Bate-papo
entrevista 1
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Entrevista com Dr. Antonio Tadeu Fernandes sobre o IX Congresso Brasileiro de Controle de Infecção e Epidemiologia Hospitalar

01 - Que avaliação o senhor faz do atual momento do controle de infecção hospitalar? Quais os principais avanços da área?

Resposta: Cada vez mais estamos entendendo a complexidade da interação do homem com os microrganismos, que já habitam o nosso corpo, em equilíbrio com nossas defesas, superando em 10 vezes as nossas próprias células. As infecções hospitalares são resultantes principalmente do rompimento desse equilíbrio, provocado pela interação entre a queda da resistência antiinfecciosa, relacionada à própria doença do paciente; a utilização dos procedimentos invasivos, rompendo barreiras naturais de defesa; e o contato do paciente com os micróbios hospitalares, selecionados pelo uso de antibióticos e transmitidos principalmente pelas mãos da equipe de saúde, enquanto prestam assistência.
Os principais avanços procuram aprimorar nossos recursos diagnósticos terapêuticos, melhorando assim a resistência antiinfecciosa do paciente; tornar os procedimentos invasivos mais compatíveis com a biologia humana, reduzindo sua contaminação e seu efeito nocivo sobre os mecanismos de defesa do paciente; uso criterioso de antibióticos; e novas estratégias que estimulam a higiene das mãos, criando novas barreiras contra a transmissão cruzada de infecções. Mas todos estes recursos têm um preço e um risco intrínseco, empregá-los com sabedoria é a essência de uma prevenção e controle de infecção eficaz.
O controle de infecções é um investimento que se faz na qualidade da assistência e apesar de seu custo inicial, acaba dando um ótimo retorno financeiro, reduzindo as despesas que teríamos com as infecções prevenidas e racionalizando o emprego de tecnologia e principalmente antibióticos. Portanto, o que diferencia as instituições de saúde é sua abertura para este investimento, que mais que uma obrigação legal, é um ditame ético e moral das instituições e de todos os profissionais de saúde.

02 - Qual a sua opinião sobre a estratégia da ABIH de montar o IX Congresso Brasileiro tendo por base indicadores de opinião dos potenciais congressistas, através de enquete eletrônica?

Resposta: Esta foi a estratégia perfeita para o momento que nós vivemos. A prevenção e controle da infecção hospitalar envolvem um conhecimento cada vez mais especializado, mas, ao contrário de outras especialidades na área da saúde, ele só se torna efetivo, se for incorporado por todos os profissionais que prestam assistência direta ou indireta ao paciente. Assim, o segredo de seu sucesso está em se aliar à atualização técnico científica, o estabelecimento de estratégias adequadas para difusão do conhecimento e sua incorporação efetiva na prática profissional, trazendo a motivação decorrente da maior satisfação profissional e, conseqüentemente, qualidade à assistência prestada.
O resultado da pesquisa realizada refletiu bem esta tendência, na qual temas voltados à qualidade da assistência, avaliação de resultados e processos, estratégias educativas e motivacionais tiveram mais votos do que tópicos tradicionalmente abordados nestes eventos. Pela enquête, observamos a necessidade de um novo paradigma profissional, que se reflete diretamente no conteúdo científico do congresso. Assim, temos absoluta consciência de estarmos fazendo o certo, o adequado, o necessário e o preferido.

03 - Qual a opinião do senhor sobre o tema central do Congresso, "Novas práticas de CIH no Brasil"?

Resposta: Vivemos num mundo e sociedade em constante evolução, que se reflete em sua ciência. Faz uma enorme diferença, a capacidade de perceber indícios de inadequação, ter flexibilidade para assumir novas posturas, sem resistências, dando respostas mais adequadas aos desafios. Embora o Brasil já tenha uma legislação detalhada sobre o tema e vários centros despontem produzindo conhecimento de qualidade, a reflexão sobre nossa profissão e suas conseqüências para o ecossistema, a saúde pública e nossa economia, devem ser uma constante. Assumir novas práticas, não quer dizer confronto com o clássico, mas sim, sua evolução contínua. Trocar experiências, inclusive com convidados internacionais, deve ser a tônica deste evento, onde de múltiplas realidades e percepções, surgirão soluções compartilhadas e conseqüentemente, mais adequadas aos desafios do nosso tempo.

04 - Que contribuição o senhor trará para o evento?


Resposta: A minha contribuição pessoal estará inserida no contexto e filosofia do congresso, do qual faço parte e tem seu pequeno papel, inserido diante dos inúmeros conferencistas (nacionais e internacionais) de renome que já confirmaram sua presença, do temário muito bem desenvolvido pela comissão científica e da forma inovadora de planejamento do congresso. Trarei minha experiência pessoal como profissional de saúde que há mais de 25 anos se dedica ao tema, que há algum tempo centra seus esforços nas múltiplas interfaces do controle de infecção hospitalar com a qualidade assistencial e a sobrevivência da nossa espécie em nosso ecossistema, que pode ser ameaçada, entre outros fatores, pelo uso inconseqüente dos antimicrobianos, ou por desequilíbrios ecológicos refletidos em doenças emergentes, que se não forem devidamente controladas, poderão se transformar em catástrofes.

05 - Como avalia a importância do Congresso para a área, levando-se em conta, principalmente, o momento de mudanças que o CIH está vivendo?

Resposta: Aceitar mudanças é um grande desafio pessoal, que a própria organização do congresso vivenciou. Além da atualização científica em prevenção e controle das infecções hospitalares, outras importantes abordagens serão debatidas no congresso, tais como: planejamento estratégico; auditorias de qualidade; experiências educativas em saúde; motivação; prevenção de infecção fora do hospital; avaliação custo-benefício; globalização e controle de infecção; multidisciplinariedade; entre outros. Este temário comprova a importância de inserirmos a nossa profissão e própria assistência em um debate muito mais amplo, que envolva aspectos pedagógicos, sociais, econômicos, políticos, ecológicos, legais, éticos e bioéticos. A prevenção e o controle de infecção exigem uma abordagem ampla e multifacetada. Este desafio, aliado a necessidade de mudanças, foi aceito pela organização do congresso e transcende qualquer visão unilateral e conservadora do tema. A importância do evento será definida pelo compartilhamento desta realidade.

06 - Como os profissionais de saúde, de modo geral, devem estar envolvidos com o CIH em suas respectivas unidades de trabalho?

Resposta: incorporar todas estas informações, trazendo respostas práticas para as questões do nosso dia a dia é o objetivo essencial e até filosófico do congresso, na minha opinião. A morte trágica de Semmelweis, pioneiro do controle de infecção, louco em um hospício, sem conseguir mudar paradigmas pessoais e dos seus colegas, é um exemplo que precisa ser melhor entendido, se quisermos mudar a realidade em nossas instituições de saúde. A verdade, por si só, por mais evidentes que sejam os resultados, não muda comportamentos seculares. Temos que agir, não adianta mais reclamar da não aderência dos profissionais de saúde à higiene das mãos ou ao uso criterioso de procedimentos invasivos ou de antibióticos; da resistência dos administradores em apoiar as recomendações da CCIH; das políticas inadequadas para o controle das infecções hospitalares; das decisões equivocadas da justiça em casos de infecção hospitalar.
Já dizia Dostoievski : "se as pessoas ao redor não prestam atenção no que você diz, caia de joelhos diante delas e peça-lhes perdão, por que na verdade você é o culpado". Temos que aprender novas formas de abordagem para aprimorar a aderência dos profissionais de saúde e de toda comunidade às nossas recomendações e princípios. Este foi o desejo da maioria dos colegas, que responderam a pesquisa de opinião. Estes temas serão discutidos no congresso e ajudarão como resolver problemas seculares em nossas unidades de trabalho.

07 - Que medidas considera mais importantes para o CIH? A lavagem das mãos continua sendo considerada uma das mais simples e importantes medidas, mesmo no momento atual, em que a qualidade da assistência é o principal foco para o controle das infecções?

Resposta: A lavagem com água e sabão ou a higiene das mãos com soluções alcoólicas é ainda a mais simples medida para o controle da transmissão cruzada das infecções hospitalares. Existe um total sinergismo entre aderência a esta recomendação e a qualidade da assistência. Ela continua sendo um dos principais focos da nossa atuação. Alias, a prevenção e controle de infecção não devem ser entendidos como sinônimo de incorporação tecnológica. Curiosidade, criatividade, persistência e um profundo respeito à ética e a verdade são fundamentais. Será que conseguimos convencer todos os profissionais de saúde da importância desta medida? Será que eles já incorporaram estes princípios à sua prática? Por que isso não acontece? Como podemos aprimorar a nossa abordagem?
Podemos aprender muito com Albert Einstein, que nos dizia: "o mais importante é não parar de questionar. A curiosidade tem sua própria razão de ser. É mais que suficiente tentarmos simplesmente compreender um pouco desse mistério a cada dia. Nunca perca a sagrada curiosidade".

08 - Voltando-se mais para o seu campo de atuação quais os desafios atuais na área de epidemiologia?

Resposta: Vou concentrar essa resposta nas possíveis aplicações da epidemiologia no ambiente hospitalar. Ela é bastante útil para auxiliar os colegas a entenderem os princípios da prática profissional baseada em evidências científicas. Isto é muito importante diante da necessidade de ter um método para avaliar a qualidade das informações científicas e como aplicá-las à nossa atuação profissional, neste momento em que somos pressionados por novos conhecimentos e opções, custos crescentes e necessidade de fundamentação de nossas condutas, diante de operadoras de saúde e clientes cada vez mais exigentes. Os próprios indicadores de infecção hospitalar estão sendo constantemente revisados na busca da melhor eficiência em monitorar o processo do atendimento e seus resultados. E, finalmente, sua abordagem pode ser expandida para análise de outros eventos relacionados ao atendimento à saúde, interagindo com as comissões de qualidade. Ou seja, a epidemiologia como ferramenta do aprimoramento do processo assistencial nas suas várias etapas, transcendendo o controle de infecção.

09 - No caso específico dos germes multiresistentes e emergentes, quais as estratégias específicas para o controle?

Resposta: Os germes multiresistentes e os patógenos emergentes são reflexos de um profundo desequilíbrio ecológico provocado pelo homem na natureza e dentro do ambiente hospitalar. Invadindo e destruindo ecossistemas seculares, nos expomos a patógenos desconhecidos. Abusando de antibióticos, não só no hospital, mas na própria comunidade, muitas vezes empregados em agricultura e pecuária, selecionamos a cepas resistentes, que são transmitidas no ambiente hospitalar, pela inobservância das medidas básicas de controle previstas nas Precauções Padrão. Então na base de tudo está a necessidade de uma consciência ecológica, que compreende as conseqüências de nossos atos sobre nosso ecossistema. No congresso debateremos medidas específicas para cada agente multiresistente que se destaca no ambiente hospitalar, mas que sinteticamente envolvem o uso criterioso de antibióticos, identificação de pacientes colonizados ou infectados por estes microrganismos, controle de possíveis fontes ambientais e medidas de precauções para evitar a sua disseminação.


Dados Pessoais.
Antonio Tadeu Fernandes, médico infectologista, responsável pela CCIH do Hospital do SEPACO, consultor em controle de infecção e editor chefe do livro "Infecção Hospitalar e suas Interfaces na Área da Saúde", Premio Jabuti 2001 na categoria ciências naturais e da saúde. Coordenador científico do IX Congresso Brasileiro de Controle de Infecção e Epidemiologia Hospitalar.



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