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Discurso do Dr. Uriel Zanom ao receber o título de membro honorário da ABIH

 

Caros Colegas,

É com intensa emoção que recebo o título de Membro Honorário da Associação Brasileira dos Profissionais em Controle de Infecções e Epidemiologia Hospitalar (ABIH).
Agradeço ao Dr. Georges Trigueiro, Presidente da ABIH, à Enfermeira Joane Queiroz, Presidente do IX Congresso Brasileiro de Controle de Infecção e Epidemiologia Hospitalar, e a todos os colegas que, generosamente, me distinguiram com a sua indicação, ressaltando que esta honra é maior do que a minha contribuição para o desenvolvimento da ABIH.
Em face da importância deste evento, em que será discutido o "Modelo Brasileiro de Controle de Infecção Hospitalar", peço permissão para expor algumas reflexões sobre os valores que defendemos e os compromissos que assumimos ao escolhermos a nossa profissão.
Que os mais jovens me permitam reafirmar que o principal valor de um profissional de saúde é a solidariedade humana. Humberto Novaes afirma que "é o homem que adoece, que sofre, que se desequilibra em suas relações com a sociedade, a razão da existência de uma entidade de saúde". Na cultura pós-moderna, a solidariedade humana é considerada uma utopia, um anacronismo, mas nem sempre foi assim. Em passado recente as pessoas chegavam a sacrificar suas vidas para defender esse princípio. É PRECISO RESGATA-LO.
Outro valor fundamental é o respeito ao fato científico. O fato científico objetivo é estabelecido mediante experimentação controlada, passível de ser reproduzida por outro pesquisador, nas mesmas condições operacionais. A ciência e o desenvolvimento que ela promove, baseiam-se no fato científico, que só pode ser refutado mediante outro fato cientifico e não pode ser negado por especulação teórica ou argumentação baseada em Lei, Portaria, Resolução ou autoridade do cargo. É NECESSÁRIO RESGATAR O RESPEITO AO ATO CIENTÍFICO NA LEGISLAÇÃO SANITÁRIA, EVITANDO QUE A MESMA SE TRANSFORME EM INSTRUMENTO DE ARBÍTRIO E DE CORRUPÇÃO.
Finalmente, qual é o nosso compromisso enquanto profissionais de saúde? Pelo principio da solidariedade, NOSSO COMPROMISSO É COM O PACIENTE. Toda instituição de saúde, deve integrar das atividades assistenciais, financeiras, econômicas e administrativas subordinando-as à sua missão essencial a favor do Homem.
Que os mais jovens me permitam alerta-los para o fato de que na cultura pos-moderna, a assistência à saúde deixou de ser, como ensinava MacEarchern, "a efetivação do direito que o homem tem de gozar saúde, e o reconhecimento formal, pela comunidade, da obrigação de prover meios para mantê-lo vivo ou restaurar-lhe a saúde perdida" para se transformar em um stablishment altamente lucrativo, que movimenta milhões de dólares. Em nosso pais, por exemplo o stablishment sanitário movimenta mais recursos financeiros do que o setor siderúrgico (Korbes 2000). É portanto, compreensível que profissionais de outras áreas, subordinados a outros princípios e compromissos, busquem neste setor a realização de seus objetivos. Como estes, necessariamente, não são os mesmos dos profissionais de saúde, manifesta-se um conflito ético difícil de ser administrado.
O objetivo das empresas que constituem o stablishment sanitário é a recuperação do capital investido com lucro imediato. Não importa que devido a isto, se torne cada vez mais seletivo o acesso aos benefícios que produzem. Elas não se submetem aos princípios da solidariedade e do respeito ao ato científico na comercialização de seus produtos. Faz parte da sua estratégia criar conceitos pseudo-científicos e aliciar pessoas para conseguir favores legais. É uma ilusão tentar estabelecer parcerias entre o stablishment sanitário e a assistência a saúde, porque os objetivos são irreconciliáveis na prática. TEMOS PACIENTES, NÃO TEMOS CLIENTES.
Devemos reafirmar nosso compromisso ético como fizeram Ignaz Semmelweis, Florense Neigtingale, Samuel Filand, Newton Neves da Silva, Carlos Gentile de Melo, Jayme Neves e tantos outros, que não se corromperam e renunciaram a promoção pessoal e o enriquecimento fácil.
O momento é de mudança e precisamos estar atentos. Não podemos permitir que Stablishment Sanitário domine a CCIH, ignore o princípio da solidariedade, promova a prática de atos pseudocientíficos e desrespeite o direito dos pacientes à vida e a recuperação da sua saúde.
Acredito que um dia esses princípios e esse compromisso sejam assumidos por todos os profissionais que dedicam seus esforços a prevenção da doença e a recuperação da saúde. Aí então, todos os que necessitem terão acesso a medicamentos e a hospitalização, o tratamento será informado e consentido pelo paciente, seus direitos serão respeitados, não haverá sofrimento desnecessário, nem morte prematura.
ACREDITO NOS PROFISSIONAIS QUE SERVEM A SAÚDE E QUE NUNCA SE SERVEM DELA, por isto ouso afirmar que tudo isto é possível, pois quando os jovens têm discernimento, o sonho de velhos, como eu, se torna realidade.

Muito Obrigado
Uriel Zanon

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