Infecção Hospitalar
e suas Interfaces na Área da Saúde
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LAVANDO AS MÃOS
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Lavando as mãos: APECIH muito mais que 20 anos de história

            Eu fui convidado, como primeiro presidente e fundador da APECIH (Associação Paulista de Epidemiologia/Estudos e Controle de Infecção Hospitalar), a participar de um evento comemorativo de seus 20 anos, proferindo a palestra "APECIH: de onde viemos". Neste lavando as mãos vou resumir essa apresentação e colocar algumas reflexões importantes sobre o futuro do controle de infecção no Brasil.
            Uma pista para identificarmos a importância do controle de infecção e particularmente da APECIH é ver como eram as práticas assistenciais há mais de 20 anos atrás, perceber o que mudou e qual a contribuição do controle de infecção. Nessa época, agulhas de aço e seringas de vidro eram reutilizadas, a anti-sepsia era feita com algodões embebidos em álcool numa concentração desconhecida. As indicações de isolamento não seguiam um padrão e os EPIs eram sempre os mesmos, independente do modo de transmissão da doença e incluíam até propés. Nos improvisados quartos de isolamento, após a alta do paciente, era vaporizado formaldeído numa concentração mais tóxica para os profissionais de saúde do que para os microorganismos. Na central de material predominava a estufa, pastilhas de formalina, autoclaves de óxido de etileno e o principal germicida não tinha ação esporicida, apesar de empregado como "esterilizante". Existiam ainda as salas cirúrgicas "infectadas" que também sofriam vaporização de formaldeído, após cirurgias, que dependendo do odor exalado, faziam-se interditar todo o centro cirúrgico.
            Para o preparo pré-operatório do paciente a tricotomia era regra e realizada de forma ampla, geral e irrestrita. Na degermação do campo operatório e das mãos da equipe era empregado uma escovinha reutilizável com sabão de coco em barra. A demarcação do campo cirúrgico era feita com mercuriais e a equipe submergia suas mãos em uma bacia com álcool. Campos, máscaras e a paramentação cirúrgica eram de pano sem controle sobre sua efetividade como barreira. As embalagens predominantes também eram ineficazes (papel Kraft e manilha). A "antibioticoprofilaxia" era regra, empregava-se cloranfenicol ou ampicilina, mais de acordo com o ano de formação do médico, que eram iniciados bem depois do procedimento cirúrgico e mantidos por cerca de duas semanas. Não existia sistema fechado de sondagem vesical, agulhas de aço eram utilizadas para cateterização periférica. Os cateteres venosos centrais, de má qualidade ficavam muitas vezes sem fixação e os curativos eram feitos e trocados aleatoriamente. Os pacientes sob ventilação mecânica eram aspirados por sondas de borracha que ficavam abertas e expostas em frascos de soro que eram trocados sabe-se a que periodicidade. A nutrição parenteral prolongada, quando muito, era preparada no centro cirúrgico ou dentro de uma incubadora. Estes são apenas alguns exemplos dos riscos a que estavam submetidos os pacientes hospitalizados.
            Até o início dos anos sessenta pouquíssimos hospitais tinham ações organizadas para prevenção e controle das infecções hospitalares. A primeira CCIH do Brasil foi criada em 1963 no Hospital Ernesto Dornelles em Porto Alegre, sob a orientação do Dr. Newton Neves, um sanitarista, que focou a ação no controle das doenças transmissíveis. Logo depois surgiram outras comissões, sempre seguindo a orientação de seu líder. No HC da FMUSP o Dr. Rudolf Utzler focava em infectologia. No HC de Recife o Dr. Edmundo Ferraz enfatizava a prevenção de infecções cirúrgicas. Na Santa Casa de São Paulo e no HC de Botucatu, os Drs. Igor Mimica e César Montelli focavam em microbiologia. No Hospital 9 de Julho (SP) a enfermeira Maria Lúcia Pimentel enfatizava processos de esterilização e atuação da enfermagem. No INAMPS do RJ o Dr. Uriel Zanon concentrava suas atenções no uso correto de germicidas.
            Na minha residência em infectologia, realizada no HC FMUSP, em plena epidemia de meningite, tive pouco contato com o controle de infecção. Durante minha formação acadêmica fui presidente do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, um importante foco de resistência pela redemocratização. Fazíamos humor em uma publicação chamada "Camelo" (em "homenagem" as camaleções que sofriam intermos e residentes) e neste jornal praticamente fiz minha estréia no controle de infecção. Foi identificado que quase todas as hemoculturas davam negativas, ao mesmo tempo que os mercuriais, utilizados na anti-sepsia, freqüentemente estavam contaminados por Gram negativos. Dentro do espírito irônico do jornal, sugeri que se fizesse a anti-sepsia com o meio de cultura, já que nada crescia lá, e que o sangue fosse inoculado no mercurial, facilmente contaminado. Brincadeiras à parte, isto dava a idéia do isolamento em que estava a CCIH para mudar condutas na época.
            Após o término da minha residência, fui para o Hospital do SEPACO, que em 1978 mudou para sua sede própria, ainda em construção. Todas as dependências do hospital ocupavam o porão de um edifício em construção. Isto preocupou uma equipe multiprofissional da instituição, a fim de estudar os riscos para os pacientes, particularmente a ocorrência de infecção hospitalar. Esta equipe começou a realizar reuniões informais, para adequação do trabalho a estas situações adversas e elaboração de um sistema para monitorização dos casos de infecção hospitalar. Na época tivemos contato com as publicações do Dr. Uriel Zanon que recomendava um sistema de busca passiva de casos, que se mostrou ineficiente na nossa realidade, sendo substituído pelo sistema de vigilância contínua, precursor no Brasil da busca ativa de casos.
            O trabalho multiprofissional da CCIH do SEPACO representou uma nova abordagem do controle de infecção no Brasil, ganhando repercussão. A participação em um evento de administração hospitalar desencadeou vários convites para palestras, onde um pequeno público fiel foi identificado. Assim, a enfermeira Meire e o Dr. Paulo do Hospital Municipal do Jabaquara se uniram à enfermeira Marilda, o Dr. José Carlos e eu do Hospital do SEPACO e começamos a realizar reuniões para trocarmos experiências sobre o controle de infecção. Progressivamente o grupo foi se expandindo e em dezembro de 1982 fundamos o Núcleo Paulista de Estudos e Controle de Infecção Hospitalar.
            Novos fatores impulsionaram estas reuniões no início dos anos 80. O surgimento da pandemia de AIDS. O interesse da Organização Pan-americana de Saúde para que os hospitais da América Latina realizassem um controle efetivo das infecções hospitalares. Este interesse gerou a Portaria MS 196/83 que recomendava os hospitais terem CCIH, orientando suas ações e além disso foi elaborado o Curso de Introdução ao Controle de Infecção Hospitalar, que foi juntamente com a Portaria, tema de discussão nas reuniões do núcleo, que ia crescendo em participação. A morte do Presidente Tancredo Neves trouxe para todos a importância do controle da infecção hospitalar e impulsionou a difusão do referido curso, sendo criados os Centros de Treinamento do Programa de Controle de Infecção Hospitalar do Ministério da Saúde. Este programa, de participação voluntária, treinou mais de 12 mil profissionais de saúde, mudando para sempre o panorama do controle de infecção no país.
            Em São Paulo, as reuniões do núcleo paulista de estudos de controle de IH integraram-se com os centros de treinamento e a Secretaria da Saúde, abordando temas científicos e o planejamento do ensino dos profissionais de saúde. Em 15 de maio de 1987 foi fundada a APECIH, que realizou em 1989 o Primeiro Congresso Brasileiro de Controle de Infecção Hospitalar. Estas reuniões serviram de modelo para os encontros nacionais dos Centros de Treinamento, um espaço multiprofissional que desenvolveu criticamente o modelo brasileiro de controle de infecção, elaborando pareceres, subsidiando cientificamente a elaboração de legislação específica, destacando-se a Portaria 930/92, que criou o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar, oficializando a busca ativa de casos, tema livre que ganhou o prêmio de melhor trabalho científico no referido congresso.
            Evidentemente, não foi só o controle de infecção que contribuiu para todas as mudanças no panorama assistencial apresentado no início deste artigo, mas sem dúvida alguma, foi uma liderança que catalisou estas mudanças dentro de cada uma das instituições de saúde no Brasil. Estas vitórias devem fortalecer o controle de infecção nos desafios que se impõe no século XXI. A CCIH pode fornecer subsídios para a implantação da epidemiologia hospitalar, ampliando a abordagem epidemiológica para outros eventos adversos relacionados à assistência à saúde, incorporando a gestão pela qualidade e o gerenciamento de risco. Esta perspectiva foi confirmada pela atual presidente da APECIH como um desafio para os próximos anos. Felizmente desde a primeira turma de nosso curso, ministrado em 2003, já incorporamos a gestão da nossa atividade profissional, dos recursos humanos, o desafio da qualidade e o emprego crítico das evidências científicas, preparando nossos alunos para os desafios que a assistência à saúde impõe.
            Infelizmente, desde o início, o desafio das infecções hospitalares foi utilizado como um argumento para exigências legais, algumas vezes incompatíveis com a nossa realidade ou o conhecimento científico, mais voltadas a interesses econômicos. Isto exige que os controladores para infecção tenham um conhecimento abrangente e sejam firmes em seu posicionamento profissional e político, atuando sempre em favor do melhor para a população. Ainda não está definida a titulação do especialista no controle de infecção, decorrência talvez de sua característica multiprofissional, essência do modelo brasileiro de CCIH. Interesses, nem sempre claros, podem tentar obter o monopólio científico de uma conquista que é de toda a sociedade e devemos estar atentos quanto a isso. Por outro lado, o controle de infecção deve ao mesmo tempo que desenvolve conhecimento específico, integrar-se com gestores da assistência, profissionais de saúde e os próprios clientes, razão principal da nossa profissão.
            Nossa trajetória de lutas e vitórias nos capacita a enfrentar estes desafios, desde que jamais nos afastemos dos princípios científicos, éticos, humanitários e ecológicos, que são a essência da compreensão das práticas dos profissionais de saúde e particularmente dos controladores de infecção.


São Paulo, 04 de setembro de 2007.
Antonio Tadeu Fernandes

 


     

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