01
- Que avaliação o senhor faz do atual momento do controle
de infecção hospitalar? Quais os principais avanços
da área?
Resposta: Cada vez mais estamos entendendo a complexidade
da interação do homem com os microrganismos, que já
habitam o nosso corpo, em equilíbrio com nossas defesas,
superando em 10 vezes as nossas próprias células.
As infecções hospitalares são resultantes principalmente
do rompimento desse equilíbrio, provocado pela interação
entre a queda da resistência antiinfecciosa, relacionada à
própria doença do paciente; a utilização
dos procedimentos invasivos, rompendo barreiras naturais de defesa;
e o contato do paciente com os micróbios hospitalares, selecionados
pelo uso de antibióticos e transmitidos principalmente pelas
mãos da equipe de saúde, enquanto prestam assistência.
Os principais avanços procuram aprimorar nossos recursos
diagnósticos terapêuticos, melhorando assim a resistência
antiinfecciosa do paciente; tornar os procedimentos invasivos mais
compatíveis com a biologia humana, reduzindo sua contaminação
e seu efeito nocivo sobre os mecanismos de defesa do paciente; uso
criterioso de antibióticos; e novas estratégias que
estimulam a higiene das mãos, criando novas barreiras contra
a transmissão cruzada de infecções. Mas todos
estes recursos têm um preço e um risco intrínseco,
empregá-los com sabedoria é a essência de uma
prevenção e controle de infecção eficaz.
O controle de infecções é um investimento que
se faz na qualidade da assistência e apesar de seu custo inicial,
acaba dando um ótimo retorno financeiro, reduzindo as despesas
que teríamos com as infecções prevenidas e
racionalizando o emprego de tecnologia e principalmente antibióticos.
Portanto, o que diferencia as instituições de saúde
é sua abertura para este investimento, que mais que uma obrigação
legal, é um ditame ético e moral das instituições
e de todos os profissionais de saúde.
02
- Qual a sua opinião sobre a estratégia da ABIH de
montar o IX Congresso Brasileiro tendo por base indicadores de opinião
dos potenciais congressistas, através de enquete eletrônica?
Resposta: Esta foi a estratégia perfeita para o momento
que nós vivemos. A prevenção e controle da
infecção hospitalar envolvem um conhecimento cada
vez mais especializado, mas, ao contrário de outras especialidades
na área da saúde, ele só se torna efetivo,
se for incorporado por todos os profissionais que prestam assistência
direta ou indireta ao paciente. Assim, o segredo de seu sucesso
está em se aliar à atualização técnico
científica, o estabelecimento de estratégias adequadas
para difusão do conhecimento e sua incorporação
efetiva na prática profissional, trazendo a motivação
decorrente da maior satisfação profissional e, conseqüentemente,
qualidade à assistência prestada.
O resultado da pesquisa realizada refletiu bem esta tendência,
na qual temas voltados à qualidade da assistência,
avaliação de resultados e processos, estratégias
educativas e motivacionais tiveram mais votos do que tópicos
tradicionalmente abordados nestes eventos. Pela enquête, observamos
a necessidade de um novo paradigma profissional, que se reflete
diretamente no conteúdo científico do congresso. Assim,
temos absoluta consciência de estarmos fazendo o certo, o
adequado, o necessário e o preferido.
03 - Qual a opinião do senhor sobre o tema central do
Congresso, "Novas práticas de CIH no Brasil"?
Resposta: Vivemos num mundo e sociedade em constante evolução,
que se reflete em sua ciência. Faz uma enorme diferença,
a capacidade de perceber indícios de inadequação,
ter flexibilidade para assumir novas posturas, sem resistências,
dando respostas mais adequadas aos desafios. Embora o Brasil já
tenha uma legislação detalhada sobre o tema e vários
centros despontem produzindo conhecimento de qualidade, a reflexão
sobre nossa profissão e suas conseqüências para
o ecossistema, a saúde pública e nossa economia, devem
ser uma constante. Assumir novas práticas, não quer
dizer confronto com o clássico, mas sim, sua evolução
contínua. Trocar experiências, inclusive com convidados
internacionais, deve ser a tônica deste evento, onde de múltiplas
realidades e percepções, surgirão soluções
compartilhadas e conseqüentemente, mais adequadas aos desafios
do nosso tempo.
04 - Que contribuição o senhor trará para o
evento?
Resposta: A minha contribuição pessoal estará
inserida no contexto e filosofia do congresso, do qual faço
parte e tem seu pequeno papel, inserido diante dos inúmeros
conferencistas (nacionais e internacionais) de renome que já
confirmaram sua presença, do temário muito bem desenvolvido
pela comissão científica e da forma inovadora de planejamento
do congresso. Trarei minha experiência pessoal como profissional
de saúde que há mais de 25 anos se dedica ao tema,
que há algum tempo centra seus esforços nas múltiplas
interfaces do controle de infecção hospitalar com
a qualidade assistencial e a sobrevivência da nossa espécie
em nosso ecossistema, que pode ser ameaçada, entre outros
fatores, pelo uso inconseqüente dos antimicrobianos, ou por
desequilíbrios ecológicos refletidos em doenças
emergentes, que se não forem devidamente controladas, poderão
se transformar em catástrofes.
05 - Como avalia a importância do Congresso para a área,
levando-se em conta, principalmente, o momento de mudanças
que o CIH está vivendo?
Resposta:
Aceitar mudanças é um grande desafio pessoal, que
a própria organização do congresso vivenciou.
Além da atualização científica em prevenção
e controle das infecções hospitalares, outras importantes
abordagens serão debatidas no congresso, tais como: planejamento
estratégico; auditorias de qualidade; experiências
educativas em saúde; motivação; prevenção
de infecção fora do hospital; avaliação
custo-benefício; globalização e controle de
infecção; multidisciplinariedade; entre outros. Este
temário comprova a importância de inserirmos a nossa
profissão e própria assistência em um debate
muito mais amplo, que envolva aspectos pedagógicos, sociais,
econômicos, políticos, ecológicos, legais, éticos
e bioéticos. A prevenção e o controle de infecção
exigem uma abordagem ampla e multifacetada. Este desafio, aliado
a necessidade de mudanças, foi aceito pela organização
do congresso e transcende qualquer visão unilateral e conservadora
do tema. A importância do evento será definida pelo
compartilhamento desta realidade.
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06
- Como os profissionais de saúde, de modo geral, devem
estar envolvidos com o CIH em suas respectivas unidades de trabalho?
Resposta: incorporar todas estas informações,
trazendo respostas práticas para as questões do
nosso dia a dia é o objetivo essencial e até filosófico
do congresso, na minha opinião. A morte trágica
de Semmelweis, pioneiro do controle de infecção,
louco em um hospício, sem conseguir mudar paradigmas
pessoais e dos seus colegas, é um exemplo que precisa
ser melhor entendido, se quisermos mudar a realidade em nossas
instituições de saúde. A verdade, por si
só, por mais evidentes que sejam os resultados, não
muda comportamentos seculares. Temos que agir, não adianta
mais reclamar da não aderência dos profissionais
de saúde à higiene das mãos ou ao uso criterioso
de procedimentos invasivos ou de antibióticos; da resistência
dos administradores em apoiar as recomendações
da CCIH; das políticas inadequadas para o controle das
infecções hospitalares; das decisões equivocadas
da justiça em casos de infecção hospitalar.
Já dizia Dostoievski : "se as pessoas ao redor não
prestam atenção no que você diz, caia de
joelhos diante delas e peça-lhes perdão, por que
na verdade você é o culpado". Temos que aprender
novas formas de abordagem para aprimorar a aderência dos
profissionais de saúde e de toda comunidade às
nossas recomendações e princípios. Este
foi o desejo da maioria dos colegas, que responderam a pesquisa
de opinião. Estes temas serão discutidos no congresso
e ajudarão como resolver problemas seculares em nossas
unidades de trabalho.
07 - Que medidas considera mais importantes para o CIH? A
lavagem das mãos continua sendo considerada uma das mais
simples e importantes medidas, mesmo no momento atual, em que
a qualidade da assistência é o principal foco para
o controle das infecções?
Resposta: A lavagem com água e sabão ou
a higiene das mãos com soluções alcoólicas
é ainda a mais simples medida para o controle da transmissão
cruzada das infecções hospitalares. Existe um
total sinergismo entre aderência a esta recomendação
e a qualidade da assistência. Ela continua sendo um dos
principais focos da nossa atuação. Alias, a prevenção
e controle de infecção não devem ser entendidos
como sinônimo de incorporação tecnológica.
Curiosidade, criatividade, persistência e um profundo
respeito à ética e a verdade são fundamentais.
Será que conseguimos convencer todos os profissionais
de saúde da importância desta medida? Será
que eles já incorporaram estes princípios à
sua prática? Por que isso não acontece? Como podemos
aprimorar a nossa abordagem?
Podemos aprender muito com Albert Einstein, que nos dizia: "o
mais importante é não parar de questionar. A curiosidade
tem sua própria razão de ser. É mais que
suficiente tentarmos simplesmente compreender um pouco desse
mistério a cada dia. Nunca perca a sagrada curiosidade".
08 - Voltando-se mais para o seu campo de atuação
quais os desafios atuais na área de epidemiologia?
Resposta: Vou concentrar essa resposta nas possíveis
aplicações da epidemiologia no ambiente hospitalar.
Ela é bastante útil para auxiliar os colegas a
entenderem os princípios da prática profissional
baseada em evidências científicas. Isto é
muito importante diante da necessidade de ter um método
para avaliar a qualidade das informações científicas
e como aplicá-las à nossa atuação
profissional, neste momento em que somos pressionados por novos
conhecimentos e opções, custos crescentes e necessidade
de fundamentação de nossas condutas, diante de
operadoras de saúde e clientes cada vez mais exigentes.
Os próprios indicadores de infecção hospitalar
estão sendo constantemente revisados na busca da melhor
eficiência em monitorar o processo do atendimento e seus
resultados. E, finalmente, sua abordagem pode ser expandida
para análise de outros eventos relacionados ao atendimento
à saúde, interagindo com as comissões de
qualidade. Ou seja, a epidemiologia como ferramenta do aprimoramento
do processo assistencial nas suas várias etapas, transcendendo
o controle de infecção.
09 - No caso específico dos germes multiresistentes
e emergentes, quais as estratégias específicas
para o controle?
Resposta: Os germes multiresistentes e os patógenos emergentes
são reflexos de um profundo desequilíbrio ecológico
provocado pelo homem na natureza e dentro do ambiente hospitalar.
Invadindo e destruindo ecossistemas seculares, nos expomos a
patógenos desconhecidos. Abusando de antibióticos,
não só no hospital, mas na própria comunidade,
muitas vezes empregados em agricultura e pecuária, selecionamos
a cepas resistentes, que são transmitidas no ambiente
hospitalar, pela inobservância das medidas básicas
de controle previstas nas Precauções Padrão.
Então na base de tudo está a necessidade de uma
consciência ecológica, que compreende as conseqüências
de nossos atos sobre nosso ecossistema. No congresso debateremos
medidas específicas para cada agente multiresistente
que se destaca no ambiente hospitalar, mas que sinteticamente
envolvem o uso criterioso de antibióticos, identificação
de pacientes colonizados ou infectados por estes microrganismos,
controle de possíveis fontes ambientais e medidas de
precauções para evitar a sua disseminação.
Dados Pessoais.
Antonio Tadeu Fernandes, médico infectologista,
responsável pela CCIH do Hospital do SEPACO, consultor
em controle de infecção e editor chefe do livro
"Infecção Hospitalar e suas Interfaces na
Área da Saúde", Premio Jabuti 2001 na categoria
ciências naturais e da saúde. Coordenador científico
do IX Congresso Brasileiro de Controle de Infecção
e Epidemiologia Hospitalar.
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