Bate-papo
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Leia entrevista com Dr. Antonio Tadeu Fernandes publicada na revista RAS. |
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Dr.Antonio Tadeu Fernandes é médico infectologista, formado pela USP. Criou, em 1978, no Hospital do SEPACO, em São Paulo, uma das primeiras Comissões de Controle de Infecção Hospitalar em hospital particular do Brasil. É médico de várias comissões de infecção hospitalar em hospitais de São Paulo. É o Editor Chefe do livro "Infecção Hospitalar e suas Interfaces na Área da Saúde" vencedor do Premio Jabuti 2001, da Câmara Brasileira do Livro, como o melhor livro sobre saúde no ano. É, também, responsável pelo "site" www.ccih.med.br. Dr.Tadeu é praticante de futebol de botão, adora um chorinho e torce pelo São Bento de Sorocaba. Só por isso dá pra ver o quanto é persistente em seus ideais e abraça causas aparentemente perdidas. É casado com a Enfermeira Maria Olívia Vaz Fernandes, Editora Adjunta do livro citado acima. PERGUNTAS Qual é a condição atual da infecção hospitalar no Brasil?
Ainda não temos um consolidado nacional sobre a incidência das infecções
hospitalares e a adequação das medidas de controle no Brasil. Em 1994,
foi feito pelo Ministério da Saúde, um estudo de prevalência envolvendo
99 hospitais de grandes capitais localizados em capitais, todos eles
vinculados ao SUS. Foram encontradas uma prevalência média de infecção
hospitalar de 15,5% e uma incidência de 13,0%. Como parâmetro comparativo,
estudo semelhante desenvolvido pela OMS entre 1983 e 1985 em 14 países
chegou a uma média de 8,7%, variando de 3,0 a 21,0%. O estudo nacional
avaliou também as ações de controle de infecção realizadas nestas
instituições e, o pior desempenho, foi o da direção do hospital, que
cumpria apenas 15,0% das atividades recomendadas, no que se referia
à nomeação da equipe de controle de infecção, destinação de verba
e participação do controle de infecção nos órgãos deliberativos da
instituição. O Programa Nacional de Controle de Infecção pretende
realizar um novo e mais amplo inquérito nacional e os hospitais estão
começando a enviar seus dados para as coordenações locais e com isso,
teremos dados mais representativos.
Houve progresso, nos últimos anos, no combate à infecção hospitalar
no Brasil?
Quando
comecei minha atividade no controle de infecção, no final dos anos
setenta, tínhamos poucas CCIHs no Brasil. Os critérios e condutas
não eram uniformes e praticamente não encontrávamos com quem trocar
experiência e nem literatura nacional para pesquisar o tema. Antes
mesmo do episódio Tancredo Neves, o Ministério da Saúde, atendendo
um apelo da OPAS já havia elaborado uma Portaria recomendando que
os hospitais tivessem CCIH, com orientações mínimas para seu trabalho.
Aproveitando a comoção nacional em torno da morte do Presidente eleito,
foi elaborado um curso de introdução ao controle de infecção, difundido
pelos Centros de Treinamento em todos os Estados do Brasil. Este movimento,
que foi fundamental para a difusão de conhecimentos, formando uma
massa crítica de profissionais, foi desativado no início dos anos
90, criando um vácuo, que só recentemente volta a ser preenchido,
com a ida do Programa de Controle de Infecção para a ANVISA, sob a
coordenação da Dra. Glória Maria Andrade, oriunda dos extintos Centros
de Treinamento. Hoje, temos presença forte no Ministério da Saúde,
no que se refere às deliberações relacionadas ao tema e em praticamente
todos os Estados foram reativados os núcleos estaduais, fundamentais
para a difusão do Programa. Ao contrário dos anos oitenta, este novo
panorama encontra o controle de infecção discutido nas universidades;
muitos hospitais com CCIH implantada seguindo uma metodologia uniforme;
entidades representativas dos controladores de infecção cada vez mais
atuantes; publicações nacionais de alto nível; e a população mais
esclarecida na luta por seus direitos.
A legislação existente no Brasil, sobre infecção hospitalar, é suficiente
para que o país tenha bom controle?
O Brasil evoluiu muito em relação à legislação pertinente ao controle
de infecção. Em 1992 foi elaborada uma nova Portaria (930), que instituía
o Programa de Controle de Infecção Hospitalar, pelo qual todo hospital
tinha que reduzir ao máximo possível a incidência e gravidade das
infecções hospitalares; recomendava a busca ativa de casos e a existência
de profissionais qualificados para coordenar as ações de controle.
Infelizmente, foi vetada a grande maioria dos artigos da Lei Federal
9.431 de 1997, que tornou obrigatórios a CCIH e o Programa de Controle
em todos hospitais brasileiros. Esta obrigatoriedade foi um importante
avanço. Atualmente dispomos de uma nova Portaria (2.616 de 1998),
que prega uma maior integração do controle de infecção com as atividades
hospitalares, além de regulamentar as ações do poder público em relação
ao tema, e temos também um roteiro de inspeção dos hospitais para
se avaliar a qualidade do atendimento e das ações de controle de infecção
desenvolvidas. Comparando-se com outros países, estamos bem regulamentados,
falta apenas executar adequadamente todas estas ações.
Como está a condição de resistência bacteriológica aos antibióticos
no Brasil?
Faço parte de um Grupo de Trabalho do Ministério da Saúde que pretende inicialmente fazer um diagnóstico da resistência microbiana no nosso meio, relacionando-a ao consumo de antimicrobianos. Segundo o levantamento já citado do Ministério da Saúde, o laboratório de microbiologia é o segundo pior item da avaliação do controle de infecção no país. Só metade dos hospitais avaliados tinham laboratório de microbiologia próprio ou contratado, apenas um terço participava de algum programa de controle de qualidade e por incrível que pareça, apenas 6,1% tinha padronização dos métodos de coleta e transporte de materiais. Sob nosso ponto de vista, é quase impossível controlar as infecções hospitalares sem um laboratório de microbiologia, pois como identificar o agente etiológico, sua fonte e antibióticos ativos? Sem essas respostas, fica prejudicado o tratamento do paciente e, diante dessa incerteza, pressiona-se para o uso de antibióticos mais potentes e mais caros, com maior repercussão sobre a flora hospitalar, além de dificultar a elaboração de medidas adequadas de prevenção e controle. Assim, este grupo pretende também elaborar padrões mínimos para os laboratórios de microbiologia, estimular sua difusão pelos hospitais, além de consolidar dados sobre consumo de antimicrobianos e resistência microbiana para subsidiar a elaboração de uma legislação que faça frente a esta ameaça à saúde pública.
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Controle da infecção hospitalar aumenta ou diminui custos hospitalares? É um bom investimento?
Um dos principais argumentos da pressão por incorporação
de tecnologia é a prevenção e o controle da
infecção hospitalar. Além dos já comentados
recursos voltados para o atendimento ao paciente, também
temos produtos desenvolvidos para a CCIH. Atividades complementares
podem subverter as ações de controle, invertendo prioridades,
gerando custos e ineficiência. Programas de informática
mal planejados deixam a CCIH mais em frente do computador, elaborando
relatórios fantásticos, afastando-a do contato com
a equipe de atendimento. Biologia molecular pode desviar recursos
de coisas básicas como papel toalha. Recente publicação
internacional alertou que muitos laboratórios do terceiro
mundo realizam mais biologia molecular que um simples e utilíssimo
Gram em seus materiais. Sofisticação na elaboração
de indicadores, exigindo apoio de estatísticos, quando as
respostas aos principais problemas vêm da melhor aplicação
dos recursos e indicadores já existentes. A CCIH deve saber
planejar suas atividades, adequando-a ao planejamento estratégico
do hospital, conseguindo o melhor resultado possível em uma
análise custo-benefício. Será que esta abordagem
só vale para os demais, quando avaliamos um procedimento
invasivo ou a prescrição de antibióticos?
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Como tem sido a aceitação do livro "Infecção Hospitalar e suas
Interfaces na Área da Saúde"? Qual o significado dele ter ganho
o Premio Jabuti de 2001?
Nosso livro venceu em um mercado altamente competitivo, no qual
o profissional de saúde encontra várias opções de qualidade. Ele
recebeu a maior honraria que uma publicação nacional poderia conseguir.
Ganhou o Prêmio Jabuti, oferecido pela Câmara Brasileira do Livro,
o "Oscar da literatura brasileira", na categoria Ciências Naturais
e da Saúde. Foram inscritas 1.648 obras, sendo 51 na nossa categoria,
um recorde absoluto. Pela primeira vez um livro sobre infecção
hospitalar chegou entre os finalistas e melhor ainda, ganhou o
tão cobiçado troféu, ficando em primeiro lugar entre os premiados.
O sucesso do livro e sua contribuição para o controle de infecção,
percebidos nos contatos pessoais e nos E-mails enviados para o
site: www.ccih.med.br,
está relacionado à somatória das linhas escritas em suas quase
2.000 páginas, sendo indubitavelmente um mérito de todos que participaram
da sua elaboração. O site foi criado originalmente para atualização
do livro e propiciar um contato entre os autores e seus leitores.
Hoje, com secções como fórum de discussão e boletins é uma realidade,
visitada por colegas de mais de quarenta países, com uma audiência
crescente aqui no Brasil. Convidamos todos a fazerem uma visita.
Qual seria o montante do desperdício causado pela infecção hospitalar
no Brasil atualmente?
Não existem dados oficiais a respeito desse valor. Se a estatística colhida pelo Ministério nos hospitais do SUS refletir a realidade, ao multiplicarmos 13,0 % ao número total de internações hospitalares, chegaremos à valores alarmantes, mesmo quando se faz inferência apenas nas internações SUS. Aliás, muitos hospitais argumentam contra a criação de uma CCIH apresentando o baixo valor pago pelas diárias e procedimentos hospitalares. Sem dúvida, ele é irrisório, mas o controle efetivo das infecções hospitalares dá lucro e seria um investimento e não mais uma despesa para estas instituições.
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