A lavagem das mãos remove sujidade, células descamadas, secreções cutâneas, poluentes e microrganismos patogênicos, sendo importante prática higiênica, particularmente entre os profissionais de saúde. As formulações utilizadas contêm vários surfactantes (sabões ou detergentes) e eventualmente agentes antimicrobianos. Infelizmente o uso excessivo destes produtos pode provocar lesões cutâneas caracterizadas por vermelhidão, ressecamento, fissuras, descamação e rugosidade na pele.

A barreira cutânea é comprometida porque os agentes surfactantes causam deslipidação, por quebra da queratina, removendo a camada superficial do extrato córneo da pele. Esta alteração favorece as substâncias irritantes provocarem um processo inflamatório, facilitando a colonização da pele por microrganismos patogênicos. Neste sentido, uma boa formulação deve ser avaliada quanto à capacidade de reduzir a incidência destes efeitos.

Este artigo, desenvolvido pela equipe do Dr. G. L. Grove compara em dois ensaios clínicos, a utilização de uma formulação alcoólica de clorexidina para higiene das mãos, com a lavagem convencional, aplicando-se clorexidina degermante, avaliando principalmente a ocorrência de lesões dermatológicas. Foram estudadas duas situações distintas: o preparo pré-operatório da equipe e a higiene das mãos em uma unidade de atendimento. No primeiro ensaio foram feitas seis aplicações diárias por cinco dias consecutivos e no segundo, 24 aplicações diárias por cinco dias consecutivos. Os participantes do ensaio aplicavam um produto em cada mão, seguindo as recomendações do fabricante (ou aplicação de 2ml até secar). As formulações testadas foram: clorexidina degermante a 4% (fabricada pela Zeneca) e clorexidina a 1% com etanol a 61% e emoliente (fabricado pela 3M). A anti-sepsia pré-operatória foi feita por escovação com 5ml por 3 minutos do degermante ou aplicação de 2ml nas mãos e 2 ml no antebraço da solução alcoólica até secar. Nas unidades o degermante foi aplicado 5ml do degermante, seguido da lavagem por 15 segundos e a solução alcoólica foi aplicada 2ml na palma das mãos, espalhada até secar.

Vários métodos foram empregados para se avaliar a integridade cutânea. Os próprios enfermeiros relataram subjetivamente a sensação de desconforto. O comprometimento pode ser classificado clinicamente de acordo com a presença de eritema, descamação, fissuras, rugosidade e pele seca e áspera. O método estereomicroscópico com lâmpada fluorescente desenvolvido por Highley classificou as lesões de acordo com os seguintes critérios (escore visual da pele – VSS): 0 (normal); 1 (descamação rara); 2 (descamação apenas nos sulcos); 3 (descamação visível e pele áspera); 4 (descamação acentuada, pele vermelha e irritada); 5 (grande área com irritação, descamação e eventual presença de sangramento). A integridade do estrato córneo do epitélio foi medida pela perda de água transepidérmica, que aumenta de acordo com o grau e extensão do comprometimento. O grau de umidade da pele pode ser avaliado pela sua capacidade de conduzir uma corrente elétrica.

Na avaliação do próprio enfermeiro, a solução alcoólica superou o degermante em ambos os ensaios. No preparo pré-operatório foi observada significância estatística em relação à aparência (P=0,0371), umidade (P=0,0111) e sensibilidade (P=0,0111). Não houve significância no resultado em relação à integridade (P=0,25). No ensaio para higiene/lavagem das mãos a significância foi observadas em todos estes parâmetros analisados (P=0,0001).

No ensaio para preparo cirúrgico da pele a solução alcoólica provocou ao final do quinto dia significativamente menos lesão cutânea ao se avaliar o escore visual da pele (P= 0,0002) e eritema (P=0,0039) e na avaliação pelo dermatologista (P<0,0023). No ensaio de higiene/lavagem das mãos a vantagem da solução alcoólica ao final do quinto dia foi confirmada pelo escore visual da pele, presença de eritema, rugosidade a avaliação pelo dermatologista, todos com a mesma significância estatística (P=0,0001). Em ambos os ensaios, na representação gráfica da pontuação da lesão dada pelo dermatologista, foi observada uma estabilidade com o uso da solução alcoólica, ao passo que com o degermante houve um aumento progressivo do índice de lesão de acordo com os dias de aplicação.

No primeiro ensaio clinico não foi observada diferença significativa na alteração da perda de água transepidérmica entre os dois produtos, mas no segundo ensaio, a vantagem da solução alcoólica foi significante (P=0,0017). Em relação à condutância elétrica, que mede a umidificação da pele, no primeiro ensaio houve aumento com ambas as formulações, mas a diferença foi significativamente favorável à solução alcoólica (P=0,0006). Já no segundo estudo enquanto com a solução alcoólica tivemos um aumento, com o degermante houve queda e a diferença foi também significante (P=0,0025).

Segundo os autores, seja pela avaliação dos profissionais de saúde que aplicaram o produto, pela avaliação feita por dermatologistas ou por dados obtidos de exames subsidiários, os resultados são favoráveis à formulação alcoólica da clorexidina, indicando que esse produto tem menor potencial irritante para a pele, enquanto o uso repetido da formulação degermante resseca a pele, a solução alcoólica parece hidratá-la. Embora outros estudos já tivessem demonstrado possíveis vantagens dessa solução, este foi o primeiro ensaio a comprovar com medições por bioinstrumentação, tornando menos subjetivos os achados. Os autores ressaltam que a ação antimicrobiana desta solução não foi examinada em seu estudo, necessitando de avaliação complementar. No entanto o FDA já a aprovou para preparo pré-operatório e higiene das mãos.

 

Fonte: Grove GL, Zerweck CR, Heilman JM, Pyrek JD. Methods for evaluating chnges in skin condition due effects of antimicrobial hand cleansers: two studies comparing a new waterless chlohexidine preparation with a conventional water-applied product. Am J Infect Control 2001: 29:361-369.

Resumido por: Antonio Tadeu Fernandes em 2002.


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