A vacinação tem sido amplamente promovida como a melhor medida preventiva disponível contra a gripe sazonal. Apesar dos grandes esforços de sistemas federais de saúde publica e organizações globais para aumentar disponibilidade e aceitação da vacinação, as taxas de imunização para influenza sazonal ficam aquém do esperado em muitos países e aumentar as taxas de vacinação entre os profissionais de saúde permanece um desafio global.

Qual o objetivo do estudo?

O estudo foi realizado no Hospital Universitário de Basel (Suíça). O hospital tem histórico de promoção de vacinação sazonal, com sistema de vigilância implementado e compreensiva campanha de prevenção, incluindo avaliação subsequente. Apesar dos esforços – como vacinação gratuita e de fácil acesso, eventos educacionais, panfletos e material informativo tratando de equívocos frequentes e preocupações, uso de pôsteres e broches – a taxa máxima de vacinação não ultrapassou 31%.

Sendo assim, o objetivo do estudo foi obter mais informações sobre as atitudes dos profissionais de saúde em relação à vacinação contra influenza para orientar futuras intervenções para aumentar as taxas de vacinação.

Qual metodologia foi empregada?

Questionário anônimo padronizado foi enviado a todos os funcionários do Hospital Universitário de Basel (Suíça) após a temporada de gripe 2013/2014.

Foram coletadas informações demográficas (não-identificativas) de todos os participantes. A continuação do questionário foi determinada pelo status de vacinação (ou ausência desta).

Funcionários vacinados foram questionados sobre o histórico de vacinação anterior, a decisão de ser vacinado na próxima campanha e se houve aspectos negativos da experiência de vacinação na campanha do ano. Aqueles que relataram o desejo de não serem vacinados na próxima campanha foram questionados sobre as respectivas razoes para tal.

Funcionários não vacinados foram questionados sobre as razoes por trás da decisão desfavorável a vacinação. Foram questionados sobre: preocupação com efeitos colaterais, eventos adversos sérios, eficácia da vacina, disponibilidade da vacina na instituição. Alergia a casca de ovo documentada e sugestões para uma melhor campanha.

Foram realizadas comparações entre vacinados e não vacinados. Motivos para não vacinação foram comparados entre diferentes grupos ocupacionais. Variáveis categóricas foram comparadas pelo teste de chi quadrado e teste exato de Fischer, quando apropriado. Os valores de P bilateral inferiores a 0.05 foram considerados significativos.

Quais os principais resultados?

Os profissionais de saúde não vacinados eram mais comumente mulheres e diferiu por grupo ocupacional e departamento. As principais razoes para a não vacinação foram o medo de reações adversas de curto prazo, seguido pela avaliação das evidências sobre os benefícios da vacinação como insuficientes e receios de violação do direito à autodeterminação. Medo de sequelas a longo prazo e violação do direito de autodeterminação diferiu entre os 4 grupos de profissionais, ambos sendo mais comumente indicados por enfermeiros e menos indicados por médicos.

As taxas de vacinação variaram de 14,7% a 31% de 2007 a 2019. Ressalta-se 2 momentos de aumento das taxas: pontualmente em 2009/10, que foi relacionado a pandemia de gripe A (Influenzavirus A subtipo H1N1); estavelmente em e após 2013/14, relacionada a campanha institucional multifacetada.

Um total de 1454 profissionais de saúde – 23% do total de 6334 – participaram da pesquisa, dos quais 62% relataram ter sido vacinados. 1017 participantes (69.9%) foram mulheres e entre a idade de 46 e 55 anos (31.1%). A taxa de vacinação foi levemente mais elevada (44/57 – 77.2%) entres os profissionais das unidades de cuidados intensivos.

A maioria dos participantes vacinados havia sido previamente vacinada pelo menos 3 vezes (591/901 – 65,6%) e planeja ser vacinada na próxima vez (809/901 – 89.9%). Experiencias negativas foram relatadas por 18.8% dos participantes (169/901) e foram relacionados principalmente a efeitos colaterais relacionados a vacinação (120/169 – 71%), seguido de falha percebida da vacina – ou seja, sintomas gripais apesar da vacinação – (67/120 – 55.8%) e falta de disponibilidade na instituição (6/120 – 5%).

Quais as conclusões e recomendações finais?

Este estudo fornece uma visão sobre as diferenças em relação às barreiras à vacinação entre diferentes grupos ocupacionais, que podem não ter sido abordadas de forma adequada até agora. Os decisores políticos devem considerar essas diferenças ao planejar campanhas para aumentar a aceitação da vacina contra influenza entre os profissionais da saúde.

Limitações relatadas:

–  taxa de resposta foi baixa e a maioria dos participantes provavelmente reflete os profissionais de saúde com atitudes mais fortes em relação às práticas de vacinação

– maioria dos participantes foi vacinada (62%), em contraste com a taxa de vacinação institucional de 31%; sub-representação dos não vacinados

Que críticas e observações finais?

Deve-se notar o contexto do país de realização da pesquisa, pois a baixa taxa de adesão não é discrepante com o contexto suíço e europeu.

O contexto nacional brasileiro é numérica e estruturalmente diferente, dispondo de um notável programa nacional de imunização e dispondo de legislação especifica para garantir a disponibilidade e acessibilidade aos profissionais de saúde brasileiros (NR 32); contudo, também a nível nacional constata-se a tendência de diminuição da adesão de profissionais de saúde de acordo com o padrão global de decadência.

Como ressaltado no artigo, a nível global, torna-se cada vez mais fundamental encontrar estratégias precisas e eficazes para aumentar os níveis de imunização da população e dos profissionais de saúde. Para tal é fundamental o acesso a informação cientifica de qualidade, o combate a fake news e pseudociência, e a elaboração de estratégias multifacetadas baseadas em evidência. É fundamental também abordar a percebida violação de autodeterminação que a vacinação representa e encontrar meios de superá-la.

Por fim, os autores disponibilizam o questionário utilizado e aplicação em outros contextos e atualização periódica dos dados é uma possibilidade.

Fonte: L ow rates of influenza vaccination uptake among healthcare workers: Distinguishing barriers between occupational groups. American Journal of Infection Control, ISSN: 0196-6553, Vol: 48, Issue: 10, Page: 1139-1143.

Sinopse por: Maria Julia Ricci

Instagram: @mariajuliaricci_

E-mail: maria.ricciferreira@edu.unito.it


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