cap. 52
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Higiene das mãos: comparação das recomendações internacionais

 

Desde os primórdios para o controle da febre puerperal, até hoje, para a prevenção da transmissão cruzada das infecções hospitalares, a lavagem das mãos proposta por Oliver Wendel Holmes, disputa a preferência com a anti-sepsia preconizada por Semmelweis, a partir da aplicação de uma solução clorada. Mesmo os termos empregados variam consideravelmente de acordo com os guias estudados.
Wendt C. realizou um estudo comparando as principais recomendações de diversas publicações procurando identificar consensos e divergências. Fez pesquisa na Internet, Medline e seu acervo pessoal, buscando respostas a vinte questões elaboradas por colegas a respeito do tema. Para uniformizar os conceitos básicos, este autor utilizou as definições padronizadas na Europa para os principais termos. A lavagem higiênica das mãos foi definida como um procedimento realizado após a contaminação das mãos que envolve o emprego de água e um sabonete anti-séptico com o objetivo de remover principalmente a flora transitória. A fricção higiênica das mãos foi definida como a aplicação de uma solução anti-séptica sem a utilização de água corrente, com o objetivo de remover principalmente a flora transitória. Já a lavagem das mãos refere à aplicação de água e sabonete sem adição de germicidas.
Apenas quatro guias estudados classificam as informações de acordo com evidências científicas. O texto elaborado pelo CDC em 1985 divide as recomendações em categorias I, II e III. Na categoria I ele coloca as evidências obtidas de estudos bem realizados, opinião da maioria dos experts ou o que é realizado em todos os hospitais. A recomendação elaborada em 2000 na Alemanha pelo Instituto Robert Koch classificou as orientações em IA, IB e II. Na primeira categoria, além dos estudos bem desenvolvidos e do que é realizado em todos os hospitais, como no Guia do CDC, foram incluídos os estudos randomizados. O guia editado no Canadá em 1998 não considerou nenhuma recomendação na categoria I e o feito na Inglaterra no ano 2000 só considerou os estudos bem desenhados.
Foram observadas divergências na classificação do grau de evidência científica das demais categorias apresentadas. No texto do CDC, na categoria II foram incluídos os estudos que sugerem uma medida, as razões teóricas que recomendam e o que é empregado nos hospitais (isto foi incluído também na categoria I). O Guia Alemão, além destas situações, incluiu na categoria IB a opinião da maioria dos experts, que foi colocado como categoria III nos guias canadense e inglês. Nesta última classificação, foram incluídas pelo CDC a opinião de alguns hospitais ou de alguns especialistas e no guia canadense quando a conclusão era a partir de estudos sugestivos, fortes razões teóricas ou empregada em alguns hospitais.
Comparando-se as recomendações destes quatro guias em relação à lavagem das mãos, foram observadas divergências importantes quanto à categorização das medidas. Quanto às técnicas, a lavagem com água corrente foi considerada categoria I pelo CDC, recomenda por pelo menos 10 segundos e categoria III pelo Guia inglês, com a duração de 10 a 15 segundos. O manual canadense recomenda na categoria II que as mãos sejam secas com papel toalha descartável ou jato de ar quente. O CDC indica na categoria II uso de sabonete em barra ou líquido; o guia inglês na classificação III recomenda o uso de sabonete líquido e o alemão contra-indica sabonete em barra na categoria IB. A fricção de uma solução alcoólica é considerada categoria IA no guia alemão, que recomenda a lavagem com água e sabão apenas para situações de baixo risco (categoria IB). Já o texto canadense compara a eficácia da fricção de solução alcoólica à lavagem com água e sabão, recomendando como a categoria II. Este guia recomenda a utilização de anti-sépticos em situações de alto risco (categoria II, idéia compartilhada pelo CDC, só que na categoria III). Wendt também comparou recomendações oficiais de vinte e um países, inclusive o Brasil para as três principais opções de descontaminação das mãos. A lavagem das mãos foi referida em quase todos os guias, exceto o espanhol, apresentada com ressalvas na Alemanha (situações de baixo risco), Suíça e Suécia (em ambos, se estiverem sujas), Holanda e Reino Unido (em ambos, dependendo da preferência). A lavagem higiênica das mãos não foi citada nos guias argentino, alemão, mexicano, lituano, sueco, suíço e holandês. Nos demais foi citada com indicações bastante divergentes, destacando-se antes de procedimentos assépticos, entrar em áreas de risco, em situações especiais ou de alto risco. A fricção higiênica das mãos não foi citada nos guias argentino, francês, italiano e mexicano. Nos demais foi indicada principalmente quando não havia pia, situações de emergência ou em casos de alto risco.
O autor comparou as indicações para a higiene das mãos a partir dos guias americano (CDC), australiano, belga, canadense, francês, alemão, lituano, holandês, suíço e do Reino Unido. Muita divergência foi encontrada e nenhuma recomendação foi observada ao mesmo tempo em todas estas publicações.
As indicações para higiene das mãos antes de determinadas atividades foram as seguintes: procedimentos invasivos (oito guias); cuidados de pacientes de risco infeccioso (oito guias); contato com feridas, cateteres e drenos (seis guias); preparação, manipulação da alimentação sua distribuição ao paciente (três guias); ao início do trabalho (três guias); contato com artigos limpos (dois guias); calçar luvas (um guia); entrar em áreas críticas ou assépticas (um guia) e contato direto com pacientes portadores de germes multi-resistentes (um guia).
As recomendações para higiene das mãos após determinadas atividades foram as seguintes: contaminação microbiana (sete guias); remoção das luvas (seis guias); contato com feridas (seis guias); contato com sangue ou fluídos corpóreos (cinco guias); contato com superfícies possivelmente contaminadas (cinco guias); contato com pacientes infectados (cinco guias); uso de sanitários (quatro guias); mãos visivelmente sujas (três guias); final da jornada de trabalho (dois guias) e exame físico/cuidados de enfermagem (um guia).
Alguns guias colocam condições para higiene das mãos entre determinadas atividades: contato com diferentes pacientes em qualquer situação (três guias); contato com diferentes pacientes em unidade de terapia intensiva (dois guias) e diferentes atividades no mesmo paciente (dois guias). Outros guias relatam situações em que não está indicada a lavagem das mãos: antes ou após contato breve ou social com pacientes imunocompetentes (dois guias); após contato com superfícies que não estejam supostamente contaminadas (dois guias) e após cuidados de enfermagem/exame físico de pacientes imunocompetentes (um guia).
Wendt conclui seu artigo ressaltando a arbitrariedade com a qual muitos guias são realizados, pois poucas recomendações são baseadas em estudos clínicos, sendo a maioria a partir da opinião de especialistas ou experimentos laboratoriais. Existem também muitas dificuldades para se elaborar estudos que avaliem a técnica de higiene das mãos e poucos experimentos que correlacionam procedimentos hospitalares com o grau de contaminação das mãos da equipe. Finalizando, ele conclui que os guias devem ser claros e orientar a equipe quando e como lavar as mãos.

Fonte: Wendt C. Hand hygiene-comparison of international recommendations. J Hosp Infect (2001) 48 (Supplement A): S23-S28.

 

Resumido por: Antonio Tadeu Fernandes.

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