O que há
de novo em controle de infecção (IRAS; IACS; IH): 01/2011
Para atualização dos internautas em prevenção e controle
das IRAS (IAQS) (IH) apresentamos uma síntese dos principais artigos publicados
no exemplar de janeiro 2011 da revista Infection Control & Hospital
Epidemiology (vol 32; number 1). Os temas serão
subdivididos por tópicos.
MRSA
Ellingson e colaboradores reduziram significativamente a
incidência de colonização e infecção por MRSA em um hospital de veteranos dos Estados
Unidos empregando uma intervenção multifacetada
composta de três elementos: estratégias comportamentais para promover a adesão
aos protocolos de controle de infecção; ênfase na higiene das mãos e
desinfecção ambiental; vigilância ativa de portadores nasais e em feridas abertas.
Robicsek e colaboradores elaboraram um modelo matemático
para prever quais pacientes estão colonizados por MRSA a partir dos fatores de
risco avaliados na vigilância ativa da presença destes microrganismos nos
pacientes internados em hospital da Universidade de Chicago. Foram avaliados
23.314 pacientes e as regras para validação testadas em 26.650 pacientes. O
modelo identifica entre 60 a 70% dos pacientes com MRSA,
identificando os que têm maior probabilidade de estarem com ou sem este
microrganismo. Na análise multivariada, os principais fatores de risco
encontrados foram (odds ratio e intervalo de confiança): fibrose cística (8,8;
3,0 a 25,9); assistência domiciliar (2,8; 2,1 a 3,7); instituição psiquiátrica
(2,4; 1,3 a 4,3); sonda para alimentação(2,4; 1,5 a
3,7); úlcera de pressão (2,0; 1,5 a 2,7); uso de cefalosporina (0,3; 0,2 a
0,4).
Feng e colaboradores observaram em um hospital americano de
veteranos que a pesquisa ativa de portadores de MRSA identifica 4,9 vezes pacientes
com este agente, tanto em terapias intensivas como nas demais unidades de
internação. A tendência ao longo do tempo foi similar, utilizando ou não essa
busca ativa.
Reynolds e colaboradores estudaram a prevalência de
portadores nasais de MRSA em 10 serviços de atendimento domiciliar na
Califórnia, atendendo de 24 a 255 residentes e uma média de permanência de 22 a
689 dias. A prevalência de MRSA à admissão no serviço variou de 8 a 31% e a
prevalência ponto realizada durante o atendimento variou de 7% até 52%.
Comparando-se estes dois períodos, em dois serviços houve queda na incidência
(4 a 5%) e nos demais, aumento (8 a 30%). Por análise multivariada os seguintes
fatores predisponentes se destacaram: portador identificado previamente (OR
2,7; p<0,001); pacientes não brancos (OR 1,3 p <0,001); hispânicos (OR
1,5; p< 0,001); serviços com alta incidência de portadores (p = 0,05);
atendimento via Medicaid (p<
0,001). Segundo os autores, alguns destes dados podem ser reflexos de situação
sócio-econômica ou de condições para se implantar uma boa assistência
domiciliar.
Espinoza e colaboradores estudaram os fatores de risco e
a prevalência de MRSA entre pacientes críticos em sete UTIs de um hospital universitário terciário do Texas. Foram pesquisados swab nasal
de pacientes admitidos na UTI com internação inferior há 3 dias, os quais ficavam em precauções de contato. 1.187 pacientes não
pediátricos foram avaliados e a prevalência de colonização foi 12,5% (149
pacientes). Os fatores de risco que apresntaram significância estatística para
a colonização foram (OR, intervalo de confiança, valor de p): hospitalização
nos últimos seis meses (2,48; 1,70-3,63; p< 0,001); hospitalização no último
ano (2,27; 1,57-3,80; p< 0,001); e diabete mellitus (1,63; 1,14-2,32; p
= 0,007). Uso de antibióticos e doença neoplásica, ao contrário de outros
estudos não foi fator de risco significativo nesse estudo.
Em carta ao editor, Bhat e colaboradores estudaram a
relação entre pacientes portadores de MRSA (swab nasal) e a presença deste
agente no sítio de infecção em um hospital terciário de 706 leitos dos Estados
Unidos. De 630 pacientes em 32,7% o MRSA foi isolado no swab e na infecção. A
sensibilidade foi 64,4% a especificidade foi 95,2%, valor preditivo negativo
foi 72,1% e o valor preditivo positivo foi 93,2%. Dada a baixa sensibilidade do
swab nasal os autores sugerem que se pesquise este agente em outras topografias
do paciente tais como axila, períneo ou feridas, mas os autores não garantem se
esta pesquisa ampliada reduzirá infecções por este agente. Neste artigo também
faço uma observação sobre a ausência da pesquisa de transmissão cruzada e do
papel da equipe na cadeia epidemiológica deste agente.
Clostriduim difficile
Benoit e colaboradores realizaram
um estudo multicêntrico envolvendo 4.585 pacientes de 34 hospitais em 12
estados americanos para validar um sistema de vigilância de infecção por Clostirdium difficile nos Estados
Unidos, entre janeiro de 2007 e junho de 2008, por pesquisa de toxina. Os casos
foram classificados como hospitalares se a coleta se deu após 3 dias de hospitalização. A maioria foi classificada como de
origem comunitária (53,0%), dos quais 30,8% tinham história recente de
hospitalização. A densidade de
incidência desta infecção hospitalar foi 7,8 casos por 10.000 pacientes-dia,
variando de 1,5 até 27,8.
UTI neonatal
McGrath e collaboradores
estudaram um surto em UTI neonatal de infecção por Acinetobacter baumannii resistente ao carbapenen (MDR) envolvendo
seis recém-nascidos em hospital escola de Detroit de 36 leitos. Os pacientes
afetados tinham entre 23 e 30 semanas de idade gestacional, todos com peso ao
nascer abaixo de 1000g e estavam internados entre 10 e 197 dias. As topografias de
infecção foram: pneumonia (4 casos), conjuntivite (2
casos) e bacteremia (1 caso). Cinco
pacientes tiveram alta e um faleceu de causas nãos relacionadas com a infecção.
Durante o surto, culturas de vigilância foram obtidas de todos pacientes da
unidade, foi realizada a coorte dos pacientes afetados, atendidos por equipe de
enfermagem distinta, precauções de contato, ênfase na aderência às práticas de
controle de infecção, técnica estéril para todos procedimentos invasivos e
limpeza ambiental. O surto foi relacionado à transmissão cruzada e foi
controlado com as medidas executadas.
Zingg e colaboradores monitoraram tendências em sepse
clinica e infecção da corrente sanguínea associada a cateter vascular central
em uma UTI neonatal de um hospital terciário americano, entre 2001 e 2008. Foi
realizada busca ativa de casos, com três visitas semanais. Foram avaliados
1.124 recém nascidos, submetidos a 2.210 cateterizações, expostos a 11.467
cateteres-dia. A mediana da duração do uso de cateter central inserido
perifericamente (PICC) foi 8 dias e a de cateter
umbilical foi 4. Foram identificados 120 episódios de infecção, com uma mediana
de 7 dias para sua ocorrência e uma densidade de infecção de 8,5 episódios por
mil cateteres dia. Os maiores índices foram obtidos entre RN abaixo de 750g (14,9 por mil
cateteres dia) e com uso de PICC (13,2 por mil cateteres dia). Dentre os
fatores de risco numa análise multivariada tivemos: extremo baixo peso ao
nascer com 2,24 (1,42-3,53); uso de nutrição parenteral 2,23 (1,10 – 4,55) e
como fator protetor o uso de antibióticos pelo cateter 0,33 (0,21 – 0,52). Na
comparação entre os tipos de acesso, o PICC foi empregado por mais dias e
principalmente entre os recém nascidos de muito baixo peso, enquanto o cateter
umbilical foi utilizado por um menor número de dias e principalmente entre
recém nascidos com mais de 2.500g. Os autores concluíram que cateteres mantidos
até sete dias representam um risco semelhante de infecção, independente do tipo
de cateter. Após este período, o PICC apresenta menor risco de infecção.
Infecção relacionada a cateter vascular
Maki e colaboradores realizaram
um estudo multicêntrico com meta-análise dos dados comparando sistema aberto de
infusão (frasco de vidro ou de plástico semi rígido,
com bureta) com sistema fechado (frasco de plástico colapsável) em relação a
ocorrência de infecção da corrente sanguínea associada ao acesso vascular em
pacientes em 15 UTIs de diversos países (Argentina, Brasil, Itália e México).
No Brasil o estudo foi realizado pelo Dr. Reinaldo Salomão, a quem
parabenizamos. O sistema aberto foi substituído pelo fechado e foi comparada a
incidência desta infecção, sendo que os pacientes não apresentavam diferenças
significativas, comparando-se os dois períodos, incluindo índices de gravidade,
fatores de risco para infecção da corrente sanguínea, aderência a higiene das mãos, cuidados com acesso vascular e duração
da cateterização. O consolidado dos dados mostrou que o emprego do sistema
fechado resultou em queda significativa da incidência de infecção relacionada
ao procedimento de 10,1 para 3,3 infecções por mil cateteres-dia. 0,33 (0.24 a
0,46) (RR; limites de significância) e da mortalidade na CTI de 22,0 %para
16,9 %, 0.77 (0.68 a 0.87).
McHugh e colaboradores estudaram
em um hospital terciário de 631 leitos em Dublin a aderência às boas práticas
de prevenção de infecção associada a cateter vascular periférico,
enfatizando-se o papel do próprio paciente. Os dados foram obtidos pelo
prontuário e visitas às unidades e conversas com os pacientes (4 enfermarias de cirurgia geral) sendo avaliados 275
cateteres, dos quais 38% foram
considerados desnecessários, pois o paciente não recebia mais medicamento por
via venosa. Em 178 casos foi possível questionar o paciente sobre o motivo de
seu cateter e 38% não souberam responder. Entre estes pacientes foi
significativamente maior o número de cateteres desnecessários. Em relação ao
curativo, 87% estavma íntegros e limpos e 88% dos catetes estavam a menos que
72 horas. Em relação a estes tópicos não houve diferença significativa se o
paciente estava ou não informado sobre a necessidade do cateter. Segundo os
autores este estudo comprova a importância da informação do paciente em relação
à duração da cateterização, mas eu questiono esta conclusão, pois se o cateter
é desnecessário (a equipe não sabe explicar) como o paciente vai “justificar”
sua manutenção? Este estudo não explica o papel da informação do paciente na
manutenção ou retirada do cateter, só apresenta dados que podem ser um viés, na
minha opinião, ressalto, pois seria mais fácil interpretar que cateteres
desnecessários não conseguem ser “justificados” nem
pela equipe de saúde e muito menos pelo paciente.
Higiene das mãos
Mayer e colaboradores avaliaram
a importância do feedback positivo na
disseminação e a sustentabilidade de um programa multidimensional sobre higiene
das mãos, em um hospital universitário americano de 450 leitos. Um bundle foi introduzido inicialmente numa
unidade piloto focando fatores cognitivos e comportamentais, incluindo acesso
às soluções alcoólicas, atividades educativas, auditoria contínua e feedback. O bundle foi posteriormente disseminado em todo o hospital focado em mudanças
comportamentais, reforços positivos e metas anuais. Entre outubro de 2000 a
outubro de 2006 foram avaliadas 36.123 oportunidades para higiene das mãos e o
índice de conformidade aumentou significativamente de 40% para 64%
(p<0,001), chegando a 73% a 84% no segundo ano e mantendo-se entre 59 e 81%
durante os seis anos do programa. Este aumento foi observado entre todos os
profissionais comparando-se os dados basais com as adequações avaliadas durante
os seis anos: médicos de 27% para 60% com pico em 61%; enfermagem de 27% para
75%, com pico em 82% e demais profissionais de 35 para 63%, com pico de 80%.
Yeung e colaboradores realizaram
um ensaio controlado randomizado em instituição para pacientes idosos crônicos
de Hong Kong, envolvendo o uso de dispensadores de bolso de soluções alcoólicas
para higiene das mãos. A intervenção consistiu de atividades educativas (aulas
e posters), distribuição da solução
alcoólica referida e de uma caneta esferográfica com lembrete para higiene das
mãos. Foi observada a aderência a
higiene das mãos no período pré e pós intervenção.
Enquanto que entre os funcionários randonizados para interveção a aderência à
higiene das mãos aumentou significativamente (p=0,01) de 25,8% para 33,3%, no
grupo controle não foi observada alteração significativa. Entre os pacientes
foi observada uma redução significativa (p=0,002) na ocorrência de infecção
grave de 1,42
casos para 0,65 por mil residentes-dia
no grupo atendido pelos funcionários, com queda significativa (p=0,001) na
incidência de pneumonia de 0,91 para 0,28 casos por mil residentes-dia e
redução também no óbito com infecção de 0,37 para 0,10 por mil residentes-dia
(p=0,10). No grupo controle não foram observadas
alterações significativas, exceto um aumento na incidência de infecção grave.
Infecção do sítio cirúrgico
Kono estudou retrospectivamente 1.000 neurocirurgias da base do crânio por via endonasal
realizadas na Universidade de Pisttisbrug entre 1998 e 2008. Em 18 casos (1,8%)
o paciente desenvolveu meningite com dois óbitos por causas não infecciosas
após 2 meses. Dentre os fatores de risco tiveram
significância estatística: complexidade da cirurgia (cirurgias intradurais e
cerebrovasculares); escape de liquor no pós operatório;
presença de dreno ventricular externo ou ventrícuo peritonial; craniotomia ou
cirurgia endonasal prévia; dreno lombar no pós operatório imediato; cirurgia
acima de 4 horas e sexo masculino. O risco de infecção foi comparável com o
obtido após craniotomia aberta. Todos os pacientes se recuperaram após a
infecção.
Gripe H1N1
Na seção de cartas da revista
Meites e colaboradores avaliaram o impacto da gripe A H1N1 em um hospital
escola da Argentina com 500 leitos, levando-se em consideração o maior volume
de atendimento e o possível afastamento de profissionais de saúde acometidos. Este
hospital notificou o primeiro caso confirmado na Argentina em junho de 2009.
Foi realizado um planejamento que incluiu entrevistas com as lideranças
hospitalares e a criação de uma comissão especifica que elaborou um plano de
ação. Foram adquiridos novos ventiladores mecânicos, ampliada a capacidade do
laboratório fazer o teste do PCR e reservadas unidades para receber pacientes
com sintomas respiratórios, atendidos com uso de máscaras N95. As férias foram
suspensas no período e foram contratados enfermeiros temporários. Algumas
cirurgias eletivas foram adiadas. Embora não tenha sido observado um aumento da
taxa de ocupação de leitos, houve um maior uso de ventiladores mecânicos
comparando-se com igual período do ano anterior. Houve um aumento de leitos
para pacientes críticos e o absentismo que chegou a 43% da enfermagem, foi
compensado pela contratação prévia dos temporários.
Antonio
Tadeu Fernandes
São
Paulo, 5 de abril de 2011.
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