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Infecções bacterianas secundárias durante a hospitalização entre pacientes com COVID-19 são comuns, especialmente em pacientes internados em unidade de terapia intensiva. Os pesquisadores realizaram um estudo de coorte retrospectivo para investigar a incidência de contaminação por hemocultura durante o período em que os pacientes com COVID-19 foram atendidos em um centro médico no Japão.

Qual foi a justificativa do estudo?

As coinfecções bacterianas, incluindo infecções da corrente sanguínea, entre pacientes que apresentam doença coronavírus 2019 (COVID-19) são relatadas como raras, e o tratamento empírico com antibióticos no diagnóstico e hospitalização geralmente não é justificado. Ao contrário, entretanto, infecções bacterianas secundárias durante a hospitalização entre pacientes com COVID-19 são comuns, especialmente em pacientes internados em unidade de terapia intensiva. Pacientes com COVID-19 grave geralmente requerem ventilação mecânica e múltiplas inserções de cateter, incluindo aquelas para oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO). O tempo de internação hospitalar em pacientes graves com COVID-19 tende a ser mais longo do que para outras doenças infecciosas agudas, como a gripe, tornando o risco de infecções nosocomiais muito maior.

Qual foi o objetivo do estudo?

Os pesquisadores realizaram um estudo de coorte retrospectivo para investigar a incidência de contaminação por hemocultura durante o período em que os pacientes com COVID-19 foram atendidos em um centro médico no Japão.

Qual foi a metodologia aplicada?

Foi realizado um estudo comparativo retrospectivo para investigar a taxa de contaminação de hemocultura após a pandemia de COVID-19, em um centro médico terciário da prefeitura que foi designado para ser um centro médico para hospitalizar pacientes com COVID-19 desde o início da pandemia em 2020. Somente pacientes adultos foram incluídos na análise que apresentou dados de dois períodos: um período de 1º de abril de 2019 a 31 de dezembro de 2019, que foi definido como um período pré-pandêmico (pré-PP) quando o centro não admitia nenhum paciente COVID-19; outro período de 1º de abril de 2020 a 31 de dezembro de 2020, que foi definido como o período pandêmico (PP), quando o centro internou pacientes com COVID-19 enquanto cuidava também de pacientes com outras doenças.

Os pesquisadores contaram todas as hemoculturas colhidas de pacientes hospitalizados no centro durante o período do estudo, independentemente das características do paciente e do motivo do teste de hemocultura, e teve como objetivo comparar as taxas pré-PP e PP.

Os resultados da hemocultura foram considerados como contaminação quando a cultura gerou flora cutânea normal, incluindo, mas não se limitando a estafilococos coagulase-negativos, exceto Staphylococcus lugdnensis, Bacillus spp., Lactobacillus spp., ou Corynebacterium spp., em uma única amostra entre as diversas hemoculturas. As culturas foram consideradas uma infecção “verdadeira” quando geraram os mesmos organismos em várias culturas, ou uma única amostra com um organismo considerado como provável patógeno verdadeiro, como Staphylococcus aureus, Enterococcus spp., organismos Gram negativo ou fungos.

A taxa de contaminação e a taxa de bacteremia verdadeira foram calculadas tanto para pré-PP quanto para PP, para UTI, onde pacientes graves com COVID-19 foram atendidos, e para não UTI, onde pacientes com COVID-19 leve e moderado foram tratados.

Quais foram os principais resultados?

Um total de 7.127 e 4.182 pacientes foram admitidos durante o pré-PP e PP, respectivamente, resultando em 80.422 pacientes-dia e 44.748 pacientes-dia, respectivamente. Um total de 346 pacientes com COVID-19 foram hospitalizados durante o PP no centro.

Para a UTI, 503 e 186 pacientes foram admitidos durante o mesmo período, respectivamente, resultando em 5,849 e 1,983 pessoas-dia de internação em UTI, respectivamente.

Um total de 1.040 e 918 hemoculturas foram coletadas durante o pré-PP e PP, respectivamente. Na UTI, foram realizadas 201 e 257 hemoculturas nos mesmos períodos.

Para a bacteremia verdadeira, as hemoculturas detectaram 179 bacteremias durante o pré-PP e 105 para o PP no centro médico, mas não houve diferença em termos de bacteremia verdadeira por paciente-dia.

Para a UTI, a bacteremia ocorreu 21 e 20 vezes nos mesmos períodos, mas houve um aumento significativo da bacteremia verdadeira por paciente-dia. Para outras enfermarias além da UTI, houve diminuição significativa na bacteremia verdadeira durante o PP em comparação com o pré-PP, mas não houve diferença em termos de bacteremia por paciente-dia.

Ocorreram 38 e 56 contaminações durante o pré-PP e PP respectivamente, e permaneceu significativa a contaminação por paciente-dia. Para a UTI, ocorreram 10 e 32 contaminações nos mesmos períodos, com diferença significativa na contaminação por paciente-dia.

Não houve diferença significativa na taxa de contaminação entre os 2 períodos para as enfermarias, exceto para a UTI. As taxas de contaminação entre aqueles com hemocultura positiva durante o pré-PP para pacientes UTI e não UTI foram de 32,3% e 15,1%, respectivamente. O mesmo para PP foram 64,0% e 22,0%, respectivamente.

Que conclusões e recomendações finais?

Os pesquisadores descobriram um aumento significativo de contaminações durante o período pandêmico, em comparação com o período pré-pandêmico em uma UTI onde pacientes com COVID-19 gravemente enfermos foram atendidos. O número de hemoculturas por paciente-dia aumentou significativamente tanto na UTI quanto fora dela, provavelmente refletindo o aumento de pacientes febris. Além disso, as bacteremias verdadeiras por paciente-dia também aumentaram durante o PP em comparação ao pré-PP na UTI, refletindo o aumento de infecções bacterianas secundárias.

O aumento da contaminação da hemocultura pode ter ocorrido por diversos motivos. Em primeiro lugar, o número de hemoculturas por paciente-dia aumentou significativamente e, posteriormente, pode ter aumentado a chance de contaminação. A alta carga de trabalho para o cuidado dos pacientes com COVID-19, como ajuste da oxigenação, aspiração do tubo endotraqueal e posicionamento dos pacientes em decúbito ventral, pode ter tornado o procedimento de coleta da hemocultura mais cansativo do que o convencional. O uso de equipamento de proteção individual (EPI) certamente poderia ter tornado todos os procedimentos mais difíceis do que aqueles sem ele. É razoável suspeitar que o cuidado de pacientes com COVID-19, particularmente aqueles que estão gravemente indispostos, provavelmente resulta em maior contaminação por hemocultura.

Os autores questionam o possível impacto da contaminação por hemocultura no cuidado de pacientes com COVID-19 e refletem que a contaminação por hemocultura pode levar ao uso desnecessário de antibióticos de amplo espectro, especialmente no ambiente de UTI, e isso pode resultar em um aumento de complicações relacionadas ao medicamento e desfechos potencialmente piores para os pacientes. Além disso, o aumento na resistência aos antibióticos pode tornar o tratamento de infecções bacterianas secundárias mais difícil. A carga de trabalho também, por consequência, pode aumentar para técnicos de laboratório e equipe de controle de infecção.

Os autores ressaltam também que não é viável pular o procedimento para diagnosticar a bacteremia com segurança durante os cuidados com COVID-19, embora seja necessário buscar uma forma de evitar a contaminação desnecessária. Na ótica dos autores, o desenvolvimento de EPIs mais seguros e fáceis de usar pode ajudar nessa conquista.

Quais são as limitações do estudo?

O estudo tem limitações inerentes. Em primeiro lugar, por se tratar de um estudo comparativo retrospectivo comparando o pré-PP e o PP, não se pode excluir a possibilidade da existência de fatores confundidores. Em segundo lugar, como se tratava de um ambiente de estudo de centro único, os resultados podem não ser extrapoláveis para outros ambientes.

Quais críticas e comentários?

Este estudo foi muito focado e interessante. Os pesquisadores apresentam os resultados de maneira muito clara e fazem um uso notável da literatura, tanto no desenho do estudo quanto na discussão dos achados.

Fonte: Ohki R, Fukui Y, Morishita N, Iwata K. Increase of blood culture contamination during COVID-19 pandemic. A retrospective descriptive study. Am J Infect Control. 2021 Nov;49(11):1359-1361.

Sinopse por: Maria Julia Ricci

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