cap.
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Epidemiologia
hospitalar: um paradigma para segurança do paciente
Ao assumir a
presidência da Society for Healthcare Epidemiology of America
(SHEA) no dia 01 de abril de 2.001, o Dr William Scheckler fez um
pronunciamento no qual enfatizou contribuições realizadas
pelos seus antecessores no cargo, o impacto de documentos sobre
erros médicos, o campo de atuação dos epidemiologistas
de serviços de saúde e perspectivas para estes profissionais.
Em relação aos seus colegas, destacou o trabalho do
Dr Davis Spencer, que ao implementar um banco de dados com todos
os pacientes que receberam imunização contra gripe
suína, identificou uma forte, porém rara, associação
com a síndrome de Guillan-Barré. O Dr. Alexander Langmuir,
que afirmou na década de setenta: "formuladores de políticas
de saúde e clínicos que não conhecem ou não
sabem como aplicar a epidemiologia em seu trabalho, precisam ser
educados pelos epidemiologistas". Dr Philip Brachman, que junto
com o Dr John Bennett, uniram epidemiologia e infectologia publicando
o primeiro livro especializado em controle de infecção
hospitalar. A enfermeira Julie Garner que muito contribuiu para
a integração entre os epidemiologistas e os profissionais
que controlam infecção hospitalar.
Em 1999, com a participação do Presidente Clinton,
foi lançado um artigo pelo Instituto de Medicina intitulado
"errar é humano; construindo um sistema de saúde
seguro" no qual se afirmava que anualmente ocorreriam de 44.000
a 98.000 óbitos nos hospitais dos Estados Unidos devido a
erros médicos preveníveis. Estes dados foram extrapolados
a partir de publicações científicas prévias.
A primeira foi publicada no New England Jornal of Medicine
em1991 (Incidence of adverse events and negligence in hospitalized
patients). Neste estudo foram avaliados os registros de 30.121
pacientes internados em 1984 em 55 hospitais do Estado de Nova York.
Baseados em definições pré-existentes, foram
encontrados relatos de eventos adversos em 1.133 prontuários
auditados (3,7%), dos quais 1% foi relacionado à negligência,
correspondendo a 27,6% do total. Os principais fatores associados
foram cirurgia (48%), reações às drogas (19%)
e infecção do sítio cirúrgico (14%).
Evoluíram para óbito 13,6% dos casos e 2,6% dos pacientes
afetados ficaram com seqüelas permanentes. Foram identificados
160 casos de infecção, dos quais 21 (13%) foram relacionados
à negligência. Neste artigo os autores enfatizam que
"erro não é sinônimo de negligência".
O segundo estudo veio de um levantamento realizado nos Estado de
Utah e no Colorado no qual foram auditados 14.732 prontuários
em 28 hospitais e foram encontrados 459 casos (3,1%) de efeitos
adversos, dos quais 303 (66%) foram em pacientes cirúrgicos.
Foram considerados preveníveis 265 casos (57,7%). De acordo
com este artigo "complicações cirúrgicas,
reações adversas aos medicamentos, erro ou retardo
no diagnóstico e na terapêutica foram os mais caros
efeitos adversos. O custo destes eventos representou 4,8 do total
per capita.
Bremann é o autor principal destes estudos primários,
mas faz pesadas críticas às conclusões do artigo
do Instituto de Medicina, destacando: o mau uso do termo erro médico
distorce os achados dos estudos originais; esses estudos foram realizados
em 1988 e 1992 e não podem ser extrapolados para o momento
atual, pois houveram avanços comprovados na qualidade dos
hospitais; a elaboração do artigo do Instituto de
Medicina não contou com a participação de epidemiologistas
e de controladores de infecção; praticamente são
excluídos os esforços para controle de infecção,
citando apenas a higiene das mãos, representando menos de
1% do total do texto. Vários outros artigos publicados posteriormente
também fizeram críticas a este documento. De qualquer
forma, como resultado desse artigo foi criado um comitê (Quality
Interagency Coordination Task Force) pelo governo americano
que conta com a participação da Agency for Heathcare
Ressearch and Quality, do CDC, FDA e do Heathcare Financing
Administration. Este comitê recomenda que todos os hospitais
criem um programa para redução de erros médicos
e novas ações para melhorar a segurança de
medicamentos, hemoderivados e artigos médicos hospitalares,
relatando voluntariamente seus achados para a criação
de um banco de dados nacional a respeito do problema.
A ressalva relacionada à não participação
de controladores de infecção e de epidemiologistas
ganha importância quando avaliamos os resultados alcançados
por estes profissionais ao longo do tempo. A epidemiologia e controle
de infecção hospitalar começaram no CDC em
1966 e até 1970 os hospitais interessados participavam voluntariamente.
Os dados eram coletados por busca ativa, utilizando os critérios
diagnósticos padronizados e a incidência de infecção
era 4%. Um estudo de prevalência feito pelo próprio
staff do CDC viu que se identificava 80% das infecções,
chegando-se assim ao índice de 5%, que muitos até
hoje consideram o índice desejável, apesar de ser
calculado há mais de trinta anos.
O próximo passo do CDC foi o projeto SENIC (Study on the
Eficacy of Nosocomial Infection Control) realizado entre 1974
e 1985. Foram auditados prontuários de 338 hospitais com
mais de 100 leitos, selecionados randomicamente. Foram comparados
registros 1970 com os de 1975-1976 para se identificar ocorrência
das seguintes infecções: trato urinário, sítio
cirúrgico, pneumonia e bacteremia. Foi observada uma redução
de 32% destes episódios nos hospitais que tinham: programa
intensivo de vigilância global das infecções
hospitalares; um médico com interesse e conhecimento em controle
de infecção; uma enfermeira para cada 250 leitos e
informação para os cirurgiões de seus índices
de infecção. Vem deste estudo outro quase paradigma
do controle de infecção, que afirma que um terço
das infecções hospitalares são preveníveis.
Estes resultados foram fundamentais para que a Joint Commission
on Accreditation of Healthcare tornasse imprescindível
a existência desse de um programa de controle de infecção.
A partir de 1970, foi iniciado o National Nosocomial Infections
Study que veio a se tornar o Sistema NNIS, apresentado em março
de 2000. Este estudo demonstrou que durante a década de 90
houve um declínio acentuado nas infecções da
corrente sangüínea em UTIs. Também foi validada
a utilização do cálculo de cateteres/dia como
denominador para o risco de algumas infecções hospitalares.
Os seguintes aspectos foram importantes para esta redução:
participação voluntária e confidencial dos
hospitais, utilização de protocolos e definições
padronizadas, vigilância voltada para os pacientes de maior
risco (por exemplo: UTI e pacientes cirúrgicos); ajuste dos
indicadores para permitir comparações; número
adequado de profissionais treinados em controle de infecção;
disseminação dos indicadores de infecção
para os profissionais de saúde e correlação
entre os indicadores e as medidas profiláticas.
A partir de 1990, foi criado o Healthcare Infection Control Practices
Advisory Committee que elaborou guias baseados em evidências
científicas. Em outubro de 1978, o autor (Dr. William E.
Scheckler), sugeriu ao Diretor do CDC a elaboração
de guias para prevenção e controle das principais
infecções hospitalares, que deveriam ter bases científicas
adaptadas à especificidade de cada instituição.
Embora esta recomendação fosse referendada pelo Interscience
Conference on Antimicrobial Agents and Chemotherapy (ICAAC)
de 1978, levou quase quinze anos para ser colocada em prática.
O próprio autor verificou em sua instituição
ao longo do tempo uma redução acentuada da incidência
e letalidade das septicemias e de infecções em pacientes
submetidos à cirurgia de ponte de safena, por exemplo. Estes
resultados diminuíram a morbidade nos pacientes, com diminuição
acentuada nos custos hospitalares.
Está claro que a segurança dos pacientes e a qualidade
assistencial são os novos paradigmas da assistência
à saúde. No próprio hospital do autor, a CCIH
é agora chamada
de Divisão de promoção de qualidade na Assistência
à Saúde. Portanto, é nossa obrigação
enfrentar este desafio com a maior ciência disponível.
O autor também afirma "não há dúvidas
na minha mente que a participação do controle de infecção
e dos epidemiologistas hospitalares em toda a iniciativa de qualidade
e segurança aos pacientes aprimora os resultados alcançados...Nós
devemos ser assertivos ao valorizar o que o nosso conhecimento representa...Acima
de tudo, o paciente é o centro de todas as coisas que nós
fazemos...Eu comecei em 1968 como epidemiologista hospitalar e controlador
de infecção e continuo a ser epidemiologista de serviços
de saúde e controlador de infecção".
Em debate com a equipe responsável pelo artigo que estimou
ocorrerem nos Estados Unidos 98 mil óbitos anuais relacionados
a "erro médico", o autor questionou a pouca importância
dada ao controle de infecção, recebendo a seguinte
resposta "vocês devem ter sorte de ter dez referências
em nosso artigo. Outros setores não têm nenhum".
Segundo o autor, isto sugere que a publicação foi
incompleta em seus objetivos e que "os ativistas de programas
de segurança ao paciente necessitam desesperadamente da ciência
e da sabedoria que os epidemiologistas de serviços de saúde
e os controladores de infecção desenvolveram em mais
de três décadas de resultados favoráveis. E
vamos dar isto para eles".
Fonte:
Scheckler WE. Healthcare Epidemiology is the Paradigm for Patient
Safety. Infect Control Hosp Epidemiol (23):47-51, 2002.
Resumido por: Antonio Tadeu Fernandes

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