonte: O’ Boyle CA, Henly SJ, Larson E. Understanding adherence to hand hygiene recommendations: the theory of planned behavior. Am J Infect Control 2001: 29:352-360.

TAGS: higiene das mãos,  teoria comportamental, aderência dos profissionais de saúde

Resumido por: Antonio Tadeu Fernandes em 2002


Ficou interessado? Veja nossos cursos MBA em CCIH e CME.