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O estudo teve como objetivo analisar o impacto de um protocolo de uso de luvas universal em um hospital universitário dos EUA, onde foi implementada a iniciativa “Wash-Glove-Wash” (Lave-Luva-Lave) como parte de um estudo de melhoria de qualidade de vários anos com o objetivo de reduzir as taxas de HAIs. Foi observada maior aderência à higiene das mãos e uma redução significada de infecção por C. difficile. No artigo você saberá como.

Qual é a justificativa do estudo?

As Infecções Associadas aos Cuidados de Saúde (HAIs) são responsáveis ​​por aproximadamente 1,7 milhões de infecções e 99.000 mortes anualmente nos Estados Unidos. A infecção por Clostridioides difficile (CDI) é a principal causa de diarreia adquirida no hospital e está associada a morbidade e mortalidade significativas. A instituição de políticas rígidas de higiene das mãos tem sido eficaz na redução das taxas de HAIs, no entanto, as taxas de higiene das mãos em hospitais raramente excedem 60%.

Uma das alternativas que tem sido consideradas é a utilização universal de luvas no contexto hospitalar, já que é mais fácil monitorar a complacência e por não depender tanto da técnica quanto a higiene das mãos. O CDC e a OMS porém defendem que o uso inadequado de luvas pode resultar em oportunidades perdidas de higiene das mãos e representar um desperdício de recursos, sem contribuir para a redução da propagação de infecções.

Qual é o objetivo do estudo?

O estudo teve como objetivo analisar o impacto de um protocolo de uso universal de luvas em um hospital universitário dos EUA, onde foi implementada a iniciativa “Wash-Glove-Wash” (Lave-Luva-Lave) como parte de um estudo de melhoria de qualidade de vários anos com o objetivo de reduzir as taxas de HAIs.

Qual a metodologia empregada?

Foi realizado um estudo de análise de coorte prospectiva, envolvendo todas as unidades de cuidados adultos do University of Rochester Medical Center (com exceção da unidade de obstetrícia) entre 1º de janeiro de 2015 a 31 de dezembro de 2017. Em 1º de janeiro de 2016, foi instituída uma política universal de uso de luvas exigindo o seu uso para todos os encontros clínicos, com ênfase na lavagem das mãos antes e depois do atendimento ao paciente. A lavagem das mãos inclui o uso de água e sabão ou desinfetante para as mãos à base de álcool, e educação foi fornecida por meio de uma campanha de pôsteres em todo o hospital enfatizando a importância da higiene das mãos e uso de luvas para o cuidado do paciente, competições a nível de unidade e monitoramento de conformidade.

A equipe de prevenção de infecção hospitalar avaliou a conformidade com as práticas de higiene das mãos e uso de luvas por meio de uma metodologia de “comprador secreto” (secret shopper), por meio da qual monitoradores incógnitos rondavam aleatoriamente em todas as unidades durante o período de estudo. Foram coletados dados sobre as taxas de CDI. Taxas de infecção do trato urinário associadas a cateter (CAUTI) e taxas de infecção da corrente sanguínea associada a cateter (CLABSI)

O conjunto de dados incluiu 770 observações em nível de unidade, cada uma abrangendo 1 mês, que incluiu 32.290 oportunidades únicas de uso de luvas e higiene das mãos.

Foi avaliada a regressão multivariada e a existência de relações estatisticamente significativas entre as variáveis. Os dados a nível de hospital foram analisados ​​com regressão linear ordinária.

Quais os principais resultados?

A conformidade com a higiene das mãos e a conformidade com as luvas aumentaram continuamente durante a iniciativa Wash-Glove-Wash, sendo que no final de 2017 quase todas as unidades tinham> 90% de conformidade com a higiene das mãos, em comparação com <25% das unidades no início de 2015.

Ocorreu uma redução significativa na taxa de infecção por Clostridioides difficile, diminuindo de 1,05 em 2015 para 0,74 infecções por 1000 pacientes-dia em 2017. A taxa CAUTI também diminuiu de 1,33 para 0,8 casos por 1000 dias de linha de 2015 a 2017. As taxas de CLABI pareceram diminuir, mas não significativamente.

Em todas as unidades, os meses com maiores taxas de uso de luvas foram significativamente associados a maiores taxas de higienização das mãos. Quando uma unidade excedeu 90% de higiene das mãos, as chances de CLABSI diminuíram 3,3 vezes em comparação com quando uma unidade tinha <60% de higiene das mãos.

Finalmente, a análise de custo e utilização demonstrou um aumento na utilização anual de luvas de 57,546 caixas a um custo aumentado de $ 404.401,22, bem como um aumento na utilização anual de solução alcoólica de 2.164 caixas a um custo aumentado de $ 63.839,22.

Quais as conclusões e recomendações finais?

Os dados coletados demonstraram que a instituição de um protocolo de uso de luvas universal aumentou as chances de conformidade com a higiene das mãos em três vezes. As taxas de várias HAIs diminuíram durante este período, com a evidência mais forte de diminuição para CDI.  Notavelmente, somente após considerável tempo do início da campanha (10 meses) as taxas de CDI começaram a diminuir, e esse achado coincide com quando as unidades hospitalares mantinham consistentemente a higiene das mãos> 80%.

Embora a expectativa no atendimento clínico seja que os profissionais usem luvas ao manusear cateteres urinários ou cateteres urinários de demora, o fato de que a melhoria da higiene das mãos ainda tem impacto nas taxas de CLABSI implica que isso pode nem sempre ser uma realidade. Em última análise, os autores concluem que a utilização universal de luvas apoia um aumento nas taxas de conformidade com a higiene das mãos e podem ter um impacto indireto na redução de HAIs.

Quais as limitações do estudo?

O estudo tem várias limitações. Primeiramente, este foi um estudo de melhoria de qualidade quase experimental de vários anos, no qual os autores não foram capazes de controlar outras intervenções ou cofundadores durante o período do estudo. Outras limitações incluem aquelas comumente identificadas em qualquer pesquisa que utilize o monitoramento do comportamento clínico por meio do uso de clientes secretos, incluindo a variabilidade entre os auditores e o grau de anonimato do auditor.

Que críticas e observações?

O estudo cumpre sua proposta inicial de avaliar o impacto de uma iniciativa de utilização ampla de luvas em um contexto hospitalar para a prevenção de infecções. O ponto mais interessante a ser notado porém é que a maioria dos resultados positivos encontrados esta realmente relacionado com a higiene das mãos, que mesmo sendo mais difícil de monitorar e amplamente conhecido, ainda é a estratégia mais eficaz para o controle e prevenção de infecções.

Além disso é fundamental olhar criticamente para os custos – econômicos, logísticos, ambientais – que o aumentado consumo de luvas trouxe em uma única estrutura. São custos consideráveis e que para uma realidade de recursos limitados ou de grandes redes de saúde torna-se impraticável.

Sendo assim, até o momento, as indicações do CDC e da OMS que colocam a higiene adequada das mãos como base dos processos de IPC são a estratégia mais eficaz para mitigar a possibilidade e o risco de infecções hospitalares.

Outro ponto a considerar é a possibilidade de contaminação das luvas caso seja manipulado mais de um sítio no mesmo cuidado. Estudos anteriores mostram que as luvas podem se contaminar até mais que mãos sem luvas, que ainda teriam ação do álcool, durante seu uso e favorecer o transporte de microrganismos. Este ponto não é referido no estudo, embora tenha identificado redução das taxas de infecção ligadas a sonda vesical.

Fonte: Prasad P, Brown L, Ma S, McDavid A, Rudmann A, Lent D, Reagan-Webster P, Valcin EK, Graman P, Apostolakos M. “If the glove fits”: Hospital-wide universal gloving is associated with improved hand hygiene and may reduce Clostridioides difficile infection. Infect Control Hosp Epidemiol. 2021 Nov;42(11):1351-1355

Sinopse por: Maria Julia Ricci

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