cap. 59
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Descontaminação de artigos de uso único

Segundo a equipe do Dr. Heeg, da Alemanha, existem dois tipos riscos relacionados a reutilização de artigos de uso único: possibilidade de infecção ou outra complicação pelo ao uso do item reprocessado e problemas referentes a aspectos éticos, econômicos e possíveis ações jurídicas, reforçadas pela recente condenação de instituição em que um paciente adquiriu hepatite C após biópsia endoscópica, devido ao reuso de descartáveis. Na tentativa de respaldo para a prática de reutilização de descartáveis, infelizmente não existem dados sobre a eficácia da descontaminação e a durabilidade dos materiais reprocessados. O autor e sua equipe desenvolveram um trabalho experimental para buscar resposta a estas questões.
No seu experimento, todos os métodos de limpeza, desinfecção e esterilização seguiram recomendações oficiais da AAMI (Association for the Advancement of Medical Instrumentation). Contaminação foi definida como a presença de microrganismos ou outro material indesejável (sujidade orgânica ou inorgânica ou material biológico) sobre ou no interior de um objeto. Descontaminação refere-se a um processo que inclui limpeza e desinfecção de um artigo contaminado. O conceito de esterilização foi o mesmo empregado por Spaulding que requer um nível de segurança de 10-6 (nota do autor do resumo: este conceito é discutido com maiores detalhes na página 278 do livro: Infecção Hospitalar e suas Interfaces na Área da Saúde). Os autores também compararam instrumentais reutilizáveis com os de uso único em relação aos efeitos do reprocessamento.
Foi realizada uma contaminação artificial da superfície e do lúmen dos equipamentos a serem avaliados por um aparelho que infundia no sangue humano com isótopos radioativos, em um período de 15 minutos, com a finalidade de simular as condições de uso de um endoscópio gastrointestinal. Para avaliação da limpeza, os autores usaram um método de radionucleotídeos que empregava radiação gama para se visualizar a contaminação. O scanning por microscopia eletrônica foi usado para visualizar a superfície do material reprocessado, identificando camadas ou partículas contaminantes. Um método espectroscópico com raio X fotoelétrico foi empregado para se avaliar a composição da superfície dos artigos, particularmente a ocorrência de oxidação.
Para avaliação da limpeza prévia, foram utilizados 11 endoscópios, um deles empregado como controle. A superfície externa de cada artigo contaminado foi limpa por fricção e seus canalículos pela infusão de detergente enzimático e todo o equipamento foi submerso nesta mesma solução por cerca de 10 minutos. Posteriormente o material foi submetido a ultra-som com água corrente de 30 a 35ºC por cinco minutos, sob freqüência de 40 kHz e realizado enxágüe com água corrente.
Para avaliação da desinfecção, seis artigos foram contaminados artificialmente com culturas padrão de S. aureus e P. aeruginosa em concentração de 106 a 107 UFC/mL, suspensos em sangue de carneiro heparinizado. Na desinfecção, foi utilizado glutaraldeído a 2% por 20 minutos, seguido de enxágüe com água corrente e secagem com ar seco e gaze estéril. A efetividade da desinfecção foi medida em termos de log redução, comparando-se a carga microbiana antes e após o reprocessamento.
Para avaliação da esterilização, foram empregados 20 artigos, sendo que 9 foram submetidos a óxido de etileno e 9 foram autoclavados, sendo mantidos dois itens para controle. A contaminação foi realizada por uma suspensão de esporos de Bacillus subtilis var niger para material que foi submetido a óxido de etileno, e Bacillus stearothermophilus para artigos que foram submetidos a autoclavação. A suspensão de esporos continha 0,5 a 5,0 vezes 106/mL. Os artigos foram embalados adequadamente e submetidos a meio ciclo de esterilização. Para se avaliar a contaminação, foram cortados assepticamente segmentos dos materiais e encaminhados em tubo estéril com meio de transporte ou realizado rinsagem com soro fisiológico, sendo incubados por sete dias em meio de cultura enriquecido. A efetividade da esterilização foi medida pelo não viabilidade dos esporos submetidos ao processo.
A limpeza não foi suficiente para remover a contaminação em todos os artigos reprocessados, embora o grau de contaminação fosse distinto. Em itens descartáveis, houve redução significativa da quantidade de oxigênio e de silicone e aumento de carbono e nitrogênio, indicando presença de matéria orgânica, que a limpeza não foi suficiente e deterioração da camada de silicone. No teste de desinfecção, apenas os artigos não descartáveis obtiveram redução da carga microbiana compatível com o processo de desinfecção (redução > 5log de UFC), não ocorrendo o mesmo com os artigos descartáveis. A esterilização não foi conseguida em nenhum item reprocessado.
Segundo os autores, estes resultados sugerem que os artigos descartáveis não são adequadamente descontaminados pelos processos de reprocessamento padronizados, podendo ainda sofrer danos em sua superfície. Embora este estudo não correlacione este problema com a ocorrência de doenças, ele sugere esta possibilidade, pois pode haver contaminação do paciente, liberação de pirogênios ou perda das características originais do item reprocessado. Diferenças no formato e no material empregado explicam as dificuldades para se reprocessar artigos de uso único, quando comparados com itens não descartáveis. Existe maior dificuldade para que as soluções de limpeza e o agente esterilizante atinjam todo o artigo. Concluindo, os autores reforçam a importância da monitorização da limpeza interna e da esterilização nos métodos de reprocessamento e que este estudo pode ajudar a identificar artigos que não devem ser reprocessados, porque a sua estrutura impede o acesso dos agentes de limpeza e de esterilização a todas as superfícies.

Fonte: Heeg P, Roth K, Reichl R, Cogdill P, Bond WW. Decontaminated single-use devices: an oxymoron that may be placing patients at risk for cross-contamination. Infect Control Hosp Epidemiol 2001; 22:542-549.

Resumido por: Antonio Tadeu Fernandes.

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