Entenda o que é o Vírus Nipah, suas formas de transmissão, sintomas e letalidade. Saiba como o controle de infecção hospitalar deve se preparar para este patógeno prioritário da OMS no contexto One Health. Leia mais para se prevenir!
Resumo Executivo Crítico
O artigo analisa o vírus Nipah (NiV) como uma ameaça biológica de alta prioridade, destacando sua letalidade extrema (40% a 75%) e a complexidade de seus ciclos de transmissão. A obra enfatiza que a emergência do NiV não é um evento meramente biológico, mas um subproduto da degradação ambiental e da expansão humana sobre habitats de morcegos frugívoros.
No ambiente hospitalar, o texto alerta para o risco crítico de transmissão nosocomial e a vulnerabilidade dos profissionais de saúde quando protocolos de triagem falham. A ausência de vacinas aprovadas ou tratamentos específicos torna a preparação institucional — baseada em biossegurança rigorosa e vigilância epidemiológica — a única defesa eficaz no momento. Para o cenário brasileiro, o autor defende que, embora não haja casos autóctones, a preparação para casos importados é um imperativo ético e técnico de segurança do paciente.
Índice do Artigo
- Introdução: O desafio das zoonoses e o potencial pandêmico do Nipah.
- Virologia e características gerais: Estrutura viral, receptores efrina B2/B3 e estabilidade ambiental.
- Reservatórios, hospedeiros intermediários e ecologia: O papel dos morcegos Pteropus e o impacto das mudanças ambientais.
- Epidemiologia das infecções: Histórico de surtos na Ásia (Malásia, Bangladesh, Índia e Filipinas).
- Fatores de risco e modos de transmissão: Vias animal-humano, alimentar e pessoa-pessoa.
- Patogênese e resposta imune: Vasculite sistêmica, tropismo neurovascular e evasão imune.
- Quadro clínico e curso da doença: De sintomas inespecíficos a encefalite grave e síndrome respiratória.
- Diagnóstico laboratorial e diferencial: Uso de RT-PCR, sorologia e biossegurança nível 4.
- Manejo clínico e terapêutico: Terapias de suporte e perspectivas com anticorpos monoclonais (m102.4).
- Vigilância, notificação e resposta a surtos: Estratégias de contenção e o conceito de “One Health”.
- Prevenção, controle de infecções e segurança do paciente: Medidas de precaução hospitalar e riscos ocupacionais.
- Vacinas e perspectivas: Avanços em plataformas de vetor viral e mRNA.
- Implicações para a prática brasileira: Preparação para casos importados e vigilância em pontos de entrada.
- Nipah no contexto “One Health” e preparação para pandemias: A interconexão entre saúde animal e humana.
- Considerações finais: A importância da educação continuada e cultura de segurança.
PÁGINA DE PERGUNTAS FREQUENTES (FAQ) – VÍRUS NIPAH
O que é o vírus Nipah e por que ele é considerado uma ameaça global?
O vírus Nipah (NiV) é um patógeno zoonótico da família Paramyxoviridae com alta taxa de letalidade, variando de 40% a 75%. Ele é classificado pela Organização Mundial da Saúde como prioritário devido ao seu potencial pandêmico e ausência de tratamentos específicos.
Referência: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/nipah-virus
Qual é o reservatório natural do vírus e como ocorre a transmissão inicial para humanos?
Os reservatórios naturais são morcegos frugívoros do gênero Pteropus. A transmissão ocorre pelo contato direto com excreções dos morcegos ou pelo consumo de alimentos contaminados, como seiva de palmeira.
Referência: https://www.ccih.med.br/virus-nipah-a-proxima-pandemia-riscos-transmissao-e-prevencao/
Existe risco de transmissão entre humanos no ambiente hospitalar?
Sim, a transmissão pessoa a pessoa é um componente crítico, ocorrendo principalmente através de gotículas respiratórias e contato com secreções de pacientes graves em unidades de saúde.
Referência: https://bit.ly/4qfYngT
Quais são os principais sintomas da infecção em seres humanos?
O quadro varia de sintomas inespecíficos como febre e cefaleia até encefalite grave, confusão mental, convulsões e síndrome respiratória aguda.
Referência: https://www.cdc.gov/vhf/nipah/symptoms/index.html
Como deve ser feita a triagem de casos suspeitos no Brasil?
Gestores e profissionais devem focar no histórico de viagem para áreas endêmicas (Ásia) nos últimos 21 dias associado a sintomas neurológicos ou respiratórios agudos.
Referência: https://www.ccih.med.br/virus-nipah-a-proxima-pandemia-riscos-transmissao-e-prevencao/
Quais são as precauções recomendadas pela CCIH para o atendimento desses pacientes?
Devem ser aplicadas precauções padrão, de contato e de gotículas. Para procedimentos geradores de aerossóis, é obrigatório o uso de máscaras N95 ou equivalentes.
Referência: https://www.gov.br/anvisa/pt-br
Qual é o papel dos hospedeiros intermediários na cadeia de transmissão?
Animais como suínos e equinos podem atuar como amplificadores do vírus, facilitando o salto do patógeno dos morcegos para os seres humanos.
Referência: https://bit.ly/4qfYngT
Como é realizado o diagnóstico laboratorial de confirmação?
O método principal é o RT-PCR em tempo real a partir de amostras de urina, sangue, LCR ou swabs de garganta coletados na fase aguda.
Referência: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/nipah-virus
Existem tratamentos antivirais específicos aprovados?
Não há antivirais específicos aprovados para uso rotineiro. O tratamento é focado em suporte clínico intensivo para manejar as complicações.
Referência: https://bit.ly/4qfYngT
O que é o anticorpo monoclonal m102.4?
É uma terapia experimental que mostrou resultados promissores em modelos animais e estudos de fase inicial para neutralizar o vírus Nipah e o vírus Hendra.
Referência: https://cepi.net/university-oxford-launches-worlds-first-phase-ii-nipah-virus-vaccine-trial
Como deve ser feita a higienização ambiental em quartos de isolamento?
O vírus é envelopado e sensível a desinfetantes hospitalares comuns, como hipoclorito de sódio e compostos de amônio quaternário, desde que aplicados com rigor.
Referência: https://www.ccih.med.br/virus-nipah-a-proxima-pandemia-riscos-transmissao-e-prevencao/
Quais são as sequelas comuns em sobreviventes?
Sobreviventes podem apresentar alterações neurológicas persistentes, incluindo mudanças de personalidade, déficits cognitivos e convulsões tardias.
Referência: https://www.cdc.gov/vhf/nipah/outbreaks/index.html
Qual a importância do conceito One Health (Saúde Única) para este vírus?
O Nipah demonstra a interconexão entre saúde humana, animal e ambiental, onde o desmatamento aproxima morcegos e humanos, favorecendo surtos.
Referência: https://www.youtube.com/@CCIHCursosMBA
Já existe uma vacina disponível para o vírus Nipah?
Atualmente, existem vacinas em fases de estudos clínicos (Fase I e II), incluindo plataformas de mRNA e vetores virais, mas nenhuma está licenciada para uso geral.
Referência: https://cepi.net/university-oxford-launches-worlds-first-phase-ii-nipah-virus-vaccine-trial
Como as CCIHs podem se preparar para uma eventual introdução do vírus no Brasil?
Através da elaboração de protocolos de contingência, simulados reais de isolamento e treinamento contínuo das equipes de emergência sobre paramentação e desparamentação.
Referência: https://www.ccih.med.br/cursos-mba-em-gestao-em-saude-e-controle-de-infeccao/
Qual o nível de biossegurança exigido para manipular o vírus vivo em laboratório?
A manipulação do vírus vivo exige o Nível de Biossegurança 4 (NB-4), o mais elevado, devido ao risco de infecção laboratorial e gravidade da doença.
Referência: https://www.cdc.gov/vhf/nipah/diagnosis/index.html
O vírus Nipah pode ser transmitido por alimentos?
Sim, o consumo de frutas contaminadas por saliva ou urina de morcegos e, especialmente, a seiva de palmeira in natura são vias documentadas de surtos.
Referência: https://bit.ly/4qfYngT
Existe risco ocupacional para profissionais de enfermagem e medicina?
O risco é elevado se houver falha na triagem inicial. Profissionais que cuidam de pacientes com sintomas respiratórios estão em maior risco devido às secreções.
Referência: https://www.ccih.med.br/virus-nipah-a-proxima-pandemia-riscos-transmissao-e-prevencao/
O que são os eventos de superdisseminação no contexto do Nipah?
São situações onde um único paciente, geralmente com sintomas respiratórios intensos, transmite o vírus para um grande número de contatos em curto tempo.
Referência: https://www.thelancet.com/journals/lanmic/article/PIIS2666-5247(23)00361-0/fulltext
Onde encontrar capacitação especializada para gestão de crises infecciosas?
O Instituto CCIH oferece cursos de pós-graduação e MBAs focados em controle de infecção e segurança do paciente para preparar gestores contra patógenos emergentes.
Referência: https://www.ccih.med.br
1. Introdução
A emergência de novos patógenos virais de origem zoonótica, com alta letalidade e potencial de transmissão interpessoal, representa um dos principais desafios contemporâneos para a saúde global e para a segurança do paciente em serviços de saúde. O vírus Nipah, identificado no final da década de 1990 na Ásia, consolidou-se como um dos agentes com maior potencial de causar surtos graves, com elevada taxa de óbitos, afetando tanto comunidades quanto sistemas de atenção à saúde e exigindo respostas rápidas e integradas. Segundo revisões recentes, o Nipah é hoje classificado por organismos internacionais como patógeno prioritário para pesquisa e preparação frente a futuras emergências de saúde pública.
Trata-se de um vírus zoonótico pertencente à família Paramyxoviridae e ao gênero Henipavirus, compartilhando características com o vírus Hendra e outros henipavírus emergentes. Esse grupo de vírus tem como principal reservatório natural morcegos frugívoros do gênero Pteropus, os chamados “morcegos‑raposa”, capazes de transportar o agente no ambiente e infectar outros mamíferos, inclusive o ser humano, direta ou indiretamente. A partir do surto inicial na Malásia e em Singapura, associado à criação intensiva de suínos, casos e surtos recorrentes foram detectados em Bangladesh, Índia e outros países da região, com diferentes padrões de transmissão, o que evidencia a capacidade do vírus de adaptar‑se a contextos ecológicos e sociais variados.
Além de sua capacidade de causar encefalite grave e comprometimento respiratório agudo, o vírus Nipah preocupa pela diversidade de vias de transmissão, incluindo exposição a animais infectados, ingestão de alimentos contaminados (como seiva de palmeira) e disseminação pessoa–pessoa, inclusive em ambientes hospitalares. Em vários surtos, profissionais de saúde e cuidadores familiares foram acometidos após contato próximo com pacientes em fase aguda, muitas vezes em contextos com baixa disponibilidade de recursos e com falhas na implementação de medidas de precaução. Esse cenário aproxima o tema do dia a dia das Comissões de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e dos Núcleos de Segurança do Paciente, reforçando a necessidade de incorporar o Nipah nos planos de preparação e resposta a emergências biológicas.
No Brasil, não há, até o momento, relato de casos autóctones de infecção pelo vírus Nipah, mas a interconexão global, a mobilidade internacional e a experiência recente com a pandemia de COVID‑19 demonstram que agentes emergentes podem ser introduzidos rapidamente em novos territórios. Relatórios de organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) destacam o Nipah entre os patógenos prioritários em agendas de vigilância, desenvolvimento de vacinas e terapias, dado o seu potencial de causar emergências regionais com impacto transnacional. Para o contexto brasileiro, isso implica a necessidade de conhecer o agente, os modos de transmissão, os riscos ocupacionais e as estratégias de prevenção aplicáveis à realidade dos serviços de saúde, mesmo em um cenário sem casos registrados.
Este texto tem como objetivo oferecer uma visão abrangente e atualizada sobre o vírus Nipah, articulando aspectos de virologia, epidemiologia, quadro clínico, diagnóstico, manejo, prevenção e implicações para o controle de infecções e a segurança do paciente. A proposta é integrar a base conceitual consolidada em revisões e capítulos de referência com evidências recentes sobre surtos, terapias em investigação e desenvolvimento de vacinas, situando o tema no marco do conceito “One Health” e das estratégias de preparação para futuras pandemias. Destina‑se a alunos de cursos de pós‑graduação lato sensu na área da saúde, em especial aqueles envolvidos com CCIH, vigilância em saúde, terapia intensiva, infectologia e áreas correlatas, oferecendo subsídios para análise crítica e aplicação prática em diferentes níveis de atenção.
2. Virologia e características gerais do vírus Nipah
O vírus Nipah é um vírus RNA de fita simples, senso negativo, envelopado, não segmentado, pertencente à família Paramyxoviridae, subfamília Orthoparamyxovirinae, gênero Henipavirus, que inclui também o vírus Hendra e outros henipavírus relacionados. Segundo Gurley e Lee, esses vírus compartilham organização genômica semelhante, com genomas de aproximadamente 18,2 kb, mais longos que os de outros paramixovírus, em grande parte devido às extensas regiões não traduzidas. Revisões recentes reforçam essa classificação e destacam o Nipah como protótipo dos henipavírus zoonóticos de alta patogenicidade.
A estrutura do vírion Nipah segue o modelo típico dos paramixovírus, com partículas pleomórficas, envoltas por um envelope lipídico no qual se inserem duas glicoproteínas de superfície: a glicoproteína de ligação ao receptor (RBP, tradicionalmente chamada G) e a proteína de fusão (F). No interior do envelope, o genoma viral está firmemente associado à nucleoproteína (N), formando o nucleocapsídeo em “espinha de arenque”, acompanhado pela fosfoproteína (P) e pela polimerase de grande porte (L), que compõem o complexo de replicação, além da proteína de matriz (M), que organiza o brotamento de novas partículas na membrana plasmática da célula infectada. A edição co‑transcricional do RNA no gene P permite a expressão de proteínas adicionais (como V e W), envolvidas em evasão da resposta imune inata, especialmente pela modulação de vias de interferon.
A glicoproteína de ligação do Nipah reconhece como receptores as proteínas efrinas B2 e B3, presentes em alta densidade no endotélio arterial, neurônios e outros tecidos críticos, o que explica o tropismo preferencial do vírus pelo sistema nervoso central e pelo sistema vascular. Essa distribuição de receptores, relativamente conservada em mamíferos, contribui para o amplo espectro de hospedeiros suscetíveis e para a gravidade dos quadros de encefalite e vasculite observados em humanos e em animais domésticos. A replicação viral ocorre no citoplasma, obedecendo à “regra do seis” típica dos paramixovírus (comprimento genômico múltiplo de seis nucleotídeos), que favorece a eficiência replicativa e pode influenciar a adaptação a diferentes hospedeiros.
Do ponto de vista genético, são descritas, de forma geral, duas grandes linhagens ou genótipos de Nipah, associadas principalmente aos surtos da Malásia (genótipo “NiV-M”) e aos surtos de Bangladesh/Índia (genótipo “NiV-B”). Embora compartilhem alta identidade de sequência, diferenças em regiões codificadoras e não codificadoras parecem relacionar‑se a padrões distintos de transmissibilidade e manifestação clínica: a linhagem NiV-B está associada, com maior frequência, a maior acometimento respiratório e a taxas de letalidade mais elevadas, bem como a maior ocorrência de transmissão pessoa–pessoa. Estudos recentes de filodinâmica mostram, ainda, uma diversidade crescente de henipavírus “semelhantes ao Nipah” em morcegos e pequenos mamíferos, o que reforça a necessidade de vigilância genômica contínua e de monitoramento de eventuais mudanças que possam aumentar o potencial de adaptação ao ser humano.
A estabilidade ambiental do vírus Nipah é limitada fora do hospedeiro, como esperado para vírus envelopados, sendo sensível a detergentes, solventes lipídicos e desinfetantes usuais para uso hospitalar, incluindo compostos clorados e amônia quaternária, o que tem implicações diretas para as rotinas de limpeza e desinfecção em serviços de saúde. Em contrapartida, o vírus pode permanecer viável por algum tempo em secreções orgânicas e superfícies úmidas, sobretudo em condições de baixa temperatura, favorecendo sua detecção em secreções respiratórias, urina e em ambientes próximos a casos graves, como demonstrado em surtos na Ásia. Esse conjunto de características virológicas explica, em grande medida, o perfil de alta gravidade clínica, potencial de transmissão respiratória, necessidade de biossegurança elevada em laboratórios (tipicamente nível de biossegurança 4 para manipulação de vírus vivo) e relevância do Nipah para o planejamento de medidas de prevenção e controle de infecções em hospitais e demais serviços de saúde.
3. Reservatórios, hospedeiros intermediários e ecologia do vírus Nipah
O reservatório natural do vírus Nipah é constituído principalmente por morcegos frugívoros do gênero Pteropus, amplamente distribuídos na região Ásia‑Pacífico e em algumas áreas adjacentes, conhecidos popularmente como “morcegos‑raposa”. Estudos sorológicos e de detecção de RNA viral demonstraram a presença de anticorpos neutralizantes e fragmentos genômicos de Nipah em várias espécies de Pteropus, como Pteropus hypomelanus, Pteropus vampyrus e Pteropus medius, esta última associada a surtos em Bangladesh e na Índia. Esses animais parecem manter infecção assintomática ou subclínica, com eliminação intermitente de vírus pela urina, saliva e possivelmente fezes, favorecendo a contaminação de frutos, superfícies e água, especialmente em locais de alimentação e abrigo
Além dos Pteropus, estudos sorológicos identificaram anticorpos ou RNA de henipavírus relacionados em outras espécies de morcegos e pequenos mamíferos, inclusive na África, sugerindo a existência de um complexo ecossistema viral com múltiplos hospedeiros e uma diversidade de henipavírus ainda pouco caracterizada. Em alguns contextos, foram descritos henipavírus “semelhantes ao Nipah” em musaranhos e roedores, mas até o momento esses vírus não foram implicados de forma consistente em quadros humanos de doença, ainda que representem um reservatório potencial para futuras emergências. Essa distribuição ecológica ampla reforça o caráter global da ameaça representada pelos henipavírus, ainda que, na prática, os surtos humanos por Nipah permaneçam concentrados em regiões específicas da Ásia.
Os hospedeiros intermediários desempenham papel central em alguns cenários de transmissão, ao amplificar a carga viral e aproximar o agente de populações humanas. No surto da Malásia e Singapura (1998–1999), suínos criados em sistemas intensivos funcionaram como hospedeiros de amplificação, infectando trabalhadores rurais e funcionários de abatedouros; a proximidade entre pomares e granjas, com morcegos alimentando‑se nas árvores frutíferas acima das pocilgas, favoreceu a transmissaõ de morcegos para suínos e destes para humanos. Em surtos nas Filipinas, equinos atuaram como hospedeiros intermediários, com transmissão para indivíduos envolvidos no abate e na manipulação de carne de animais doentes, além de casos em consumidores de carne de cavalo. Sorologia positiva para Nipah foi descrita ainda em cães, gatos, bovinos e caprinos de áreas afetadas, sugerindo múltiplas oportunidades de infecção, embora, na maioria desses animais, não se observe papel claramente demonstrado na transmissão para humanos.
Do ponto de vista ecológico, a emergência e reemergência do Nipah está fortemente associada a alterações ambientais. Estudos filogeográficos sugerem que o vírus é antigo em morcegos, e que sua “emergência” recente como patógeno humano decorre, sobretudo, de mudanças no uso da terra, desmatamento, fragmentação de habitats e expansão agrícola que aproximam morcegos, animais domésticos e pessoas. A perda de fontes naturais de alimento e de locais de abrigo leva as colônias de Pteropus a se deslocarem para áreas periurbanas e rurais intensamente ocupadas, aumentando a probabilidade de contato com plantações, granjas e assentamentos humanos. Em Bangladesh, por exemplo, a prática cultural de coletar seiva de tamareira (Phoenix sylvestris) em recipientes abertos, durante a noite, oferece oportunidade para que morcegos se alimentem ou urinem dentro dos coletores, contaminando a seiva posteriormente consumida crua ou fermentada por humanos.
Esse componente comportamental e cultural é central para compreender a ecologia do Nipah. Em diversos surtos de Bangladesh e Índia, análises de casos e controles identificaram o consumo de seiva de palmeira crua como principal fator de risco para infecção, ao lado de práticas como subir em árvores frequentadas por morcegos, manipular animais doentes e participar de rituais funerários com contato intenso com secreções de pacientes. Adicionalmente, a sazonalidade das colheitas de seiva e o regime climático (temperaturas mais baixas no inverno) influenciam a intensidade do contato entre morcegos e coletores de seiva, explicando a concentração de casos em determinados meses do ano. Esses achados levaram à proposição de medidas simples, como o uso de coberturas de bambu nos recipientes de coleta, capazes de reduzir a contaminação da seiva por morcegos, ilustrando como intervenções ecológicas e culturais podem ser decisivas na prevenção de eventos de disseminação.
Para os profissionais de saúde e para as CCIH, compreender essa rede ecológica — que envolve reservatórios silvestres, hospedeiros intermediários, práticas de manejo animal, hábitos alimentares e dinâmica ambiental — é essencial para interpretar o risco de introdução do Nipah em novas áreas e para planejar ações de vigilância integrada no marco do conceito “One Health”. Embora o Brasil não abrigue espécies de Pteropus, compartilha com outros países problemas como desmatamento, expansão agrícola e contato estreito entre fauna silvestre, animais de produção e populações humanas, o que reforça a necessidade de monitorar patógenos emergentes em diferentes grupos de morcegos e outros mamíferos, bem como de desenvolver capacidade de resposta rápida em caso de suspeita de introdução do vírus Nipah por viajantes ou por rotas comerciais.
4. Epidemiologia das infecções por vírus Nipah
A epidemiologia do vírus Nipah é marcada por surtos esporádicos, de alta letalidade, concentrados em alguns países da Ásia, com diferentes padrões de transmissão dependendo do contexto ecológico e social. Segundo Gurley e Lee, o primeiro grande surto foi descrito em 1998–1999 na Malásia, com casos em criadores de suínos e trabalhadores de abatedouros em Singapura, totalizando cerca de 276 casos humanos e letalidade aproximada de 38%, associada a contato intenso com porcos infectados. A identificação do vírus, inicialmente confundido com encefalite japonesa, ocorreu após isolamento de um paramixovírus em líquido cefalorraquidiano, posteriormente denominado Nipah em referência à vila onde vivia o primeiro paciente do qual o agente foi isolado.
Após esse surto inicial, sucessivos episódios foram descritos em Bangladesh a partir de 2001, quase todos ocorrendo entre dezembro e maio, com características epidemiológicas distintas: ausência de hospedeiro intermediário identificado na maioria dos eventos, forte associação ao consumo de seiva de palmeira crua e maior frequência de transmissão pessoa–pessoa em ambiente comunitário e hospitalar. Nesses surtos, as taxas de letalidade foram sistematicamente mais elevadas, frequentemente superiores a 70%, com alguns episódios apresentando letalidade acima de 80–90%, sobretudo quando relacionados à ingestão de seiva contaminada. Estudos de vigilância sentinela em hospitais de Bangladesh, com testagem sistemática de pacientes com encefalite aguda na estação de risco, mostraram que o número de transmissão de morcegos para humanos varia de ano a ano, possivelmente em função de flutuações na infecção em colônias de morcegos, disponibilidade de alimento e comportamento humano.
Na Índia, surtos foram descritos inicialmente em estados que fazem fronteira com Bangladesh, com padrão semelhante ao observado naquele país, e, posteriormente, no estado de Kerala, no sul da Índia. Em Kerala, surtos importantes ocorreram em 2018 e 2021, com número relativamente pequeno de casos, porém com letalidade elevada e destaque para a transmissão nosocomial e comunitária: no episódio de 2018, por exemplo, 23 casos foram confirmados, com 21 óbitos, e grande parte dos infectados eram familiares e profissionais de saúde expostos ao caso índice em ambiente hospitalar. Em 2023 e 2025, novos eventos em Kerala e em outros estados indianos reforçaram a percepção de que o Nipah se comporta como um patógeno reemergente, capaz de gerar surtos limitados, porém graves, com forte impacto na organização dos serviços de saúde locais.
A experiência das Filipinas ilustra outro padrão epidemiológico, com papel relevante de animais intermediários: em 2014, um surto envolveu equinos e humanos em áreas rurais, com transmissão associada a contato com cavalos doentes, participação em abate e consumo de carne de cavalo, além de casos atribuídos à transmissão pessoa–pessoa. Esse episódio reforçou a importância de se considerar múltiplas espécies domésticas como potenciais hospedeiros de amplificação em diferentes ecossistemas, articulando vigilância veterinária e humana. Apesar de relatos sorológicos em animais de outras regiões, até o momento a maior parte da carga de doença humana por Nipah permanece concentrada em Bangladesh, Índia, Malásia e, em menor escala, nas Filipinas e países vizinhos.
As análises de transmissibilidade mostram que o número reprodutivo efetivo (R) médio do vírus Nipah em surtos documentados é inferior a 1, o que ajuda a explicar por que os surtos tendem a ser autolimitados; entretanto, esse valor médio esconde grande heterogeneidade, com ocorrência de eventos de “superdisseminação”. Estudos de rastreamento de contatos em Bangladesh demonstraram que apenas uma pequena proporção de casos infecta outras pessoas, mas alguns indivíduos podem gerar múltiplos casos secundários, em cadeias com até cinco gerações de transmissão, especialmente quando há intenso comprometimento respiratório e ausência de precauções adequadas. A proporção de casos atribuíveis à transmissão pessoa–pessoa varia entre surtos, mas em alguns episódios na Índia e em Bangladesh mais de um terço dos pacientes foram infectados por contato próximo com um caso conhecido, frequentemente em ambiente domiciliar ou hospitalar.
Em termos globais, a OMS classifica o vírus Nipah como um patógeno prioritário em sua lista de doenças com potencial epidêmico que exigem pesquisa acelerada, ao lado de agentes como MERS, Lassa e a “doença X”. Documentos recentes de alerta epidemiológico descrevem o Nipah como ameaça regional com relevante risco internacional, ressaltando que a combinação de reservatório amplamente distribuído, alta letalidade, múltiplas rotas de transmissão e ausência de vacinas ou terapias específicas torna esse vírus um candidato importante para futuros cenários de emergência de saúde pública. Países fora da área endêmica, inclusive o Brasil, são considerados em risco de introdução por meio de viagens internacionais e deslocamentos de pessoas expostas, o que justifica sua inclusão em agendas de vigilância, preparação de serviços de saúde e formação de profissionais em controle de infecções.
5. Fatores de risco e modos de transmissão
Os modos de transmissão do vírus Nipah são diversos e refletem a interação entre reservatório, hospedeiros intermediários, ambiente e comportamento humano. De maneira geral, distinguem‑se três grandes vias: transmissão animal–humano, transmissão ambiental/alimentar e transmissão pessoa–pessoa, com pesos diferentes a depender do cenário. A via animal–humano foi dominante no surto inicial da Malásia, em que o contato intenso e prolongado com suínos infectados, por meio de manejo, alimentação, limpeza de pocilgas e procedimentos em abatedouros, representou o principal fator de risco para doença em humanos. Nesses contextos, a inalação de aerossóis produzidos por animais infectados, o contato com secreções respiratórias e a manipulação de tecidos infectados durante o abate foram considerados mecanismos relevantes de transmissão.
A via ambiental/alimentar assume papel central nos surtos de Bangladesh e parte dos surtos na Índia, nos quais o consumo de seiva de palmeira crua, coletada em recipientes abertos durante a noite, emergiu como principal fator de risco em estudos caso‑controle. Morcegos frugívoros, ao visitarem as árvores para se alimentar, podem lamber a superfície de corte do tronco, urinar ou deixar fragmentos de frutos parcialmente ingeridos dentro dos recipientes, contaminando a seiva com partículas virais. A ingestão posterior dessa seiva, muitas vezes em eventos sociais ou como bebida tradicional, foi fortemente associada à ocorrência de casos e surtos, e intervenções simples, como cobrir os coletores com telas de bambu, mostraram redução significativa na contaminação e, potencialmente, no risco de transmissão
A transmissão pessoa–pessoa, especialmente por gotículas e contato próximo com secreções, é um componente crítico da epidemiologia do Nipah, sobretudo em contextos de assistência domiciliar e hospitalar. Estudos em Bangladesh e na Índia documentaram surtos em que grande parte dos casos secundários eram familiares que cuidavam de pacientes com encefalite ou doença respiratória grave, realizando higiene, alimentação ou manobras de conforto sem proteção adequada, frequentemente em ambientes fechados e com ventilação precária. Em alguns desses episódios, o ato de limpar secreções respiratórias, compartilhar utensílios e dormir no mesmo leito foi claramente associado à infecção, e relatos descrevem cadeias de transmissão envolvendo múltiplas gerações de casos.
No ambiente hospitalar, a transmissão nosocomial está diretamente ligada à exposição a secreções respiratórias, procedimentos geradores de aerossóis (intubação, aspiração, ventilação não invasiva) e falhas no uso de precauções padrão e de gotículas, muitas vezes em unidades superlotadas e com baixa disponibilidade de EPIs. No surto de Kerala em 2018, por exemplo, profissionais de saúde foram infectados após atendimento de pacientes em unidades de emergência e UTI, antes da suspeita de Nipah, o que atrasou a implementação de medidas de isolamento. Estudos de ambiente em hospitais de Bangladesh detectaram RNA de Nipah em superfícies próximas aos leitos de pacientes, embora a contribuição real de fômites na transmissão permaneça menos clara que a das gotículas e aerossóis produzidos por tosse e procedimentos.
Diversos fatores de risco individuais e contextuais foram associados a maior probabilidade de infecção. Contatos que permanecem por mais de 12 horas com o paciente, que realizam cuidados diretos (como higiene, alimentação, troca de roupas) e que não higienizam as mãos após o contato apresentam risco significativamente maior de adoecimento, ao passo que a lavagem das mãos com água e sabão mostrou efeito protetor em investigações de surtos em Bangladesh. Pacientes com envolvimento respiratório intenso e altos títulos virais em secreções parecem ser os principais “superdisseminadores”, capazes de originar múltiplos casos secundários, muitas vezes em contextos de assistência hospitalar ou domiciliar sem estrutura para isolamento adequado.
É importante destacar que, embora não haja relatos de casos autóctones no Brasil, diversos fatores presentes no contexto nacional — como intensa mobilidade internacional, existência de cadeias produtivas com alta densidade animal, rotinas de cuidados domiciliares e desafios na adesão a precauções de transmissão em serviços de saúde — criam condições nas quais a introdução do Nipah poderia, em tese, encontrar oportunidade de transmissão. Para alunos de pós‑graduação em controle de infecções e segurança do paciente, compreender esses fatores de risco e modos de transmissão é fundamental para planejar, de forma antecipatória, protocolos de triagem, isolamento, manejo de casos suspeitos e proteção de profissionais, mesmo antes que o agente se torne uma realidade em território nacional.
6. Patogênese e resposta imune
A patogênese da infecção pelo vírus Nipah decorre da combinação de tropismo por células endoteliais e neurônios, elevada capacidade de replicação em tecidos críticos e estratégias eficientes de evasão da resposta imune inata. Após a inoculação – seja por via respiratória, por exposição a secreções ou por via oral por meio de alimentos contaminados – o vírus inicialmente infecta células epiteliais e endoteliais locais, replicando‑se no trato respiratório ou no trato digestivo, com subsequente disseminação hematogênica. A presença dos receptores efrina‑B2 e efrina‑B3 em endotélio arterial, neurônios e outros tecidos de alta importância funcional explica a ampla distribuição de lesões vasculares e a propensão à encefalite e à falência de múltiplos órgãos observadas em casos graves.
Um aspecto central da patogênese é a vasculite sistêmica mediada pelo vírus, com infecção direta de células endoteliais e consequente dano à parede vascular, edema, trombose e micro‑hemorragias. Estudos histopatológicos em pacientes e em modelos animais demonstram necrose fibrinoide de vasos de pequeno e médio calibre, associada a microinfartos em diversos órgãos, particularmente no cérebro, pulmões e miocárdio. No sistema nervoso central, esse comprometimento vascular se combina à infecção direta de neurônios e células da glia, resultando em múltiplas áreas de necrose e desmielinização, que se correlacionam com as lesões multifocais observadas em exames de neuroimagem, frequentemente sem grande efeito de massa, mas com dispersão ampla em substância branca e cinzenta.
A resposta imune inata ao Nipah é modulada por proteínas virais que interferem na sinalização de interferons tipo I, como V e W, derivadas do gene P por edição co‑transcricional. Essas proteínas interagem com componentes da via JAK‑STAT, prejudicando a transcrição de genes estimulados por interferon e reduzindo a capacidade do hospedeiro de montar uma resposta antiviral rápida e eficaz. Em paralelo, há ativação de mediadores inflamatórios e liberação de citocinas pró‑inflamatórias, contribuindo para dano tecidual e para a síndrome de resposta inflamatória sistêmica, sobretudo nos casos mais graves. Esse desequilíbrio entre evasão da resposta antiviral e hiper‑inflamação tecidual é um traço compartilhado com outros henipavírus, situando o Nipah dentro do grupo de vírus capazes de desencadear quadros de “tempestade de citocinas” em determinados contextos.
A resposta imune adaptativa, com produção de anticorpos neutralizantes e ativação de linfócitos T específicos, desempenha papel importante no controle da infecção em sobreviventes, embora o conhecimento detalhado sobre cinética e duração dessa resposta ainda seja limitado. Estudo sorológico em sobreviventes de surtos na Malásia demonstrou a persistência de anticorpos por meses a anos, com evidências de memória imunológica, ainda que não se saiba com precisão em que medida isso protege contra reinfecções. A ocorrência de encefalite tardia e de recaídas em alguns pacientes sugere que o vírus pode permanecer em estado de persistência em determinados sítios, possivelmente em neurônios ou em células do sistema nervoso central, reativando‑se após intervalo de meses ou anos e provocando novo episódio de lesão inflamatória.
A encefalite de início tardio, descrita inclusive mais de uma década após a exposição inicial, ilustra a complexidade da interação entre o vírus e o sistema nervoso. Em tais casos, exames de imagem revelam padrão de lesões diferente daquele observado na fase aguda, com focos mais confluentes em córtex e substância branca, sugerindo mecanismo patogênico parcialmente distinto, possivelmente envolvendo resposta imune mediada por mecanismos de hipersensibilidade ou autoimunidade em adição à replicação viral residual. Esses achados reforçam que a infecção por Nipah não é apenas um evento agudo, mas pode resultar em sequelas neurológicas crônicas, desordens cognitivas e transtornos funcionais que impactam significativamente a qualidade de vida dos sobreviventes, o que precisa ser considerado na organização de linhas de cuidado e reabilitação.
7. Quadro clínico e curso da doença em humanos
O quadro clínico da infecção pelo vírus Nipah varia de infecções assintomáticas ou paucissintomáticas a formas graves de encefalite e síndrome respiratória aguda, com letalidade elevada. Em geral, o período de incubação varia de 4 a 14 dias, podendo raramente se estender para além de 20 dias, a depender da via e da carga de exposição; estudos em surtos em Bangladesh sugerem que casos adquiridos por ingestão de seiva contaminada tendem a apresentar início de sintomas em torno de uma semana após o contato, enquanto aqueles decorrentes de transmissão pessoa–pessoa podem ter incubação discretamente mais longa. Embora infecções subclínicas tenham sido documentadas em alguns contextos, especialmente no surto da Malásia, a maioria dos casos identificados em cenários de vigilância ativa apresenta quadro sintomático, refletindo a predominância de formas graves entre aqueles que procuram atendimento.
A fase inicial é tipicamente caracterizada por sintomas inespecíficos, como febre, mal‑estar, cefaleia, mialgias, náuseas e vômitos, que podem ser indistinguíveis de um quadro viral comum. Em muitos pacientes, essa fase evolui rapidamente para comprometimento neurológico, com rebaixamento do nível de consciência, confusão, convulsões, sinais focais e mioclonias, compondo o quadro de encefalite aguda. Achados como hipertensão, taquicardia, reflexos patológicos e alterações de tronco encefálico (como alterações de motricidade ocular e padrão respiratório) foram descritos em séries de casos da Malásia, refletindo o predomínio de lesões em regiões profundas do encéfalo. A progressão para coma e morte pode ocorrer em poucos dias após o início dos sintomas neurológicos, especialmente quando não há suporte intensivo disponível.
As manifestações respiratórias assumem papel particularmente importante em surtos de Bangladesh e Índia, com altas proporções de pacientes apresentando tosse, dispneia, hipoxemia e, em alguns casos, quadro de síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA). Em tais contextos, a presença de pneumonia e insuficiência respiratória não apenas aumenta a gravidade clínica, mas também está associada a maior risco de transmissão, dado o aumento da eliminação de vírus em secreções respiratórias e a necessidade de procedimentos geradores de aerossóis em ambiente hospitalar. Em contraste, no surto da Malásia, manifestações respiratórias foram menos frequentes, o que possivelmente contribuiu para menor taxa de transmissão pessoa–pessoa e menor impacto nos serviços de saúde em termos de contaminação ocupacional.
Além de encefalite e comprometimento respiratório, muitos pacientes apresentam sinais de envolvimento multissistêmico, incluindo hipotensão, taquicardia, sinais de choque, disfunção renal e hepática e manifestações hemorrágicas, condizentes com a vasculite sistêmica e a falência de múltiplos órgãos descritas em estudos patológicos. Sobreviventes frequentemente relatam sequelas neurológicas, como déficits motores, alterações de memória, dificuldades de concentração, alterações de comportamento e epilepsia de difícil controle, que podem persistir por anos e demandar reabilitação prolongada. Em séries de acompanhamento de pacientes na Malásia e em Bangladesh, foi descrita também a ocorrência de encefalite tardia ou de recaída, com novo episódio de sintomas neurológicos após período de aparente recuperação, reforçando a necessidade de seguimento longitudinal dos pacientes que sobreviveram à fase aguda.
As taxas de letalidade variam de acordo com o contexto epidemiológico e o acesso a cuidados intensivos, mas, em média, situam‑se entre 40% e 75%, podendo atingir valores superiores a 90% em alguns surtos. No surto de Kerala em 2018, por exemplo, a letalidade foi superior a 90%, com apenas dois sobreviventes entre mais de vinte casos confirmados, enquanto, na Malásia, a proporção de óbitos foi em torno de um terço dos casos. Fatores associados a pior prognóstico incluem idade mais avançada, presença de comprometimento respiratório grave, rebaixamento importante do nível de consciência na admissão e atraso no acesso a suporte intensivo. Para o profissional de saúde brasileiro, é fundamental reconhecer que a apresentação clínica do Nipah, especialmente em sua fase inicial, é pouco específica e pode mimetizar outras encefalites virais e pneumonias graves, exigindo alto grau de suspeição em pacientes com histórico epidemiológico compatível, em especial viajantes vindos de áreas com transmissão recente.
8. Diagnóstico laboratorial e diagnóstico diferencial
O diagnóstico da infecção pelo vírus Nipah fundamenta‑se na combinação entre critérios clínico‑epidemiológicos e métodos laboratoriais específicos, visto que o quadro clínico, por si só, é indistinguível de outras encefalites virais ou pneumonias graves. Em contextos de surto ou em países com transmissão conhecida, recomenda‑se considerar como caso suspeito indivíduos com febre aguda associada a sintomas neurológicos (encefalite, convulsões, alteração do nível de consciência) ou respiratórios graves, com vínculo epidemiológico a área afetada, exposição a animais potencialmente infectados ou contato próximo com caso confirmado ou provável. Em países sem transmissão autóctone, como o Brasil, o antecedente de viagem recente a áreas endêmicas ou com surto ativo de Nipah é elemento central na definição de caso suspeito e na indicação de medidas de isolamento e investigação laboratorial.
O método de escolha para confirmação laboratorial na fase aguda é a detecção de RNA viral por RT‑PCR em tempo real, utilizando amostras de trato respiratório (swab de nasofaringe ou orofaringe, aspirado traqueal, lavado broncoalveolar), sangue, urina ou líquido cefalorraquidiano (LCR), conforme a apresentação clínica. Em pacientes com quadro predominantemente respiratório, amostras de vias aéreas baixas tendem a apresentar maior sensibilidade, enquanto, em encefalite, o LCR e o sangue podem ser úteis, sobretudo nas fases iniciais. A coleta idealmente deve ser realizada o mais precocemente possível após o início dos sintomas, mantendo‑se, contudo, a possibilidade de repetição quando a suspeita clínica é forte e o primeiro exame é negativo, especialmente em contexto de surto.
Testes sorológicos (ELISA para IgM e IgG, testes de neutralização) têm papel importante, sobretudo na confirmação retrospectiva de casos, na investigação de contatos e em inquéritos sorológicos, mas seu uso na fase aguda é limitado pela janela imunológica e pela necessidade de laboratórios com elevado nível de biossegurança para manipulação de antígenos e soros. A detecção de IgM específica sugere infecção recente, enquanto a soroconversão ou aumento de títulos de IgG entre amostras pareadas indica exposição prévia; em alguns surtos, esses métodos permitiram identificar infecções assintomáticas ou subclínicas em contatos próximos. Métodos como isolamento viral em cultura, microscopia eletrônica e imunohistoquímica são reservados a centros de referência de biossegurança nível 4, por envolverem manipulação direta de vírus viável e tecidos altamente infectantes.
Medidas de biossegurança em laboratórios são essenciais, dado o alto risco associado ao manuseio de amostras potencialmente infectadas com Nipah. Orientações internacionais recomendam que a manipulação de material clínico seja realizada, no mínimo, em condições de nível de biossegurança 2 com práticas reforçadas para etapas pré‑analíticas, enquanto isolamento viral, cultura e procedimentos que gerem aerossóis ou altas concentrações de vírus sejam restritos a instalações de nível 4. Isso implica fluxo seguro de amostras, uso de EPIs adequados, cabines de segurança biológica e protocolos claros de transporte, armazenamento e descarte de resíduos, aspectos que devem ser integrados aos planos de contingência de laboratórios de referência nacionais e regionais.
O diagnóstico diferencial do Nipah inclui diversas etiologias que cursam com encefalite viral aguda, como herpesvírus, vírus da encefalite japonesa, arboviroses (incluindo algumas encefalites transmitidas por mosquitos), outros paramixovírus e, em determinados contextos, vírus da raiva, bem como causas não infecciosas de encefalopatia. Nos casos com proeminência respiratória, o quadro pode mimetizar influenza grave, infecção por SARS‑CoV‑2, outros vírus respiratórios (como vírus sincicial respiratório, metapneumovírus, parainfluenza) e pneumonia bacteriana grave, exigindo abordagem diagnóstica ampla, especialmente na fase inicial. O reconhecimento de padrões epidemiológicos (surtos localizados, vínculo com seiva de palmeira, exposição a morcegos ou suínos, transmissão em clusters familiares e hospitalares) pode orientar a suspeita precoce e a priorização de testes específicos, evitando atrasos na implementação de medidas de isolamento em serviços de saúde.
9. Manejo clínico e terapêutico
Até o momento, não existe terapia antiviral específica amplamente disponível e comprovadamente eficaz para o tratamento da infecção por vírus Nipah em humanos, sendo o manejo clínico predominantemente de suporte, voltado à estabilização hemodinâmica, ao suporte respiratório e ao manejo de complicações neurológicas. Diretrizes e relatos de surtos enfatizam a importância de internação precoce em unidade hospitalar, com monitorização rigorosa de sinais vitais, nível de consciência e função respiratória, especialmente em pacientes com sinais de encefalite ou insuficiência respiratória iminente. A disponibilidade de leitos de terapia intensiva, ventilação mecânica e suporte avançado de vida tem impacto direto sobre a mortalidade, particularmente em cenários de letalidade de 40–75%.
Diversos antivirais foram avaliados em modelos animais e, de forma limitada, em humanos, com resultados ainda inconclusivos. A ribavirina foi utilizada em alguns surtos na Malásia e em Bangladesh, com relatos observacionais sugerindo possível benefício, mas sem estudos controlados que confirmem sua eficácia, e com incertezas quanto à dose e ao momento ideal de administração. Mais recentemente, o remdesivir demonstrou eficácia em modelos de primatas não humanos infectados com Nipah, reduzindo carga viral e melhorando desfechos, o que motivou discussões sobre seu potencial uso em humanos em contextos de pesquisa clínica sob protocolos estritos. No entanto, não há, até a data, recomendação rotineira para uso desses antivirais fora de estudos clínicos, e a terapia de suporte permanece o pilar do manejo.
A imunoterapia com anticorpos monoclonais emerge como uma das estratégias mais promissoras. O anticorpo monoclonal humano m102.4, direcionado contra a glicoproteína de ligação dos henipavírus, mostrou proteção significativa em modelos animais, quando administrado de forma precoce após a exposição, prevenindo doença clínica e morte. Estudos de fase I em humanos evidenciaram perfil de segurança aceitável, abrindo caminho para seu uso potencial em situações de pós‑exposição ou tratamento precoce, embora o acesso permaneça restrito a contextos experimentais ou de uso em surtos selecionados. Outras moléculas em desenvolvimento incluem anticorpos direcionados a diferentes epítopos da superfície viral e combinações de imunoterapia com antivirais, compondo um campo de pesquisa dinâmico em preparação para futuras emergências.
O suporte clínico inclui medidas gerais de controle de pressão intracraniana, tratamento de convulsões, manejo de distúrbios eletrolíticos e hemodinâmicos, além de cuidados com ventilação e oxigenação. Em pacientes com SDRA, recomenda‑se aplicação de estratégias ventilatórias protetoras, semelhante ao manejo de outras causas de insuficiência respiratória grave, com atenção a possíveis limitações de recursos em contextos endêmicos. Em paralelo, medidas de prevenção de infecções associadas à assistência, como cuidados com dispositivos invasivos, profilaxia de tromboembolismo venoso e manejo adequado de nutrição e mobilização, são fundamentais para reduzir complicações secundárias em pacientes com internações prolongadas.
Sobreviventes da fase aguda frequentemente necessitam de acompanhamento prolongado, com foco em reabilitação neurológica, física e cognitiva, dada a alta frequência de sequelas. Estudos de seguimento apontam déficit motor, distúrbios de memória e atenção, alterações de comportamento e epilepsia como desfechos relativamente comuns, impactando a reintegração social e laboral. Nesse contexto, programas de reabilitação multidisciplinar, envolvendo neurologia, fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e psicologia, devem ser considerados parte integrante da resposta em saúde, especialmente em regiões com surtos recorrentes. Do ponto de vista ético, o manejo de Nipah coloca questões relevantes, como alocação de leitos de UTI em contextos de recursos limitados, uso de terapias experimentais em situações de alta letalidade e proteção de profissionais de saúde, temas que precisam ser discutidos em comitês de ética e incorporados em planos de resposta a emergências.
10. Vigilância, notificação e resposta a surtos
A vigilância da infecção pelo vírus Nipah exige abordagem integrada, combinando vigilância clínica de síndromes neurológicas e respiratórias graves, vigilância laboratorial especializada e monitoramento de eventos em animais, em uma perspectiva “One Health”. Em países endêmicos, como Bangladesh e Índia, foram implementados sistemas de vigilância sentinela em hospitais de referência, com testagem sistemática de pacientes com encefalite aguda durante períodos de maior risco sazonal, o que permitiu identificar tanto surtos quanto casos esporádicos e monitorar mudanças no padrão de transmissão ao longo dos anos. Documentos recentes de alerta epidemiológico reforçam a importância de incluir o Nipah em listas de doenças de notificação imediata em áreas de risco, garantindo fluxo ágil de informação entre unidades de saúde, laboratórios de referência e autoridades sanitárias nacionais.
A resposta a surtos se inicia com a definição de caso suspeito e provável, seguida da notificação rápida às autoridades competentes e da investigação epidemiológica detalhada, incluindo rastreamento de contatos (“contact tracing”) e identificação de possíveis fontes de exposição (animais, alimentos, ambientes). Em surtos em Kerala e Bangladesh, equipes de campo estruturadas foram responsáveis por mapear cadeias de transmissão, classificar contatos conforme nível de risco, orientar isolamento domiciliar, monitorar diariamente sinais e sintomas e decidir sobre necessidade de encaminhamento para avaliação hospitalar. Essa abordagem é particularmente relevante em contextos de recursos limitados, nos quais a identificação rápida de “superdisseminadores” e a interrupção de cadeias de transmissão podem ser decisivas para limitar a extensão do surto.
Medidas de contenção em nível comunitário podem incluir criação de zonas de contenção (com restrição de deslocamentos), suspensão temporária de atividades escolares e eventos de massa, controle de visitas a serviços de saúde e divulgação de recomendações específicas para populações de risco, como coletores de seiva de palmeira e trabalhadores rurais. A experiência em Kerala mostrou que intervenções rápidas, incluindo fechamento de escolas, triagem em larga escala, reforço de precauções em hospitais e comunicação intensa com a população, contribuíram para limitar o número de casos em surtos recentes, apesar da alta letalidade. Em paralelo, ações coordenadas de vigilância veterinária, com monitoramento de animais domésticos em áreas afetadas, inspeção de criadouros e orientação a produtores rurais, integram o arcabouço de resposta, especialmente em contextos com suspeita de hospedeiros intermediários.
A comunicação de risco é elemento central para o sucesso da resposta. Organismos como OMS e CDC enfatizam a necessidade de mensagens claras, baseadas em evidências, culturalmente adaptadas e difundidas de forma transparente, para evitar pânico, combater desinformação e promover adesão às recomendações. No caso do Nipah, isso envolve esclarecer à população a importância de evitar consumo de seiva de palmeira crua em áreas afetadas, adotar precauções ao cuidar de doentes em casa, buscar atendimento precoce em caso de sintomas e respeitar medidas de isolamento e quarentena. A experiência de comunicação em Kerala e Bangladesh pode servir de referência para outros países, incluindo o Brasil, que devem incluir o Nipah em seus planos de comunicação para emergências de saúde pública, mesmo na ausência de transmissão autóctone.
Para sistemas de saúde como o brasileiro, a preparação envolve definir fluxos de notificação imediata, designar serviços de referência para atendimento de casos suspeitos importados, treinar equipes de vigilância hospitalar e laboratorial e articular protocolos com instâncias como Anvisa e secretarias de saúde. A inclusão de cenários de Nipah em planos de preparação para emergências, exercícios de simulação e programas de educação permanente contribui para que profissionais de CCIH, Núcleos de Segurança do Paciente e equipes de vigilância epidemiológica estejam aptos a reconhecer e manejar casos suspeitos, bem como a implementar rapidamente medidas de contenção em serviços de saúde.
11. Prevenção, controle de infecções e segurança do paciente em serviços de saúde
Em serviços de saúde, o vírus Nipah deve ser manejado como um agente de alto risco, com potencial de transmissão por gotículas, contato e, em determinadas situações, aerossóis, exigindo a aplicação rigorosa de medidas de prevenção e controle de infecções. Organismos internacionais, como OMS e CDC, recomendam que todo paciente com suspeita de Nipah seja atendido sob precauções padrão associadas a precauções de gotículas e contato, com uso de máscara cirúrgica, proteção ocular, avental e luvas, além de reforço de higiene de mãos com preparação alcoólica ou água e sabão. Em situações que envolvam procedimentos geradores de aerossóis (intubação, aspiração, broncoscopia, ventilação não invasiva), recomenda‑se o uso de proteção respiratória de maior eficiência (por exemplo, respiradores tipo N95 ou equivalentes), em ambiente com ventilação adequada.
O risco ocupacional para profissionais de saúde ficou evidente em diversos surtos, especialmente em Bangladesh, Índia e Filipinas, nos quais médicos, enfermeiros e outros membros da equipe foram infectados após contato próximo com pacientes antes do reconhecimento da etiologia. Relatos de surtos hospitalares mostram que fatores como superlotação, ausência de isolamento de casos suspeitos, uso incorreto ou indisponibilidade de EPIs e prática insuficiente de higiene de mãos contribuíram para a disseminação intrahospitalar. Para reduzir esse risco, é fundamental estruturar protocolos de triagem precoce de pacientes com síndrome febril grave associada a sintomas neurológicos ou respiratórios e histórico epidemiológico sugestivo, direcionando‑os rapidamente para áreas de isolamento, de preferência quartos privativos com ventilação adequada ou, em sua ausência, áreas de coorte com separação física e controle de fluxo.
As rotinas de limpeza e desinfecção ambiental têm papel importante, ainda que o principal modo de transmissão seja respiratório. Estudos de ambiente em hospitais com casos de Nipah detectaram RNA viral em superfícies próximas aos leitos, embora a infectividade real dessas partículas não esteja completamente elucidada. Considerando a natureza envelopada do vírus, recomenda‑se o uso de desinfetantes de amplo espectro aprovados para uso hospitalar (como hipoclorito de sódio, compostos de amônio quaternário ou outros produtos com eficácia comprovada contra vírus envelopados), seguindo as orientações de fabricantes e diretrizes de autoridades sanitárias, como Anvisa e organismos internacionais. A frequência de limpeza deve ser aumentada em áreas de isolamento, com atenção especial a superfícies de alto toque, equipamentos compartilhados e banheiros.
O manejo de resíduos, roupas e materiais potencialmente contaminados deve seguir as normas de resíduos de serviços de saúde para agentes de alto risco, com segregação na fonte, acondicionamento adequado, transporte seguro interno e externo e tratamento conforme regulamentação vigente. A paramentação e desparamentação de EPIs constituem momentos críticos para prevenção de exposição ocupacional, devendo ser objeto de treinamento específico, supervisão e, quando possível, uso de check‑lists ou observadores em situações de maior risco, conforme boas práticas preconizadas por entidades como AORN, AAMI, SOBECC e SOBRASP.
Do ponto de vista de cultura de segurança do paciente, a preparação para eventual atendimento de casos suspeitos de Nipah deve ser incorporada aos programas de educação permanente, utilizando metodologias ativas e simulações realísticas, inclusive com o apoio de materiais produzidos por instituições especializadas como o Instituto CCIH+ e seu canal de formação continuada. A experiência da pandemia de COVID‑19 mostrou que lacunas em treinamento, comunicação interna e suporte organizacional aumentam o risco de infecção entre profissionais e pacientes, e essas lições são diretamente aplicáveis ao cenário do Nipah. Para cursos de pós‑graduação em controle de infecções e segurança do paciente, como os ofertados no Brasil, discutir o Nipah como estudo de caso permite integrar conceitos de vigilância, biossegurança, gestão de crises, comunicação de risco e cuidado centrado no paciente, fortalecendo a capacidade dos serviços de responder a emergências biológicas de alta complexidade.
12. Vacinas e perspectivas em prevenção específica
O desenvolvimento de vacinas contra o vírus Nipah é considerado prioridade estratégica em agendas globais de preparação para pandemias, dadas a alta letalidade do agente e a ausência de terapias específicas amplamente disponíveis. Diversas plataformas vacinais vêm sendo estudadas em modelos animais, incluindo vacinas de subunidade baseadas na glicoproteína de superfície (RBP/G), vetores virais não replicantes (como adenovírus de chimpanzé – ChAdOx1), vetores replicantes (como vírus da estomatite vesicular recombinante – rVSV) e, mais recentemente, tecnologias de mRNA. Em modelos de roedores e primatas não humanos, várias dessas candidatas demonstraram induzir resposta imune robusta e proteção contra desafio letal, tanto na forma de imunização pré‑exposição quanto em regimes pós‑exposição precoce.
Entre as candidatas mais avançadas, destaca‑se a vacina de vetor adenoviral ChAdOx1‑Nipah, desenvolvida em colaboração com instituições acadêmicas e financiadores internacionais, que entrou em estudos clínicos de fase I e posteriormente em um ensaio de fase II para avaliar segurança e imunogenicidade em humanos adultos. Resultados iniciais em fase I sugeriram perfil de segurança aceitável e indução de resposta de anticorpos e células T específicos, abrindo caminho para estudos em populações de maior risco em países endêmicos. Outras abordagens, como vacinas de subunidade com adjuvantes modernos e vacinas de mRNA codificando glicoproteínas de Nipah, encontram‑se em estágios pré‑clínicos ou iniciais de avaliação clínica, compondo um portfólio diversificado de estratégias que podem ser acionadas rapidamente em cenários de surto.
Os desafios para a implementação de vacinas contra Nipah incluem a relativa raridade dos surtos e o número limitado de casos, que dificultam a realização de ensaios de eficácia clássicos em larga escala, além de questões logísticas e regulatórias relacionadas ao uso em contextos de emergência. Por essa razão, discute‑se a possibilidade de adotar desenhos de estudo adaptativos, uso de desfechos imunológicos como substitutos e aplicação de modelos de “licenciamento por regras adaptadas de animal” em algumas jurisdições, além de estratégias de vacinação em anel, semelhantes às utilizadas para Ebola, em que contatos e contatos de contatos de casos são vacinados rapidamente para conter a transmissão.
Em termos de estratégia de saúde pública, vacinas contra Nipah provavelmente seriam inicialmente direcionadas a grupos de maior risco em áreas endêmicas, como coletores de seiva de palmeira, trabalhadores rurais em regiões com colônias de Pteropus, profissionais de saúde de hospitais de referência e equipes de resposta rápida. A possibilidade de incorporar esses imunizantes em plataformas multivalentes, ou em programas mais amplos de preparação frente a patógenos prioritários, vem sendo discutida por iniciativas como a CEPI, com foco em acelerar a disponibilização de vacinas em futuras emergências. Para países não endêmicos, como o Brasil, o papel de uma eventual vacina contra Nipah poderia incluir proteção de equipes enviadas para missões internacionais e uso em casos de exposição ocupacional de alto risco, dependendo da disponibilidade e das diretrizes internacionais.
13. Implicações para a prática brasileira em controle de infecções e saúde pública
Embora não haja registro de casos autóctones de infecção por vírus Nipah no Brasil, o contexto de globalização, mobilidade aérea intensa e interconectividade dos sistemas de saúde coloca o país em posição de potencial risco para introdução de casos importados. Viajantes provenientes de áreas com surtos recentes na Ásia podem, em teoria, chegar ao país durante o período de incubação, desenvolvendo quadro de encefalite ou pneumonia grave em território nacional, o que torna essencial que profissionais de saúde e estruturas de vigilância estejam familiarizados com o agente, seus modos de transmissão e as medidas de contenção
Na perspectiva da vigilância em saúde, o Ministério da Saúde e as secretarias estaduais e municipais deveriam considerar a inclusão de critérios de suspeita de Nipah em protocolos de investigação de encefalites virais agudas em viajantes, em articulação com laboratórios de referência capazes de encaminhar amostras para centros internacionais com nível de biossegurança adequado, quando necessário. A experiência acumulada com a COVID‑19, febre amarela, sarampo e outras doenças emergentes demonstra a importância de fluxos de notificação claros e da integração entre vigilância epidemiológica, vigilância em serviços de saúde e vigilância laboratorial, com apoio de instâncias regulatórias como a Anvisa em pontos de entrada (portos, aeroportos e fronteiras).
Nos serviços de saúde, em particular em hospitais de médio e grande porte, a preparação para eventual atendimento de caso suspeito de Nipah passa por estruturas e práticas já recomendadas para outras infecções de alto risco: triagem rápida de pacientes com síndrome febril grave e história epidemiológica compatível, isolamento em quarto privativo ou área de coorte, implementação rigorosa de precauções padrão, de gotículas e de contato, reforço de higiene de mãos e uso racional de EPIs. A experiência e as diretrizes desenvolvidas para o manejo de pacientes com suspeita de infecções por vírus altamente patogênicos (como Ebola e outros agentes da lista de prioridade da OMS) podem ser adaptadas para o contexto do Nipah, com base em documentos de referência de Anvisa, SOBRASP, SOBECC, AORN e AAMI.
Para a formação em controle de infecções e segurança do paciente, o tema Nipah oferece um campo fértil para integrar conhecimentos de epidemiologia, biossegurança, gestão de riscos, comunicação de crise e ética em saúde. Cursos de pós‑graduação lato sensu, como os ofertados pelo Instituto CCIH+, podem utilizar o Nipah como estudo de caso para exercícios de simulação de surtos, discussão de planos de contingência e elaboração de protocolos institucionais, explorando desde a triagem na emergência até a desospitalização segura de sobreviventes. A produção de materiais educacionais, vídeos, aulas e discussões em plataformas digitais, como o canal YouTube CCIH Cursos MBA, contribui para difundir conhecimento atualizado e consolidar competências entre profissionais de diferentes áreas.
Em termos de política pública, o Brasil pode se beneficiar de acompanhar de perto a agenda internacional de pesquisa e desenvolvimento em Nipah, participando de redes de cooperação científica, consórcios de vigilância genômica e iniciativas de preparação para pandemias que envolvam patógenos prioritários. A articulação entre instituições como Fiocruz, universidades, redes de laboratórios de saúde pública e sociedades científicas é fundamental para que o país esteja posicionado não apenas como receptor de alertas internacionais, mas como parceiro ativo na produção de conhecimento e na construção de respostas inovadoras frente a ameaças emergentes.
14. Nipah vírus no contexto “One Health” e preparação para pandemias
O vírus Nipah é um exemplo paradigmático da interconexão entre saúde humana, saúde animal e ambiente, constituindo um caso clássico para aplicação do paradigma “One Health”. Os principais reservatórios, morcegos frugívoros, são elementos essenciais de ecossistemas florestais, desempenhando funções importantes na polinização e dispersão de sementes, de modo que estratégias de controle não podem ser baseadas na eliminação desses animais, mas sim na redução de oportunidades de contatos por meio de mudanças em práticas humanas e manejo ambiental. Desmatamento, fragmentação de habitats, expansão agrícola desordenada e urbanização sem planejamento contribuem para aproximar colônias de morcegos de animais domésticos e de populações humanas, aumentando o risco de emergência de patógenos como o Nipah.
Lições aprendidas com surtos de Nipah em Bangladesh, Índia, Malásia e Filipinas apontam para a importância de sistemas de vigilância integrados, que incluam monitoramento de doenças em humanos, vigilância veterinária em animais de produção e de companhia, e estudos ecológicos e virológicos em fauna silvestre. Esse modelo de vigilância integrada é particularmente relevante em regiões tropicais e subtropicais, onde a biodiversidade elevada e as mudanças rápidas no uso da terra criam oportunidades para a emergência de novos patógenos. Em paralelo, a resposta a surtos de Nipah reforça a necessidade de investimentos em pesquisa translacional, desenvolvimento de vacinas e terapêuticas, e fortalecimento de capacidades laboratoriais de alta biossegurança, elementos centrais de agendas de preparação para pandemias conduzidas por organizações como OMS, CEPI e IDSA.
No cenário pós‑pandemia de COVID‑19, o Nipah é frequentemente citado como exemplo de “doença X” em potencial, isto é, de um patógeno de origem zoonótica, com transmissão respiratória e alta letalidade, capaz de causar impactos regionais significativos e, em determinadas condições, ameaçar a saúde global. A diferença, até o momento, é que os surtos de Nipah permanecem relativamente localizados, com número de casos limitado e R médio abaixo de 1, mas a presença de “superdisseminadores”, a diversidade genética crescente de henipavírus e as mudanças ambientais rápidas sugerem que esse equilíbrio é frágil. Investir em prevenção, vigilância e preparação antes que o vírus adquira maior capacidade de transmissão sustentada entre humanos é, portanto, uma estratégia mais racional e custo‑efetiva do que reagir a uma pandemia já instalada.
15. Considerações finais para a prática em controle de infecções
Para alunos de pós‑graduação em saúde, especialmente aqueles voltados à CCIH e à segurança do paciente, o estudo do vírus Nipah oferece uma oportunidade privilegiada de integrar conceitos teóricos e práticas aplicadas. Do ponto de vista microbiológico, trata‑se de um henipavírus zoonótico altamente patogênico, com tropismo neurovascular, múltiplas vias de transmissão e letalidade elevada, que desafia os sistemas de vigilância e os serviços de saúde pela sua imprevisibilidade e pela ausência de tratamento específico amplamente disponível. Do ponto de vista assistencial, exige reconhecimento precoce, manejo intensivo qualificado e aplicação rigorosa de medidas de prevenção e controle de infecções, com proteção adequada dos profissionais e manutenção da segurança do paciente em contextos de grande pressão sobre recursos.
Ainda que o Brasil não registre casos de Nipah, a experiência recente com outras emergências, como COVID‑19 e varíola dos macacos, mostra que agentes inicialmente distantes podem rapidamente se tornar parte da realidade local. Incorporar o Nipah aos currículos de formação, aos planos de contingência e às discussões de comitês de crise contribui para fortalecer a capacidade de resposta do sistema de saúde como um todo, antecipando soluções e reduzindo a vulnerabilidade a ameaças emergentes. Nesse sentido, iniciativas educacionais como as do Instituto CCIH+ e de seu canal de cursos e conteúdos em segurança do paciente e controle de infecções desempenham papel estratégico ao disseminar conhecimento atualizado, fomentar a reflexão crítica e apoiar a construção de uma cultura de segurança robusta e resiliente diante de novos desafios infecciosos.
Referências (formato ABNT – seleção principal)
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Referências de diretrizes, controle de infecção e biossegurança
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Referências brasileiras e institucionais (formação, ensino e pesquisa)
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INSTITUTO BRASILEIRO DE INFORMAÇÃO EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA (IBICT). Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). Brasília, 2025. Disponível em: https://bdtd.ibict.br/vufind/.
Executive Summary
This article analyzes the Nipah virus (NiV) as a high-priority biological threat, highlighting its extreme fatality rates (40% to 75%) and the complexity of its transmission cycles. The work emphasizes that the emergence of NiV is not merely a biological event but a byproduct of environmental degradation and human expansion into fruit bat habitats.
In the healthcare setting, the text warns of the critical risk of nosocomial transmission and the vulnerability of healthcare workers when screening protocols fail. The lack of approved vaccines or specific treatments makes institutional preparedness—based on rigorous biosafety and epidemiological surveillance—the only effective defense at this time. Regarding the Brazilian context, the author argues that, although there are no indigenous cases, preparing for imported cases is an ethical and technical imperative for patient safety.
Autor:
Antonio Tadeu Fernandes:
Médico pela FMUSP com residência em Moléstias Infecciosas no HCFMUSP e mestrado em Medicina Preventiva na FMUSP.
Ex-presidente da APECIH e da ABIH.
Autor do livro: “Infecção Hospitalar e suas Interfaces na Área da Saúde” (Prêmio Jabuti como melhor publicação em Ciências Neturais e Saúde).
CEO do Instituto CCIH+
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