cap. 89
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Evidência que a higiene hospitalar é importante para o controle de MRSA

 

A higiene das mãos é uma medida essencial para prevenção de infecções cruzadas. A higiene ambiental é valorizada desde a época de Florence Nightingale e até hoje se considera que os hospitais não devam estar sujos, embora seja difícil comprovar que a contaminação ambiental represente risco para os pacientes. A equipe do Dr. A Rampling enfrentou um surto prolongado por MRSA que só foi controlado com medidas que incluíram aprimoramento da higiene ambiental. A tipagem por eletroforese em gel submetido a corrente em campo pulsátil revelou que a cepa era tipo E-MRSA 16. Esta cepa foi isolada em 72 infecções, em 69 pacientes e era resistente a meticilina, eritromicina, ciprofloxacina e gentamicina, sendo os casos de infecção tratados com vancomicina.
O surto aconteceu na unidade de internação masculina da clínica cirúrgica do Dorset County Hospital em Dorchester, no Reino Unido. Esta unidade continha 37 leitos, dos quais quatro de isolamento. O corredor principal é acarpetado, mas os quartos têm piso de vinil. Esta unidade fica próxima à feminina, com 32 leitos. São admitidos cerca de 2600 pacientes/ano principalmente para cirurgias urológicas, gastro-intestinais e vasculares.
Casos de infecção por MRSA foram identificados desde 1996, quando o Hospital instituiu sua CCIH, envolvendo principalmente sítio cirúrgico, lesões cutâneas, trato urinário e cateteres vasculares. O surto teve início em janeiro de 1998 e se prolongou no ano de 1999. Neste período foi pesquisado em todos os pacientes internados a presença da cepa epidêmica em nariz, garganta, axila, períneo, lesões cutâneas e urina de pacientes sondados. Os portadores ou pacientes infectados com MRSA eram isolados e recebiam tratamento adequado. Os demais pacientes que compartilhavam o mesmo quaro eram novamente pesquisados quanto à presença de MRSA. Na identificação de dois ou mais casos numa mesma enfermaria, eram bloqueadas novas admissões e a enfermaria era limpa e desinfetada antes da admissão de novos pacientes. Foi estimulada a higiene das mãos pela lavagem com água e sabão ou aplicação de gel alcoólico.
Apesar das medidas convencionais de isolamento, ele continuava acometer os pacientes internados. Foi iniciada pesquisa de portador nos profissionais, durante os picos de infecção, mas esta atividade foi descontinuada, pois não houve evidência que qualquer membro do staff tinha a cepa epidêmica. Começou a ser realizada nas unidades com pacientes colonizados/infectados pesquisa de fontes ambientais contaminadas com a cepa epidêmica, sendo que em dezembro de 1998 foi elaborado um protocolo que incluía rotineiramente a pesquisa em mobiliários, piso, equipamentos médicos, cama, maçaneta, ducto e grade do sistema do ar condicionado e campainha. Monitoramento semelhante foi realizado na unidade feminina como controle. O grau de contaminação ambiental foi determinado pelo número de swab positivo para a cepa epidêmica. Além disso, foi realizada auditoria por inspeção mensal feita em conjunto pela CCIH e o Serviço de Hotelaria.
A contaminação ambiental foi observada em 10,7% das amostras ambientais coletadas na unidade masculina contra apenas 0,80% na unidade feminina. Dos locais pesquisados, os destaques foram: grade do sistema de ventilação (36,4%); equipamentos médicos (13,2%); mobiliário (11,3%); maçanetas (10,7%). A cepa epidêmica, que foi observada em 69 pacientes na unidade masculina, foi encontrada em apenas três casos na unidade feminina, durante o período do surto. Estas unidades eram atendidas pela mesma equipe de profissionais de saúde.
Em setembro de 1999, foram iniciadas novas medidas de controle como: criação de uma equipe de controle de infecção da própria unidade; fechamento, limpeza e desinfecção das enfermarias que foram ocupadas por pacientes que tinham a cepa epidêmica; foi dobrado o tempo despendido para a limpeza e desinfecção da unidade, dando ênfase ao uso de aspirador de pó nos carpetes; criação de uma rotina de limpeza com tarefas bem específicas para enfermagem e profissionais de higiene. Estas medidas ambientais foram empregadas também na unidade feminina. Após a implantação das novas medidas, não foi observado nenhum caso de infecção pela cepa epidêmica na unidade masculina e outras cepas de MRSA foram isoladas em 0,47% dos materiais coletados nesta unidade e em 0,80% na unidade feminina.
Segundo os autores, este surto demonstrou a capacidade do MRSA sobreviver á dessecação e manter-se viável na poeira ou na descamação da pele, por períodos de até meses. O grau de contaminação ambiental, embora presente em pacientes portadores desta cepa nas suas membranas mucosas, foi bem maior em pacientes que a eliminava por lesões cutâneas ou infecção relacionada à sondagem vesical. A contaminação ambiental pode se disseminar de paciente-a-paciente através das mãos da equipe, correntes de ar ou pelo compartilhamento de equipamento médico-hospitalar. Como a limpeza rotineira realizada anteriormente não envolvia a aspiração do pó e nem a desinfecção ambiental, provavelmente não eram efetivas para a eliminação desta cepa epidêmica. Assim, as medidas habituais de controle falharam devido à manutenção destes reservatórios ambientais. Este estudo demonstrou que a poeira ambiental foi importante fonte de MRSA nestes pacientes cirúrgicos.

Fonte: Rampling A. et al. Evidence that hospital hygiene is important in the control of methicillin-resistant Staphylococcus aureus. J Hosp Infect (2001) 49:109-116.

Resumido por: Antonio Tadeu Fernandes.

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